Domingo, véspera de avaliação de gramática, matéria em que setenta por cento dos alunos teriam de fazer reforço aos sábados caso não respondessem corretamente ao menos oitenta por cento das questões. Nós estávamos na piscina, apesar de servir todos os moradores do prédio, naquela tarde estávamos apenas nós três. Era bom flutuar sobre os colchonetes infláveis, observando o céu claro enquanto conversávamos. Você pode até estar imaginando nós três em sungas numa piscina, mas não usávamos sungas, e sim bermudas de banho.
—Onde será que se meteu Carol? —Augusto tentou contatá-la algumas vezes, mas o celular sempre caia na caixa postal.
—A noite com Sander deve ter sido boa... Para estar dormindo até uma hora dessas.
—O que está rolando? —Senti-me curioso.
—Sander a convidou para sair ontem à noite... —O cara estava mesmo afim de Caroline Araújo. Também depois do que vi em sua casa dias antes, podia dizer que funcionavam como tampa e panela. Mudei de assunto.
—Não está preocupado com a prova de amanhã, Renato? —Indaguei, o sujeito estava tão tranqüilo.
—Não, na verdade todas minhas notas anteriores estão acima da média, tirando seis agora já é o suficiente.
Augusto nada comentou e por mais alguns minutos ficamos quietos com nossos pensamentos.
—E por quê fez a pergunta? Acho que ninguém está mais preocupado com essa prova de amanhã... depois que a galera pegou o gabarito parece que todo mundo desencanou. —Levei um susto tão grande com aquilo que Renato disse que me desequilibrei e fui engolido pela água fria.
—Augusto? —Gritei assim que voltei à superfície.
—O quê? Não me olha assim que não fui eu quem espalhou seu segredo...
—É, ele tem razão... —Senti que Renato estava defendendo-o.
—Como assim? Para quem você contou, Augusto?
—Vinicius, na verdade eu fiquei sabendo por outra pessoa... O Pablo me contou.
—Pablo?
—Sim, disse que Fernanda estava com o gabarito da prova do Andrade e que havia conseguido uma cópia, inclusive me ofereceu uma por cem reais. —Eu estava surpreso.
—Quando Renato veio me contar, disse que sabia, que também estava com as respostas, e apenas passei à ele e à Carol sem cobrar nada. Eu não acredito que você foi contar essa história logo para a Fernanda, que mancada a sua.
—Eu não contei nada à Fernanda... mas contei à Julia.
—Não sei não, mas acho que a sala toda já está sabendo. Espero que nenhum fiscal tenha dado com a língua nos dentes. —Sentenciou Renato, depois caiu na água e começou a nadar.
Sai da piscina e Augusto me seguiu, Renato ainda nadava, deitamos de bruços sobre nossas toalhas que estavam estiradas em espreguiçadeiras de polipropileno. Inicialmente estava de nuca para ele, somente pensando se eu estava realmente ferrado com a história do gabarito... se a coordenação sabia que havia sido eu o ladrãozinho de avaliação... ou se apesar de tudo, conseguiria me safar dessa.
—O que faria se eu morresse amanhã? —Perguntei voltando minha cabeça para encará-lo.
—Não sei... Não haveria nada para fazer exceto chorar e depois passar um tempo em seu velório.
—Estou falando sério.
—Não gosto de pensar nessas coisas.
—Não sentiria minha falta?
—Claro que sim... deixa de ser bobo. Por quê está pensando nisso?
—Não sei... A gente pode morrer a qualquer hora, não pode?
Ficamos apenas nos olhando, de fato podemos morrer a qualquer hora, o celular que estava na mesa ao lado vibrou e ele atendeu. Carol dava sinais de vida enquanto a preocupação e o medo se abraçavam com mais força. Se fosse suspenso por isso estaria lascado, se fosse expulso minha vida acabaria. Existe um velho ditado popular que diz que não devemos chorar pelo leite derramado, de certa forma ele está correto, o que foi já foi, o tempo não volta atrás e o que foi feito jamais será apagado. Nesse exato momento lembrei-me de minha matéria para o jornal da semana, talvez tivesse sido rude demais com as palavras ou acusações... não seria aquilo mais um problema, que somado ao outro, se transformaria em uma granada?
Augusto desligou o telefone. Renato se aproximava todo molhado.
—Vamos pegar Carol e dar uma volta? O que vocês acham.
*
Carol precisava passar na casa de Felipe para pegar uns cartazes que terminaria ainda aquela noite, a dupla se apresentaria na manhã de segunda, no segundo horário.
—Ele disse que o prédio fica em frente à praça da bíblia. Odeio grupo por sorteios, nunca fiz trabalho com esse Felipe Silva antes. —Carol gostava de reclamar das coisas.
—É bem fácil chegar lá.
Então ela mudou de assunto e prosseguiu:
—Vi hoje na tevê que a promotoria vai colocar seu pai na cadeira do réu pelo assassinato da tal Solange das Neves.
—Eu sei lá... a relação lá em casa está péssima, não sei se ele diz a verdade... tem aquela história daquele homem de voz estranha... Mas uma coisa eu já sei.
—O quê?
—Ele estava falando sério quando disse que era meu pai... Fomos a uma clínica, tiramos sangue e o teste deu positivo.
—Que bom, Augusto... —Eu estava feliz em saber.
—Mas não passou pela sua cabeça que o exame pode ser falso? Seu pai é médico, tem amigos médicos. —Então percebi que ele voltou a ficar com a pulga atrás da orelha, o que lhe deixava tenso.
—Carol? —Atentou Renato. —Está deixando o cara noiado. —Renato, assim como eu, era muito atencioso.
E fomos naquele lenga-lenga até o edifício de Felipe. No elevador Carol retocava a maquiagem, contornando os lábios com um lápis preto e demonstrava ser o tipo de mulher que não se entretém com conversas em elevadores, pelo espelho percebia-se que estava atenta ao que era dito, mas de um jeito caroliano de ser se recusava a comentar ou pronunciar qualquer coisa, mesmo em dado momento em que vira seus lábios se contorcerem pela vontade incontrolável de soltar a voz, ela nada disse.
—Vocês, homens, conversam demais! —Comentou assim que o elevador se abrira no andar aguardado, estava ao fundo, nos ultrapassara habilmente como uma serpente do deserto, e saíra antes de nós. Acho que Carol gostava da sensação de estar a frente sendo seguida por outros sujeitos que jamais contestariam qualquer uma de suas ordens, ela gostava de ser a líder. Enquanto tentávamos alcançá-la e ela parecia caminhar cada vez mais rápido e confiante, conclui que era exatamente por isso que se relacionava e se cercava dos garotos; porque ela sendo a única garota, teria toda a atenção e cuidado deles para com ela, e outra, sendo a única garota em um grupo de meninos, ela conseguiria chamar também a atenção de outras garotas que a viam de fora. Sua auto-estima alcançava padrões sobrenaturais e ela se sentia inevitavelmente confortável e acolhida pela super-exposição.
Felipe abriu a porta de forma que só víamos metade de seu rosto pela fresta.
—Olá! —Juro que dessa vez ela tentou mesmo ser simpática.
—Não disse que iria trazer o resto do Campus junto com você. —Essa doeu.
—Oi, Felipe! —Disse. —Tudo bem?
—Como vai, Vinícius? Espera um minuto, vou pegar seus cartazes. —Então saiu. De dentro do apartamento vinha um barulho de tevê extremamente alto, e um cheiro de frango frito que engordurava até as paredes do corredor. Voltou num minuto. —Aqui estão. Não esqueça de destacar as frases.
—Pode deixar.
—Estamos indo comer alguma coisa... Não gostaria de ir? —Perguntou Augusto.
—Não, muito obrigado. —E fechou a porta.
*
Na segunda era claro que minha matéria vinha sendo lida e comentada, odiada talvez, percebia de passagem coisas do tipo: “que audácia!” “Quem é ele mesmo?” “Meu Deus, vão torturá-lo.” Mas ao mesmo tempo percebia um receio por parte de todos. De alguma forma me temiam. —Você pegou pesado, Vinicius! Está certo, confesso também que sou indomesticável, mas me parece ser claro qual era o seu alvo…—Disse Fernanda enquanto dividíamos uma mesa no refeitório. —E parece ter dado certo, olhe para aquela mesa, Carol está furiosa com você! —Nossa! Lembro-me de que quando olhei para mesa de Augusto, Carol esperava meu olhar. E me jogou três mil pragas quando o dela se posicionou diretamente com o meu. Fora como brasa, queimavam-me indolorosamente.
—E quanto a você vender o gabarito da prova de gramática?
—Meu querido, não se preocupe, meus clientes garantem discrição total.
Posso jurar que quando estava sentado escrevendo, redigindo a matéria, não tinha intenção alguma de denunciar alguém, muito menos de forma implacável como se calculavam, e muito mau até. Mas agora sentia a incomoda sensação de ter jogado merda no ventilador.
Subi até a redação do jornal, alguns jogadores do time oficial de basquete conversavam ao fundo com outros caras da natação, Eduardo Takano, Jonathan de Castro Marques, Maurílio Damares Santanna e Ítalo Leonel Figueira, eu os detestava. Eles aporrinhavam a vida de novatos e bolsistas, humilhava-os com olhares excelsos de supremacia. Debochavam de suas aparências e os perseguiam nos vestiários. Felipe, amigo de Fernanda, já havia me contado diversas coisas ocorridas com ele mesmo. Certa vez, Jonathan, Maurilio e Ricardo Bensimon Feitosa, o penduraram pela jaqueta em um dos armários do vestiário, de forma que não conseguia tocar os pés no chão ou se mover, após ser ofendido por palavras e palavrões de todos os tamanhos, eles abaixaram suas calças e escreveram em sua cueca branca o substantivo “bonequinha”. Ricardo ordenara que fizessem tal coisa, os outros de inicio recusaram a tocar naquela cueca, quero dizer nos órgãos sexuais de Felipe, tinham muito medo daquele contato subversivo. Mas depois, sendo chantageados pelo mesmo Ricardo Bensimon Feitosa, Jonathan pegara o pincel atômico de suas mãos e com asco repulsivo desenhara letra por letra, formara toda a palavra na própria pele de Felipe, as letras se estendiam ao longo de todo o quadril. Então sorriram debochadamente e cuspiram em seus pés, e o deixara ali, pendurado, com as calças arriadas até os calcanhares, com a ofensa estampada em seu corpo, a espera de novas gargalhadas e de um bom samaritano. — quarenta por cento do Campus compartilhavam de meus sentimentos pela liga de basquete, por grande parte dos atletas. — Sandy era a única garota que estava na sala, namorada de um dos caras. Eu não saberia dizer qual deles, porque em certos momentos a via de beijos com Jonathan, e em outros, passeava nos braços de Pedro Marinho Telles, que não jogava basquete, mas lutava judô muito bem, herdeiro de famílias cariocas. Estavam ali, provavelmente comemorando a vitória na primeira fase do campeonato interestadual e elogiando a coluna esportiva assinada por Frederico Guazzelli, eu não gostava dele também. Os risos e assaltos de voz cessaram-se quando entrei, quando me viram lá dentro.
—Ótima matéria, Vinicius! —Daniel parecia mesmo ter aprovado, eu devia satisfação à ele naquele jornal, à mais ninguém. Não sei por qual motivo os outros me olhavam. O fato é que todas aquelas pessoas pareciam olhar tudo que não faziam parte do restrito mundo no qual viviam com a mesma cara de nojo e intolerância. Para eles, o mundo fedia.
—Muito boa mesmo. —Ironizou o mais detestável dos jogadores presentes. Disse ao mesmo tempo que ganhava destaque entre os outros. —Podemos dizer que temos um dedo duro entre nós. —Ignorei-o.
—Já foram todos entregues? —Talvez ainda houvesse um jeito de não deixar as coisas ainda mais graves. Pensava em pedir para recolher os exemplares, talvez uma nova impressão, eu custearia os gastos.
—Hoje pela manhã, levaram todos. —Daniel sorriu. —Mas não se preocupe, você fez um ótimo trabalho. Comece a pensar em algo novo para próxima semana. —Eu estava aturdido.
—Ou seu jornalista de meia tigela, você deveria escrever uma coluna rural ao invés de tentar colocar os outros na fogueira. —Aconselhou-me Ricardo. —Você ainda não teve a oportunidade de ter uma conversa com os donos dessa bodega. Não é não, pessoal?
—É isso ai. Quem é mesmo aquela garota envolvida nisso tudo? Aquela, da sua sala. —Não respondi. Ítalo disse por mim.
—Caroline Araújo, aquela garota estranha da outra turma. A que se parece com uma bruxa e anda com aqueles caras, com Renato, o nadadorzinho bolsista.
—Cara, ela já deve estar fazendo vodu pra você!
—Pessoal, vocês estão pegando pesado. —Daniel percebeu o clima.
—Fica na sua, Daniel. O assunto agora é entre a gente e o rapazinho aqui.
—Não se atreva a mencionar novamente os fumódromos, ou qualquer outra coisa que possa vir a nos envolver. Como o uso da pista de acesso aos finais de semana para competição. Nós temos um nome a zelar, estou sendo claro? —Jonathan era do tipo áspero, arrogante, possuía olhos selvagens e animalescos, amarelos quase como os de gatos. Daniel observava sem intervir. —Só não te damos uma lição agora, porque fiquei sabendo que tu é que espalhou o gabarito da prova do Andrade. Não vai me beneficiar, porque não sou da sua turma, mas vai ajudar bastante meus chegados aqui.
—É isso ai! —Disse Ricardo.
—Fica esperto, Mané.
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(Os garotos acompanham Carol até o apartamento de Felipe)

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