—Meu pai, quer que eu tire sangue, um outro exame desses de DNA. Disse que talvez isso tirasse essa merda de dúvida que eu tenho… Dessa vez eu vou escolher a clínica sem que ele saiba—Disse sentado na cama ao lado, eu não o vi entrar, mas agora que estava ali sabia que precisávamos ter aquela conversa.
—É uma das melhores idéias que ouvi nos últimos tempos. —Senti dor no peito ao querer levantar, era como se tivesse quebrado algumas costelas, mas por Deus nada aconteceu, ele me aconselhou a continuar deitado. Onde estaria minha mãe e meu pai? Será que estava só em casa com o Augusto? Não fiz essa pergunta. —Augusto, preciso te dizer que seu pai não veio aqui em casa, na noite de seu aniversário, por acaso…
—Como assim?
—Eu fui até lá uns dias antes e conversamos sobre várias coisas… —Ele me pareceu franzir a sobrancelha, pareceu-me desconfiado. —Me desculpa! A Carol acabou ajudando bastante… mas fui eu quem o convidou. —Prossegui. —Nesse mesmo dia ele me contou muitas coisas… falou da preocupação que sentia e me garantiu ter certeza de que era seu pai. Me falou sobre você, sobre sua família… e me pareceu bastante sincero. Enfim, ele me disse que não tinha.
—Te falou sobre os assassinatos também?
—Não... quando tivemos essa conversa pouco antes do seu aniversário, essa tal de Solange ainda estava viva.
—Beleza, eu só fico pensando que, se meu pai é tão sincero assim, por que então alguém estaria fazendo aquelas ligações? —Levantou-se e foi até a janela, tirou uma carteira de marlboro lights do bolso. —Posso fumar aqui? —Consenti. Tipo “vá em frente, o pulmão é seu.“ —Vocês têm mesmo a certeza de que nada foi roubado? —Eu não estava sabendo de nada, lembro-me apenas de ser colocado no carro por meu pai, e depois, quando acordei, havia um enfermeiro ao meu lado. Apenas isso.
—Eu não sei…
—Sua mãe me disse, não roubaram nada. Você não acha estranho?
—Onde você quer chegar?
—Talvez tenha alguma ligação entre tudo que está acontecendo… —Aproximou-se da cama. —primeiro os telefonemas para minha casa, depois o atentado na casa da Carol, —Até então eu não sabia de nenhum atentado. —O assassinato da tal de Solange, o carro na sua porta, e agora a invasão em sua casa.… seja lá quem for, acho que quer nos matar. Isso tudo está se tornando muito perigoso, Vinicius. Por que se é verdade que estamos lidando com um assassino, quem pode garantir alguma coisa? —Ele estava certo, mas esqueceu de um fato.
—E o desaparecimento de Caio? Você esqueceu. Acha que não pode ter ligação com todas essas outras coisas? — ficou nitidamente surpreso,
—Ah! Claro… como pude me esquecer? —E lançou o cigarro ainda na metade pela janela, com a intenção de acertar a rua ou a calçada. Adorava fazer aquilo, lançar tocos de cigarros pelas janelas, parecia demonstrar um consuptivo desejo de incendiar a cidade em um dia que o sol por si próprio poderia queimar qualquer coisa que permanecesse sob si por mais de algumas horas. Não era o caso especifico daquela tarde, mas esse dia ainda chegaria, tardes flamejantes de quarenta e tantos graus, cinqüenta talvez.
—Tudo isso faz algum sentido pra você? Você conheceu o Caio, portanto…
—Vinicius, —Se apressou em responder, parecia aborrecido. —tudo isso começou bem antes que o Caio desaparecesse. Está lembrado? —Sentou-se em uma das poltronas e pegou uma de minhas revistas, passava as páginas sem mesmo notá-las, mecanicamente. —E quem você achou que fosse para escrever aquele troço todo no jornal?
—Eu sinto muito… eu não tinha a intenção…
—Faltou publicar uma foto nossa na mesma página. Pensou nisso? —Jogou a revista educadamente no mesmo lugar em que encontrou. —Sinceramente eu não sei no que estava pensando… —Completou.
—Você não pode se aborrecer, Augusto. A Carol, o Renato, talvez sim. Você não pode! —Ele me desafiou com um olhar, sentado na poltrona de onde via metade do seu corpo. —Você andou falando à algumas pessoas coisas das quais não gostei… você disse à Julia que eu era gay.
—Quem foi que… —Não esperei que acabasse.
—Isso não fará diferença alguma.—Eu queria sair daquela cama, me esforcei, ele pareceu querer se levantar quando finalmente consegui por os pés no chão. —É verdade, Augusto? —Fui até a janela. —Você contou alguma coisa à alguém? Disse que havia me beijado ou coisa assim…?
—Como assim, “coisa assim”? A gente nunca fez nada. —Se levantou e sentou-se na mesma cama onde eu estava segundos antes. Os psicanalistas Freudianos saberiam o que dizer sobre isso.
—A gente se beijou algumas vezes...
—A gente se beijou algumas vezes, mas acho que ninguém precisa saber. —Nada fora dito por muito tempo, evitamos nos olhar e logo trocamos de lugar, ele fora para janela acender mais um de seus cigarros fedorentos e o que me restava era deitar um pouco mais até que ele saísse e finalmente pudesse tomar um banho.
—E nem sei o que lhe dizer sobre aquela carta.
—Aquilo não foi uma carta… quero dizer, não foi uma atitude romântica ou qualquer troço assim. —Observei-o fumar. Não disse nada, mas é claro que era romântica, havia sentimento naquele papel. Havia o cheiro dele por todo o envelope, levando mensagens ao cérebro.
—E então, vai tirar sangue para o exame? —Pareceu-me demasiadamente reflexivo.
—Eu preciso da sua ajuda… preciso da sua ajuda para encontrar esse cara, Vinicius…
—De quem você está falando?
—Do cara com quem peguei falando com o doutor pelo telefone.
—Como vamos fazer?
—Eu não sei… às vezes acho que meu pai está escondendo alguma coisa.
—É como se ele não quisesse dizer tudo que sabe…
—Exatamente.
—É por ai que devemos começar, eu suponho.
—Exatamente ai.
*
Quando atendi a muda ligação no meio da noite, a fúria me fez puxar o fio da tomada com uma força, digamos assim, inacreditável. Enrolei-o na mão direita e desprendi-o da parede, o fio se arrebentou deixando o plug exatamente no local onde estava, de modo que no dia seguinte alguém passou em uma daquelas lojas de telefonia e pagou alguns reais por um fio novo. “desgraçado!”, soltei em resmungos, meu pai apareceu na porta, estava tudo escuro, as cortinas bloqueando a luz natural da madrugada, ele emitia um olhar punitivo, corrompido por seu lado paternal aguçado, que eventualmente ainda me deixava um pouco mais irritado. Ao contrário de meu pai, minha mãe possuía mãos enérgicas, eficientes e punitivas. Ao longo da vida fora ela quem me castigara e deixara claro o que era ou não permitido, e acredito ter feito um bom trabalho. Meu pai era mais dócil, manso, suave, silencioso, mais distante.
—Acho melhor mudarmos o numero desse telefone. —Disse eu ao vulto parado, sequer esperei respostas, não as queria aquele momento. A mais próxima saída de onde estava, era a porta do banheiro logo a minha frente. Estava entreaberta. Entrei fechando-a atrás de mim. Coloquei o ouvido na porta, talvez estivessem comentando alguma coisa, mas não diziam nada, pude ouvir apenas a porta do quarto de meus pais se fecharem, cuidadoso o suficiente para não produzir sequer um estalo.
Sobre a invasão, apesar de toda desordem, nada fora roubado, o que nos deixava intrigados e receosos. Será que a qualquer momento o tal sujeito poderia voltar? Terminar algo inacabado. A ocorrência fora feita, mas sem roubo ou pistas do agressor, quase nada podia ser feito, e eu me perguntava o que é que esse desgraçado queria comigo? Abri a braguilha, demorou para que a urina saísse e me proporcionasse uma sensação gostosa de desligamento, você sabe, quando você joga toda água para fora e momentaneamente se sente mais leve. Sem aquela dor incômoda na barriga, bexiga cheia. Aquilo é terrível, e se torna ainda mais terrível quando já são quatro da manhã.
Após fechar o zíper e lavar as mãos, ainda sem luz, voltei ao quarto. —Realmente, não despachei o que jogara para fora agora a pouco, mas é que não gosto do barulho de descargas pela madrugada, o barulho, além de se tornar algo incrivelmente assustador e incriminatório, é algo decrescente, que se vai aos poucos, na medida em que você volta a contar os carneiros pra dormir outra vez. É detestável. — A luz do celular sobre a mesa do computador, indicava uma ligação em andamento, fechei a porta com o mesmo cuidado com o qual meu pai fechara a sua minutos antes. Dei alguns passos apressados e atendi.
—Estava dormindo? —Augusto parecia tão aborrecido quanto eu.
—Não… eu não estava. —voltei a me deitar, a me cobrir.
—Nós sabemos que estamos sendo acordados pela mesma pessoa, mas você acha que pode ter alguma ligação com o homem que ligava para o meu pai?
—Não sei Augusto… já pensou que pode ser apenas uma brincadeira de algum idiota que estuda com a gente? Pode ser coisa do Takano e os outros que andam com ele. O Jonathan de certa forma foi expulso por minha causa. Talvez não seja nada. —Mas digo que eu também não acreditava muito nessa versão.
—Mas dessa vez, quando te ligou, ouviu alguma coisa?
—Não, nunca diz nada. Por quê?
—Eu escutei a voz… era uma voz normal. Não era como a voz do homem que falava com o meu pai. A voz do outro homem era ruidosa, distorcida… não tinha nada a ver com a voz de hoje. Por isso, talvez, você tenha razão. Pode ser coisas daqueles caras...
—Não por isso, Augusto… espera um minuto. —Sai da cama e abri uma das gavetas do armário, a única que permitia ser trancada com chave, ali eu guardava algumas daquelas revistas para adultos, famosas por suas coelhinhas, dinheiro e cartas de amor que ganhei por toda minha vida. Procurava o aparelho que havia guardado ali no dia anterior, iria me divertir com o susto que estava preste a lhe passar. Voltei à cama e peguei novamente o celular, posicionei o aparelho bem próximo a boca.
—Ainda está ai? —Perguntei, a voz saíra esganiçada, distorcida e pavorosa. Eu mesmo me assustei. Augusto ficara completamente impronunciável. Continuei:
—O que foi que ele te disse, Imbecil?
—Quem está ai? —sua voz parecia fortemente abalada.
—Sou o seu pior pesadelo, sei o que fez no verão passado! —então cai na gargalhada e voltei a minha voz normal. Fora cômico. —Augusto, sou eu! Viu só, o canalha esqueceu seu brinquedo aqui em casa.
—Você me assustou com esse troço!
—Encontrei isso aqui em casa ontem, achei-o na sala sobre o aparador, nunca tinha visto um desses antes. Perguntei meus pais se sabiam o que era e disseram-me que não sabiam e muito menos imaginavam o que fazia ali. Só pode ter sido ele, deixou isso aqui naquela noite em que me atacou. Por isso não reconheceu a voz dele quando falou com você essa noite.—Conclui. —Mas tem certeza de que a voz não era familiar?
—Nunca escutei antes. —Afirmou. —Mas você tem certeza de que isso foi mesmo deixado ai pelo cara que te atacou? —Às vezes detestava ser contestado, isso acontecia quando estava contando uma história legitima, dizendo a verdade e sendo sincero. Era algo que me tirava do sério.
—Absoluta. O que acha que meus pais estariam fazendo com um aparelho desses? Tentando parecer mais engraçados ao telefone?
—Não… eu não quis… eu só estava pensando se realmente…
—Mas o que foi exatamente que o palhaço te disse?
—Ele disse Vinicius, que muitos ainda vão se machucar, e que não há outras pessoas mais culpadas do que nós dois.
—Nós dois?
—Nós dois.
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. (No meio da noite)
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