Policiais ali assim… primeira vez que via alguém ser caçado e preso pela justiça. Será que realmente o pai de Augusto havia matado a esposa? E agora seria algemado, levado e julgado. Se fosse qualquer coitado, seria condenado e apodreceria naquelas prisões imundas do nosso país. Os jurados se deixariam levar facilmente pela aparência empobrecida do réu, e como uma cultura milenar, associariam todas as evidências e negras acusações ao seu caráter. Condenado por unanimidade. Mas ricos deste país roubam, matam e estupram todos os dias, e não são presos. Quando são é por insistência da nação, e quase sempre estão livres bem antes de meia pena. Se lembra da velha expressão “Crime do colarinho branco” cunhada por Edwin Sutherland? A frase foi apresentada em seu discurso de posse na presidência da American Sociological Association, em 1939, para quem aqueles são os “crimes praticados por pessoa de respeitabilidade e status elevado, em razão de sua ocupação; um criminoso com elevado status socioeconômico que descumpre a lei que regula suas atividades profissionais”. Desde então, o conceito tem recebido críticas e sofrido evoluções, embora, na essência, continue a representar aquilo imaginado por Sutherland: crimes de natureza profissional, praticados por pessoas influentes.
—Você é o filho dele?
Meu amigo pareceu pensar por uma leve fração de minuto.
—...Sim.
—Poderíamos lhe fazer algumas perguntas?
—O que houve?
—Bem... no momento estamos a procura de provas. Podemos entrar, por favor?
De repente Marcos apareceu, descia os degraus, havia chego minutos antes, meio aturdido posso dizer, quando nos vira na mesa, pareceu-me aliviado e tenso, ao mesmo tempo. Subira com a intenção de tomar uma ducha e guardar o equipamento de Tênis. Agora descia limpo, exalando um cheiro de colônia pós-barba e gel fixador. Senti-me constrangido, presenciando tudo silenciosamente. Será que os policiais usariam algemas e tudo mais? Vou confessar que achei tudo isso o máximo... sempre quis ser repórter e sempre me senti atraído por investigações, criminalística, assaltos milionários.
Antes mesmo de se juntar a nós na sala, ele perguntou com autoridade:
—O que houve, Augusto? O que os senhores querem?
—Dr. Marcos Bueno de Almeida?
—Sou eu mesmo. —Disse estendendo a mão para o policial, ele a desprezou inserindo rapidamente o motivo pelo qual procuravam-no.
—Por acaso o senhor conhece Solange de Souza Neves? Tivemos informações de que estavam se relacionando. Estavam tendo um caso, Dr. Marcos?
—Um caso não, por favor … Conheço sim, é uma grande amiga. Quem são vocês?
—Investigador Nonato. —Disse o mais gordo.
—Félix Rosa. —mostrou sua identificação policial.
—Sinto muito informá-lo, mas Solange foi encontrada morta no inicio desta tarde, assassinada e mutilada, eu quero dizer, aberta por algum material de corte preciso. O laudo de exame médico legal deve sair em algumas horas…
—O que vocês estão me dizendo?
—Que em breve saberemos os motivos da morte de sua amiga, —E fez questão de pronunciar as palavras “sua amiga” pausadamente, como quem reflete sobre os fundamentos filosóficos de uma grande questão. —Fora encontrada dentro de sua casa, no condomínio onde morava com sua filha e uma empregada. Aquela região próxima ao Garavelo é perigosa, Dr. Marcos.
—E o filho?
—Que filho?
—Solange também tinha um filho, de uns vinte e cinco anos talvez... —Ficou um tempo curto olhando um nada na parede. —Me desculpem, por favor. Eu estou chocado.
—Poderia nos acompanhar, Dr. Marcos? Apenas para nos ajudar com algumas questões.
Um ilocável desconforto parecia transitar pela sala, rondando nossos corpos. Fora naquela manhã que vira Solange entrar no quarto de Augusto, gritar com ele e enfrentá-lo como se fosse proprietária da casa, carregava uma bandeja nas mãos, e horas depois, seu corpo sem vida jazia dentro de uma casa, retalhado, sangrando, esperando ser descoberto. Tenho certeza que Augusto desejara isso momentos antes e agora não me parecia culpado, nem vitorioso, parecia-me apenas incompassível.
—Claro, claro que sim. Um de vocês poderia me acompanhar em meu carro, por gentileza? —Augusto se distanciara de forma que agora estávamos bem próximos, seu pai nos emitira um forte olhar enigmático e se retirou.
—Não se preocupe, Augusto. É apenas um procedimento de rotina. —Disse antes de sair.
Eu o olhei, e como quem o conhece, posso dizer que usava uma de suas expressões carregadas, estava mergulhado em seus tumores mais profundos, seus demônios o usavam com profusa satisfação. Eles o queriam. A porta se fechou. Calculadamente ele se retirou em direção à cozinha, eu o segui porque estávamos sós e não sabia o que fazer. Peguei-o esvaziando uma caixa de cereais. Passou-me a primeira e pegou uma segunda. Eu me recuei, recusei todo o conteúdo daquela tigela plástica colorida.
—Não vai querer por quê? —Interrogou-me infantilmente.
—Eu não quero, obrigado. Eu acho que você precisa ligar para o seu advogado… vocês possuem um, não? — Estava preocupado, porque inicialmente estava raciocinando de forma errada. Vejam só, o pai do Augusto parecia estar envolvido no assassinato de sua suposta namorada, e se tudo que sabíamos sobre sua própria mulher fosse verdade, ele estaria em uma grande encrenca, uma encrenca como nunca esteve antes. —Meu pai não exerce a área criminal, mas possui muitos amigos, e excelentes advogados.—Não é necessário, obrigado. E ele mesmo pode fazer isso caso precise de um. —Sentou-se ali mesmo, em uma pequena mesa, normalmente usada por Maria, em suas refeições diárias. —Eu não vou à delegacia e não vou me envolver chamando advogado. —Estava mais irritado. —Não vai mesmo querer? —movi o rosto confirmando negativamente.
—É seu pai. —Afirmei.
—Não é, Vinicius… —Como não, se durante toda a vida fora ele que estava ao lado, e se não fosse, quem mais seria? Certas coisas que se passavam na cabeça de Augusto eram de difícil compreensão.
—O fato, Augusto, é que esse homem que levaram daqui, não parece ser esse assassino em série que habita sua cabeça.
—Ele matou minha mãe, eu sei, e agora matou aquela mulher horrível com quem vinha saindo, é um psicopata. Olha só… abrindo o corpo da mulher!
—Muito óbvio, não? Augusto, você é um cara muito inteligente, sei porque é por isso que te admiro. Para um minuto para pensar e você logo chegará a verdade.
—Não consigo raciocinar como você. Você não presenciava as brigas e agressões entre meus pais, ele tinha ódio dela. Era um amor doentio, ela o humilhava diariamente, o desprezava. Eu não existia dentro dessa casa, Vinicius, mas via tudo, eu via tudo. É fácil para você supor que ele é um simples inocente, eu não o vejo assim. Porque se ele é tão humano quanto eu ou você, chegaria o dia em que ele não mais suportaria tanto desprezo, chegaria o dia em que ele, por amor próprio, desejaria se vingar. Ele a matou, algo aconteceu naquela fazenda que o fez chegar ao seu limite, ou então, talvez, tenha agido de forma premeditada e antecipado tudo antes mesmo de partirem.
—Você não tem certeza do que está falando.
—Eu sei o que estou falando, ok?—Sua teimosia em querer que tudo fosse como pensava, também começava a me irritar. —Você viu como ele chegou essa tarde? Quem pode dizer onde estava?
—Pensei que estivesse no clube.
—Eu não tenho essa certeza, meu irmão. —Silêncio. —Mas se agora está em alguma delegacia por ai, é porque foi necessário que estivesse… vou deixar que a própria policia resolva agora. Eu não vou à delegacia inocentar um assassino, o próximo pode ser eu… pode ser você.
—Acha que seu pai seria idiota o bastante para matar aquela mulher e marcá-la assim de forma tão inepta? Você está sendo um idiota.
—Eu não sei…
—Está na cara que não foi ele, ninguém é suficientemente retardado. Quer saber? Estou indo embora. Às vezes você se torna um cara muito estranho, e quase sempre detesto esse seu lado que não conheço. Se precisar de qualquer coisa pode me ligar.
—Eu te levo.
—Não precisa não, eu tô meio cansado, preciso caminhar um pouco, saca? —Recolhi meus materiais sobre a mesa em que estávamos e sai dali. Iria terminar meus exercícios longe daquela neurose.
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(Vinícius voltando para casa no final da tarde)
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