Já tinha em mente que quando Augusto chegasse com seus quarenta minutos de atraso, o que nunca acontecera antes, provavelmente estaria acompanhado. E realmente aconteceu. Havia convidado minha prima, mas Sarah ajudava o pai em seu Café, a caixa do estabelecimento se demitira sem ao menos um dia de aviso prévio e a vida é assim mesmo, estudo e trabalho, estudo e trabalho, com sorte você consegue um tempo, um dia inteiro para se divertir. Eu estava só em casa, e quando o interfone soou, eu tentava manter-me em pé para que não parecesse amassado quando saísse. Tranquei a porta rapidamente após desligar a tevê e sai de solavanco. Carol estava na frente penteando seus cabelos ruivos e radiantes e parecia ser uma atriz de cinema, pela magnitude com que passava a escova pelos fios, sorriu como uma atriz, desmotivado retribui em consideração. Renato estava atrás e soltava jatos de fumaça tão poderosos quanto testes nucleares. Detalhe, os três usavam óculos escuros. Enfiei-me no banco traseiro, e me propus ser simpático caso dissessem qualquer coisa, mas convenci-me de que não diria nada com a intenção de tentar ser agradável.
Estar entre os três me levou pensar em Caio, ou a me lembrar dele, sumido há semanas, nada esclarecido e eles fingindo que nada estava acontecendo. Gostaria de ter levantado o assunto, mas preferi confiar em minhas decisões anteriores e nada dizer, mesmo assim estava bastante atento sobre qualquer indicio que levaria a questão. O que ouvi aquela tarde fora uma verdadeira devota por Virginia Woolf, construindo frases românticas, na tentativa de expressar o que de fato supunha sentir. Ouvi-a dizer, “Se fosse uma escritora, seria Virginia Woolf, acabei de ler Mrs. Dalloway pela sexta vez. E sinto-me capaz de reescrevê-lo a qualquer momento, consultando apenas minha memória.“ Fora tão difícil de ouvir, tão como é difícil de acompanhar atores brasileiros que gravam filmes ingleses e depois são traduzidos novamente para o português, com uma outra voz, uma voz estranha, e você sente o cheiro de alguma coisa tosca muito próximo de você, de modo que de forma alguma você se sente enganado.
—Hein? —Renato questionou-me, de forma, digamos assim, irritante. —Quem seria se fosse alguém famoso?
—Alguém famoso? —Quem eu seria? — Não sei… Leonard Cohen. —Pareceu agradar.
—Com certeza eu seria Tobey Miguire, o homem aranha. Olha só… o que você acha? —Disse que achava ótimo. —Como pude me esquecer de Tobey Miguire! Excelente escolha.
—E você, Augusto? —Perguntei. —Quem seria?
—Eu seria Marcelo Bonfá. —Disse rindo, o que levou todos à uma espécie remota descontração.
A residência de Beaumont se localizava em uma ampla esquina do setor Sul, contornando a praça Cívica com seus jardins e pegando a oitenta e quatro. De frente à ela, o palácio governamental das esmeraldas, e o edifício administrativo Pedro Ludovico Texeira, com seus vidros enegrecidos que refletiam o céu da tarde àqueles que vinham em direção oposta a avenida Goiás, de onde se originou praticamente tudo que víamos hoje, toda a cidade, aquela praça era o feto, e fora todo o principio. Tivemos certa dificuldade para encontrá-lo, porque as ruas do setor sul, de um modo muito estranho, foram numeradas e espalhadas aleatoriamente como varetas coloridas. Eu passava por lá todas as manhãs, mas ainda não sabia me localizar na cidade, sabia apenas que não estávamos tão longe. Em cada rua ou avenida que entravamos, Carol cantava um numero, tão sortidos que realmente pareciam pedras sendo pescadas em um saco, como um jogo caseiro de bingo. Noventa e um, e na seguinte ela gritava, cento e quinze.
—Como alguém pôde nomear as ruas dessa forma? —Clamou Augusto no volante.
—Não ajuda ninguém a se localizar. —Carol concordou sem muitas perspectivas.
—Você não passa por lá todos os dias, Vinicius? —Perguntou Augusto.
—Passo, mas nunca presto muita atenção.
—Se fosse mais atento teria nos poupado todo esse tempo... —E por uma questão de sorte, encontramos a de numero oitenta e sete, a rua de Sander, algumas quadras a frente. Ao descermos, Augusto avaliou o imóvel, o terreno e a construção, com o profissionalismo de um critico arquiteto decorador. Não sei por qual razão queria se dedicar ao jornalismo, à política e história se na verdade parecia muito mais ligado em cores de paredes e detalhes geométricos. Artigos de decoração.
Sander foi bastante receptivo à comitiva, descontraído também. Quando a porta se abriu, uma orquestra sinfônica tomara conta do corredor, ele nos convidou a entrar. Era um grande apreciador da música clássica e fez questão de nos apresentar à Schubert, um de seus compositores favoritos. Usava calça jeans surrada e sandálias de dedo com meia, na camisa preta havia um nome de banda, não me lembro agora qual era, e pela primeira vez deixava amostra sua tatuagem, no ante-braço direito, um violino totalmente negro de oito ou dez centímetros, e ele dizia saber tocar um desses muito bem.
—Vou lhes apresentar ao meu velho amigo. —Era um simples violino, que ele tirou de dentro do estojo e o posicionou no colo, em vez da posição correta de apoiá-lo no ombro. Passou de leve o arco sobre as cordas.
—Poderia tocar? —Sugeriu Augusto.
—Ah, mais tarde. Primeiro, quero que experimentem uma bebida especial, que acredito ser para vocês, totalmente nova. —E retirou de algum lugar uma garrafa já aberta da tal novidade, um liquido azul-esverdeado, que de longe lembrava a gasolina de aeroporto. —Absinto! —Revelou finalmente. Alguma coisa, acho que a cara que fizemos, o fez questionar se nós éramos contra um drink no meio da tarde. Apressamo-nos em dizer que não, de forma alguma.
Os outros três já estavam na sacada do quarto poluindo um pouco mais o ar externo, que vicio era aquele que não podia esperar quarenta minutos, ou fumar um de cada vez? O fato de Augusto estar tão próximo de pessoas como Carol e Renato, em minha opinião, certamente o levava a agir de forma a aderir tudo que era proposto. E por algumas vezes o alertei a respeito, mas não iria mais me intrometer em suas amizades, se era ali que ele parecia estar bem.… Carol se manifestou:
—Seria lindo ouvir você tocar seu violino, mas será que poderia tirar essa música e colocar alguma outra coisa? ...está me irritando.
—Escolha alguma coisa, ali estão todos meus CDs. —Não eram muitos. Ela soltou seu cigarro e se dirigiu ao som.
Logo um copo apareceu em minhas mãos.
—Vai, Vinicius, toma. —Sander era tão nazista quanto achava que os coordenadores do PH fossem. Tomei. Carol soltara um aplauso de satisfação e vontade de ser a próxima. Um gosto de anis se propagara ao mesmo tempo em que toda boca, nariz, garganta e esôfago eram anestesiados. Eu senti algo muito rápido subindo em direção ao cérebro e comecei a rir do agito de Carol. O que exatamente era aquilo eu não sei, mas não tomaria outro novamente. Com certeza não, muito obrigado.
—The Smiths. —Disse Carol com o pequeno disco na mão. —Alguém conhece? Adorei a capa desse disco.
—Ótima escolha. —Disse meio alterado. Schubert foi logo substituído estrategicamente por uma canção melancólica. Eu gostava daquilo. —Pode aumentar!
—Não tem ninguém aqui, na sua casa? —Perguntou Renato.
—Apenas meu irmão, mas está no quarto e não vai nos atrapalhar. —Fiquei pensando se não seria nós que estávamos a atrapalhá-lo.
Naquela tarde várias coisas foram ditas sobre Sander, nosso amigo filho de franceses. Viveu inicialmente em Vitória, e aos dezesseis, no auge de sua adolescência, conhecera o meio-oeste brasileiro, viu Goiânia pela primeira vez. Já estava na cidade há três anos e agora vinha se apresentando com seu violino em um café da cidade, um dos mais badalados naquele momento, com livraria e tudo. Sobre as apresentações de Sander, nunca estava sozinho, ele acompanhava um amigo que fazia vocal e violão. Mas se consideravam uma formação, então, Sander poderia ser considerado cinqüenta por cento da banda.
Posso dizer que fui induzido a mais uma dose. “Eu toco guitarra.”—Disse com uma voz antipática. Toca… Eu que não queria ouvir, Augusto já havia dito antes que escutar a guitarra tocada por Carol era como escutar as trombetas do inferno, não só as trombetas mas como acompanhar um espetáculo inteiro, com número de dança e playback.
—Vocês conheciam o aluno desaparecido, Caio? —Perguntara Sander, eles se entreolharam. Aquilo despertara minha atenção. Caio se tornaria a lenda macabra do Campus. Aquela que daqui cinqüenta anos ainda seria contada despertando os anseios de futuros estudantes.
—Sim, —Augusto iniciara.
—Não sabemos o que houve, havíamos nos visto pela manhã e no dia seguinte ninguém sabia dar noticias de Caio. —Finalizou Carol. Tudo que aquela garota dizia parecia ter um fundo falso.
—Mas isso não te sensibiliza? —Perguntei corajoso.
—O quê? —Rosnou de forma arrogante.
—Pelo que sei vocês eram amigos há anos, isso deveria lhe deixar sensível, mas não parece… —Ela me interrompera.
—Isso é porque você é provinciano demais, Vinicius… seus maiores problemas derivam daí. —Eu odiava quando surgia tal comentário, quando levavam em consideração minha cidade natal. Odiava quando os jogadores riam da minha cara ao passar por mim, e o olhar de infâmia com o qual algumas garotas me olhavam. Garotas como essa lambisgóia da Carol. Eu não possuía o sotaque forasteiro que todos na capital temiam, de forma alguma poderia ser julgado por uma questão geográfica, que acaba sendo histórica. E além do mais, Douglas, do interior paulista era tão rústico quanto um vaqueiro, tão rural quanto mata-burros, nem por isso menosprezado. No fundo vai ver era só uma questão de status. Houve um silêncio, momentâneo.
—O Fato é que Caio foi seqüestrado e não sabemos como ocorreu. —Renato se explicou. —Achamos que tenha sido na saído do Campus, quando voltava para casa. Caio perdera o ônibus e como havíamos sido suspensos, sua mãe o proibiu de voltar conosco... tudo isso é uma pena...
A essa altura todos já haviam bebido ao menos duas dozes do absinto.
—Vocês precisam se acalmar, pessoal. Até mesmo porque não é legal hostilidade na presença de estranhos. E lamento informar, mas ainda sinto-me um, perto de vocês. —Levantou-se para alcançar o celular e conferir quantas horas eram. —Na verdade, não estou falando sério. —Pegou um pote em uma das gavetas do armário e retirou um saco plástico lá de dentro. —Olha o que tenho aqui! —Pareceu-me excitado.
Quando percebi o que era aquilo, ele já metia os dedos dentro do saco e esmiuçava a coisa como se fosse ouro em pó, ou uma rara erva medicinal curadora de todos os cânceres. Levantei-me de forma violenta, o que acabara chamando atenção. Questionaram-me como malabaristas de semáforo após um de seus espetáculos, que não duram mais de dois minutos. Disse que precisava conversar com Augusto, reservadamente. Percebi que Carol já dava sinais de que tudo poderia ficar ainda pior, ela sorria. Abri a porta do quarto, outra vez violentamente, muito violentamente. Sai para o corredor, Augusto fechara a porta atrás de si.
—Você não havia me dito que fumava maconha. —Raiei, naquele momento, toda a situação me parecia absurda, muito absurda.
—Ei espera aí, você que me chamou para vir aqui. E não me disse que seu amigo cultivava isso em casa.
—Eu não sabia. —Claro que não, eu não sei como ele supôs que aquilo não deixaria alguém impressionado, de queixo caído. Fez aquilo de forma tão simples, como se preparasse um sanduíche natural a base de alface, cenoura e patê de atum.
—Eu nunca fumei… —Ele dizia a verdade. —O que você acha?
—Como assim, o que eu acho? Eu não sabia que o Sander mexia com isso…
—Ele tem um saco cheio desse troço, Vinicius. Será que os pais dele sabem a respeito?
—Eu estou indo embora, não sei sobre você… —
—Talvez não fosse… —Eu sabia que sua tentativa era de me convencer.
—Tudo bem, Augusto. Eu pego um táxi. Mas você pode ir até a porta comigo? —Não queria de forma alguma que Carol e seu novo comparsa Sander viessem a minha caça, um tanque de persuasão e diplomacia, respectivamente, bem em cima da minha cabeça. Sentia-me tão inspirado, chegando em casa redigi minha matéria para o jornal da próxima semana, ao som do compositor austríaco Franz Peter Schubert.
Ano Chuvoso marca PH por quebra de regras, comportamentos suspeitos e desaparecimento.
O ano se iniciara com todos os jornais televisivos do pais anunciando as grandes tempestades pelas quais passaríamos nesse primeiro semestre, prometendo uma onda de calor devastadora para o seguinte, o que provavelmente poderá acontecer, já que há mais de uma década não se via tanta chuva como estamos presenciando nesses seis primeiros meses do ano que se iniciou. Poderíamos associar as mudanças do tempo à coisas de outras espécie? Como por exemplo, ao ritmo biológico dos seres vivos, ao comportamento humano? Alguns cientistas afirmam que sim, alguns afirmam que a própria mudança de fase da lua já proporciona aos seres vivos, —não só com as marés, como já sabemos. — pequenas alterações perceptíveis.
Notavelmente, não podemos negar que a maior instituição educacional do estado também inicia o ano em dias de chuva, seus corredores parecem escurecidos, sombrios. O Campos PH parece deixar indícios, de que como vários outros, mais um império enfrenta seus primeiros dias de derrocada. É notório a falta de preparo por grande parte do corpo docente, que parece ter dificuldades em elaborar aulas criativas e de interesse geral. Os alunos por sua vez, desrespeitam regras básicas de convivência e normas internas, os fumodrómos que são freqüentados diariamente são verdadeiros clubes clandestinos, onde se fuma, escutam música enquanto apostam em jogos de baralho.
Estamos sendo impulsionados por uma ideologia utópica mesclada em liberdade e individualidade. A concepção de que a solidão nos faz livres e independentes, o desejo de se ser capaz. Os jovens, principalmente os jovens da classe mais elevada, se vê em um mundo onde a liberdade de pensamento e opiniões se sobrepõem a regras fundamentais de respeito ao próximo. Acredito que essa liberdade exacerbada que se prega atualmente nos principais meios de comunicação tem contribuído em muito para a perda de certos princípios, para a condição de não poder julgar o que é certo e errado. Há informações demais… informações sobre tudo e todos sendo atualizadas diariamente na internet, transmitidas por satélites e expostas nas ruas em enormes painéis, distribuídas em pequenos impressos e noticiadas em jornais do mundo todo.
Claramente podemos afirmar que o Campus PH acolhe uma mínima parcela da população, uma parcela que traz consigo uma pequena representação, uma fatia microscópica do que hoje chamamos de sociedade. Mas o que fazer com jovens “afortunados” que cresceram tendo em mente o mundo fictício e magnificente dos condomínios de luxo, onde todo espaço se parece muito mais com uma cidade cenográfica de uma grande produção norte-americana do que com a realidade das ruas e das pessoas de verdade deste país? Do continente em que vivemos. Talvez uma das maiores instituições de ensino médio e fundamental do território nacional ainda não tenha conseguido responder a essa pergunta. As drogas que até então pareciam marginalizadas, invadem as salas de aula a procura de novos usuários, hoje é possível se comprar qualquer coisa muito próximo de casa, através de requintados viciados que por conveniência passaram também a revender. A maconha, a cocaína, o LSD, o Crack e uma variedade imensa de nomes e efeitos deixaram as favelas e periferias, foram descentralizadas dos subúrbios para o alivio do mundo e passaram a ter casa própria em quase todos edifícios e condomínios luxuosos dos grandes centros urbanos.
É incrível que com tanta coisa acontecendo, o lucro ainda esteja em primeiro lugar na lista imaginária de preocupações. Um exemplo forte sobre o que digo, é o desaparecimento do aluno Caio S.F. de Amaral há mais de um mês. Nada de eficiente fora feito, a policia parece estar sem pistas, o assunto é noticia há semanas, a rica família do aluno desaparecido se desespera por respostas, o Campus, onde fora visto pela ultima vez, se limita a dizer que não se responsabiliza pelo sumiço do alunoz. “Seu nome não estava na lista de transporte”, diz o diretor. Os pais de Caio afirmam que sim, e o bate boca a respeito de uma vida que não se sabe mais, é interminável. Será que assim como Caio, estamos todos desprotegidos dentro desses prédios de arquitetura tão forte? Será que os próprios alunos nos oferecem riscos “inesperados”? Os amigos de Caio, pessoas com quem convivia e confiava dizem não saber de nada a respeito, de repente, de forma inexplicável, tenho a fantástica sensação de que alguém se evaporou, deixou de existir quase como um personagem secundário de uma novela de tevê, ninguém nunca mais o vê, não se diz mais nada sobre ele e ainda assim tudo parece estar bem e como sempre esteve. O final de toda a história ainda é improvável, mas o planeta, a instituição, e todos os universos individuais que ele abriga, parece estar cada vez mais próximo de um grande colapso, irreversível.
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(Na casa de Sander, preparam o Absinto)

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