sexta-feira, 27 de junho de 2014

28 - ESPERE O OUTONO PASSAR

Trilha - Collective Soul - adored






                                                             Por questão de horas tudo aquilo me deixara seriamente apreensivo, uma bala atravessando a vidraça da sala de Carol. Por que alguém faria algo assim? De que forma poderia saber que nós três havíamos jogado Caio num rio... Talvez fosse uma punição.
        Rodava pela cidade, avenida T-4, Multirão, algumas vias do Setor Sul, República do Líbano, até pegar a Independência e partir rumo Campinas. Nem chamamos policia nada, trancamos o quarto enquanto arrumávamos umas coisas e depois saímos dali no pulo, deixei Carol na casa da tia e disse para que não se preocupasse, dormiria em um hotel, inicialmente eram meus planos. Fiquei meio mal ao saber que um homem desconhecido de voz muito estranha estava disposto a acabar com a minha vida, me incomodava relembrar toda aquela conversa que ouvira ao telefone àquela noite, meu pai e o homem que o ameaçava. Até onde poderia confiar em mim mesmo e nos outros, eu não sabia ao certo, de repente um carro passara no sinal que acabava de se fechar, e eu que já acelerava em direção ao cruzamento tomei um baita susto com a buzina ofensiva do filho-da-mãe que enfiara na minha frente. Gritei, não cheguei a pronunciar algo, fora apenas um grito de libertação.
    Vinicius atendera o interfone e pediu para que entrasse, foi constrangedor chegar enquanto jantavam, mas eu era incapaz de calcular horários com tanta coisa estranha acontecendo ao meu lado. Dona Marta acrescentou mais um lugar a mesa, e eu, após um intervalo, me satisfiz com minha primeira refeição. Enquanto comíamos não comentei nada sobre o ocorrido na casa de Carol ou qualquer coisa do tipo, o silêncio que parecia eterno, enquanto os talheres se movimentavam, era quase sufocante.
    Assim que terminamos a sobremesa, Vinicius avisou que iria subir, e eu o acompanhei.
—Tudo bem com você? —Perguntou depois de me analisar por algum tempo. —Veio me visitar? Já fazia tempo. —Sentou-se e logo estava abrindo uma lista de e-mails aleatoriamente, abria e fechava-os, sem mesmo ler.
—A Carol me pediu para sair de lá, agora pouco aconteceu uma coisa muito estranha, você nem vai acreditar...
—Diz aí.
—Alguém ligou para a Carol, e depois de ameaçá-la atirou contra a vidraça da sala. O fato é que eu não tenho onde ficar, Vinicius.
—Fique aqui. —Disse me fitando. —Mas ligaram para policia? A mãe dela ainda está viajando?
—Está sim... nem sei quando chega.
    A porta se abriu sem aviso prévio, o que fez com que Vinicius reclamasse dos modos de seu pai.
 —Oh, eu sempre me esqueço de bater… — desculpou-se. — ligação para você, Augusto. —Olhei meu celular, descarregado.
—Pode atender aqui mesmo, no corredor, se quiser.
    Foi o que fiz, sai do quarto e atendi no corredor.
—Augusto, estou assustada… contei tudo ao Renato e chegamos a conclusão que alguém nos viu aquele dia no rio com Caio. Precisamos pensar em algo rapidamente.—Disse Carol.
—Meu Deus! —Soltei, vi os galhos passando em mim outra vez.
—O que houve?…Augusto?
—Nós esquecemos a mochila.
—Que mochila? —interessou-se.
—Eu vi a mochila do Caio aquele dia entre as árvores, a mochila dele… ele não estava com ela quando… —Carol começou a ficar de leve fanhosa.
—Alguém quer me matar…Meu Deus…
—Carol, como soube onde eu estava? —A pergunta fez com que ela inspirasse e soltasse um desabafo em forma de qualquer ruído indecifrável.
—Essas coisas não são difíceis de se deduzir. —E então ouvi um barulho estranho, como se sugasse um liquido pelas narinas.
—Precisamos saber quem é que está ligando, precisamos achar o cara. O Fato é que andei quebrando a cabeça pensando nisso, e não sei como.
—É o Vinícius, eu já disse, ele sabe de tudo, Augusto. Ele nos seguiu.
—Não é ele, Carol, eu tenho certeza. Além do mais, naquele dia ele já havia ido embora, todos os ônibus já haviam saído.
—Você não acha que estamos com olhos sobre o sujeito e não queremos ver, só pode ser alguém que nos conhece. Eu não sei o quanto você confia no Vinicius, mas eu acredito que ele não retribui a consideração que você tem por ele. Espero que não tenha lhe contado nada sobre o que aconteceu àquela tarde.
—Não, eu não disse. —Carol consegue ser implacavelmente chata quando está disposta. —Eu vou desligar. 
    Quando me virei para retornar o quarto, me deparei com o pai de Vinicius, logo atrás de mim, parecia estar escutando minha conversa sem que eu percebesse, ou esperando um trem que não passaria.
— O Vinícius disse que você vai ficar com a gente por alguns dias. —Fiquei envergonhado.
—Na verdade eu não sei… se não fosse nenhum incômodo…
—Que isso? Será um prazer ter você aqui, Augusto.
    Eu vinha me sentindo em uma cova de leões, todos eram tão inocentes e culpados ao mesmo tempo. Quem poderia estar no rio além de nós quatro? Em nenhum momento eu vira alguém. Sei que em Vinícius eu confiava, não poderia ser ele, Carol estava imaginando coisas. O que andava me perguntando era o que poderia ter acontecido com o Caio. O corpo não apareceu, e sabíamos por alto que a família estava apelando para programas locais e divulgação em rádios FM’s. Quando um dia, jogado na cama de Carol, vendo televisão vi a foto de Caio na sessão de desaparecidos, aquilo me deixara imóvel e coagido. Era como todas aquelas outras que são transmitidas diariamente e você mal olha na cara da pessoa exposta, mas agora era Caio que estava ali. Caio Amaral, dezessete anos, desaparecido há oito dias. Quem soubesse de qualquer informação deveria entrar em contato com o distrito policial mais próximo ou com o conselho tutelar da infância e da juventude. “Nós estamos fudidos.” Pensei. Na verdade não sabiam ao certo onde procurar, pareciam curiosos em nós inicialmente, mas os interrogatórios no colégio, aparentemente não deram em nada. Nós nos saímos muito bem.
      Enfim, estava de volta ao quarto, fora de devaneios.
     O dia já havia passado, mais um. — Já era bem tarde quando resolvi ir até a janela, talvez fechá-la devido ao vento extremamente frio que se aproveitava daquela oportunidade, mas por algum motivo não fechei. Fumei um cigarro. — A Internet também já estava sem graça. As pessoas se fantasiam demais atrás de um monitor, é incrível o que você vê em sites de relacionamento. São nomes falsos, experiências inadmissíveis, relatos destorcidos, encontros sem nexo. Uma coisa de outro mundo, mas que seduz, que nos dá poder, que nos confunde. No fundo, é mais uma droga como todas as outras.
—Eu vou me deitar. —Eu o chamei sem motivação.
—Ainda é cedo.
—Eu estou muito cansado, se você quiser continuar, eu não me importo. Só deixa a luz apagada. —Deitei.
—Não vai se cobrir? Está frio. —Me cobri então, aproveitei e tirei os tênis com o próprio pé, de forma que ainda permanecia-me deitado. Estava de calça jeans e camiseta. Incomodado, sentei-me, tirei a camiseta e voltei a me deitar. Ele que sentava na cadeira giratória de frente para o monitor, se virou e pôs-se a me olhar.
—O que foi? —Perguntei de modo grosseiro.
—Não... nada. Vou ligar o som para a gente dormir.
    Estava tocando ''adored'' do Collective Soul na rádio, ele jogou-se na cama, e não se achava. Era impossível conseguir dormir com ele mudando de posição no colchão de trinta em trinta segundos. Perguntei se alguma coisa o atrapalhava dormir e ele imediatamente disse que não, não havia nada de errado. Outro tempo agonizante se passou até que ele resolvesse dizer.
—Augusto?
—Oi. —Fiz um movimento rápido com a cabeça, para que pudesse vê-lo.
—Eu posso. . . Tô afim de deitar na sua cama... —Demorei um pouco, mas naturalmente eu disse que estava tudo bem, ele poderia se quisesse.
    Ele se levantou apressadamente e se deitou ao meu lado, meio sem graça pôs-se novamente a me olhar. Debaixo do edredom, meus pés, sem meias, roçava seus calcanhares.
—Podemos apenas dormir juntos? Assim?
—Por mim... tranqüilo. —A porta estava trancada.
    John Steinbek escreveu uma vez: “A mudança vem como um pequeno vento que agita as cortinas no amanhecer e vem como o discreto perfume das flores selvagens escondidas na grama.”


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(Vinicius e Augusto passam a noite na mesma cama)


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