Aquela mistura de banana, aveia e cereal, cor de nozes, que Augusto preparava, não era a mesma quando eu fazia em casa. Talvez fosse a quantidade excessiva de açúcar que com facilidade, passava das mãos para o liquidificador. E não me agradava a idéia que vinha em mente, de que por isso eu seria mais doce que meu amigo. Acredito não ser difícil supor que pessoas que ingerem açúcar em grande escala tenham seu sangue mais doce do que outras que repelem com desejo. Seu sangue mais doce, se locomovendo internamente, passando por todos os órgãos, transformando-os em órgãos mais doces. Augusto… sempre fora-me tão encantador quanto abominável. Hoje já perdi o hábito de ficar pensando como ele está, se ainda mora no mesmo endereço de sempre ou se ainda vive nesse mundo, mas esquecê-lo é praticamente impossível. Sentar a mesa tão cedo da manhã, inevitavelmente me trouxera lembranças do Campus PH, a mente pulsando, promovendo ondas, resgatando a tempestade que transfornara meus pensamentos, e fizera de mim algo que ainda não sei o que é.
Os candidatos a uma vaga, em um dos mais prestigiados colégios do país, naturalmente sabiam que estudar ali não era uma tarefa fácil, em primeiro lugar pelo ritmo rigoroso de seus educadores; ou seus dias se transformavam em uma rotina diária de estudo e trabalho ou você não duraria um semestre lá dentro; segundo pela competição cerrada travada entre os próprios estudantes, entre as próprias séries, entre famílias e sobrenomes, entre oficiais e bolsistas, entre grupos distintos responsáveis pela enformosa diversidade dentro do instituto. Ainda assim, havia um encanto, uma promessa burla de luxuria e satisfação a todos aqueles que aguardavam, àqueles que desejavam ser admitidos. O prestigio, talvez fosse o único elemento capaz de produzir em nós certo contentamento. Na tarde em que soube que havia sido aceito, antes mesmo de mudarmos para a capital, semanas antes de conhecer e explorar cada canto exprimido do instituto, eu já sabia que minha vida havia mudado. E naquela mesma tarde, comemoramos minha partida com sanduíches, sorvetes e refrigerantes, nos entupimos na lanchonete do Mario, eu e meus três companheiros de infância que naquele momento deixaria para trás, naquela cidade que jamais voltara a ver. Eu temia a certeza de que nada mais voltaria a ser como antes, e que provavelmente a paz daqueles dias não mais obtivesse. E não estava nem me importando, a cidade, a capital, me seduzia. E a vida entre os alunos do Campus PH parecia-me demais encantadora para ser dispensada. Era a chance, havia sido selecionado entre dezenas, decidi de imediato nem pensar em rejeitar tal convocação. E assim me despedi de Murilo, Guilherme e Rodolfo. Atualmente divido um apartamento com Guilherme e sua prima, não é nada demais... foi apenas uma fase, período de faculdade, estou formado. Depois das férias de fim de ano ao lado da minha mãe, devo procurar o meu próprio lugar.
Ao longo dos anos você percebe como estamos em constante mutação, passei dezessete anos vivendo outra realidade, a vida pacata e simples das pequenas cidades, em seguida posso dizer que atravessei uma séria turbulência, que fez de mim o que hoje sou, mas só agora me encontro em paz comigo mesmo, e quase nunca, quase nunca mesmo paro para lembrar detalhes de tudo que aconteceu...
A grande verdade é que o mundo se abrira diante os meus olhos, quando no primeiro dia de aula, me vi perdido entre tantos outros jovens elegantemente vestidos em seus uniformes, e portadores de sorrisos ricos e rostos limpos e iluminados, donos de olhares desconcertantes. Conhecer Augusto não foi de forma alguma uma tarefa árdua, muito pelo contrário, parecia-me de imediato alguém tão indefeso e solitário, e essa combinação me incentivava a procurá-lo. Na primeira semana, percebia-o rondando-me, eu o olhava com receio e distanciamento, estava assustado. Às vezes passavam grupos de rapazes jogando sobre mim um ar de asquerosidade e repugnância, chamavam-me pejorativamente de novato, outros mais agressivos usavam o termo “novato do curral” e eu simplesmente abaixava o olhar como quem se sente culpado de atos vergonhosos. Algumas garotas apreciavam-me de longe, o que não era nada incomum, sempre soube que meu físico atraia muitas mulheres, entre meu grupo de amigos, sempre fora o mais desenvolvido, digamos assim, os flertes eram quase sempre direcionados à mim, de modo que agora ficava claro os desejos libidinosos de uma ou outra que passava por ali a me encarar. Augusto sempre estava próximo, procurava meu olhar, e sorria tímido quando o encontrava, sentava-se na minha frente. Ao contrário de todos os outros, que me ignoravam por ser recém-chegado ou provinciano, como mesmo faziam questão de declarar em minha presença, Augusto sempre me recebia afavelmente, e parecia estar sempre me chamando ou me atraindo para mais perto de si. Eu gostava dele, porque me parecia diferente, inteligente, urbano sem ser superficial, de uma fisionomia confiável que sugeria um leve traço de malicia, falava de coisas das quais eu nunca ouvira antes, e prometia me apresentar a cada uma delas, à lugares desconhecidos, à livros e escritores novos, à músicas, cantores e bandas de outros continentes, e à obras de arte que em mim só existiam na imaginação, construídas através de suas descrições tão detalhadas. E assim, fazia-me acreditar que por mostrar-me todo um universo, eu jamais poderia me distanciar. Estava sendo construída uma nova versão de mim mesmo e no fundo sabia que o novo não seria tão notável se também não estivesse tão próximo de seu criador.
No momento recordo-me especificamente de uma manhã. Ainda era cedo, não fazia idéia de que horas eram porque quando estávamos juntos tais preocupações pareciam-me desnecessárias. Se passava da hora e não quisesse ficar, Augusto me deixava em casa, e sempre me olhava com aqueles olhos que me metiam medo quando, já de frente em casa, me despedia. Nessa manhã, a que me refiro, estávamos sentados na mesa de jantar respondendo uns relatórios de Física, ele sempre fora péssimo em matérias que levavam cálculos e possuía uma imensa dificuldade em gravar todas aquelas fórmulas que em seu pensar não faziam sentido algum.
—Você está muito nervoso hoje! —Observei. — É sério. —Ele olhou irritado.
—Ah, valeu pelo diagnóstico, Vinicius. Acordar às sete da manhã com aquela mulher adentrando meu quarto e agora estar de frente para trinta questões de física e querer voar pela escada enquanto me sinto amarrado aqui, tudo isso é muito excitante! —disse ironicamente sem tirar os olhos de seus cálculos, que se iniciaram, mas não progrediam.
—Anda parecendo a Carol... Você precisa se concentrar... Temos prova com a professora Leila na próxima semana. Não podemos entrar na lista de recuperação, seria perder um final de semana inteiro dentro daquele mosteiro.
—Se o Campus fosse um mosteiro… aquele lugar está infestado de gente nefasta, repulso pelo menos oitenta por cento daquelas pessoas.
—É...Você tem razão, antes de ser aceito, a idéia que vinha em mente era totalmente outra. Talvez porque tudo isso também estivesse bem longe da minha realidade. O que vemos ali são frutos diabólicos do capitalismo, da soberba e da futilidade. Por mais que sejam cultos e estejam muito acima de uma média padrão, o que vemos é um orgulho superior, quase narcisista de serem o que são. Eles simplesmente consomem, sem absorver quase nada.
—Vinicius... Não adianta perder seu tempo pensando em mudar as pessoas e reformular o mundo... —Escutamos a campainha, a portaria não se comunicara avisando a subida de quem quer que fosse, e vi sua sobrancelha se levantando em arco, os fios claros que se encontravam ao centro. Ele se levantou, esperava qualquer desculpa para se levantar o mais rápido possível. —Mas eu concordo com você. —Acrescentou.
Em seguida foi atender a porta.
Rezei para que não fosse Carol, andava me incomodando a forma como vinha me encarando nas ultimas semanas, desconfiava até de que talvez soubesse de coisas das quais eu não gostaria que soubesse, e isso só me deixava ainda mais confuso. O seu olhar dizia, “Vamos lá, eu te conheço, sei exatamente o que está pensando”, Carol sempre me parecera uma garota muito perspicaz. Daquelas que conseguem tudo que metem na cabeça. Augusto saiu com um ar cansado, evocando males físicos e se arrastou em direção a porta de entrada. Levantei-me com certa curiosidade, a distância, quando abriu a porta, pude ver dois homens engravatados, que viam tudo, passavam os olhos por cima dos ombros de Augusto e vasculhavam a sala. Momentaneamente pensei em ladrões, talvez uma quadrilha especializada em condomínios de luxo houvesse invadido o prédio. O mais gordo parecia uma cópia exata de Fred Flinstone. Seu parceiro era magro e ligeiramente mais alto, branco sardento, queixo cumprido e afilado.
—O Dr. Marcos está? —Mostrou um distintivo, então supus que o pai de Augusto estivesse metido em uma grande encrenca.
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(Alguns alunos do Campus PH)

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