quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

47 - RESPIRANDO TORNADOS

Trilha: Sneaker Pimps - Loretta young silks   (e)  Set Fire to Flames -Jesus







                                                                              O uniforme do PH não era convencional, os meninos usavam calças escuras, camisas brancas, gravatas, paletós escuros como as calças e sapatos pretos; já as garotas vestiam saias razoavelmente longas, do mesmo tecido, blusa branca e blaser feminino, sapatos padronizados, pretos, sem saltos. Levava um tempo para se vestir, ficar pronto, eu sempre me achei enrolado demais para me arrumar, não tomava banho pela manhã, mas gastava em torno de trinta minutos com roupas. Possuía dois pares, que mamãe sempre deixava limpos e passados, revezando, cada um deles custou cerca de quinhentos reais.
       Juntei o material, espalhado sobre a mesa desde a tarde anterior, joguei na mochila, única peça que poderia ser comprada segundo o gosto pessoal. A minha era Wilson, verde de correias pretas. Olhei-me no espelho uma última vez, faço isso todos os dias, várias vezes. Precisava cortar o cabelo. Antes de abandonar o quarto, perfume em pontos estratégicos, pulsos e pescoço. O cheiro de café subia até o corredor, sempre fui fissurado numa xícara de café, e sair de casa sem uma era inaceitável. Entrando na cozinha peguei minha mãe acanhada num canto da pia, parecia consternada, em transe, desligada... Não sei ao certo dizer, mas já tinha visto ela assim outras vezes, não recentemente porque esses meses após nossa mudança parecia ter lhe feito muito bem. Ela notou minha presença.
—Toma seu café e seja rápido, o ônibus está para passar. —Disse se virando para lavar a louça.
—Não está não. —Tentei descontrair, brincando. Tomei um pouco do café. —Está tudo bem? Onde está meu pai?
—Seu pai não está na cidade, precisou ir ao interior trabalhar em um caso. —Quando estávamos lá ele passava mais tempo aqui, agora que estamos aqui ele quer ficar em outro lugar? Lembro-me de Sarah comentar algo parecido dias antes. Vinha sentindo uma falta da minha prima, mas tentava superar, todos os dias, aquela tristeza profunda que nos abate, aquela dúvida. Terminei o café. Ela nem me olhou. —Mãe... está tomando seus remédios? —Tinha que perguntar, ela por um momento ficou muda e depois decidiu dizer qualquer coisa.
—Na verdade não... não estão mais fazendo efeito, então pensei “para quê tomar se não estão adiantando em nada?” Eu posso viver sem aquilo, Vinicius.
—Não deveria parar de tomar um antidepressivo assim, sem consultar antes o médico.
—Além disso, preciso emagrecer, seu pai tem me achado gorda. Estou tomando uns comprimidos que parecem me deixar louca quando os tomo junto com o remédio que o psiquiatra passou. Fico desnorteada, até vozes que não existem eu escuto... Semana passada, fiquei cismada com isso. Foi quando decidi parar. —Anfetaminas vendidas por aí como receitas milagrosas. Precisava falar com meu pai sobre essas neuras que vinha colocando na cabeça da minha mãe.
—Acho que a senhora deveria parar com o remédio para emagrecer e voltar com os antidepressivos. —Peguei um pedaço do bolo de fubá. —Eu preciso ir, até mais!
     Assim que cheguei na calçada, após atravessar o jardim e ultrapassar o muro de pedras, naquele tempo de espera, peguei o celular e disquei os números do meu pai. Correio de voz. Deixei de mão. Nem demorou muito enxerguei minha condução dobrando a esquina, e seu Costa aquela manhã havia sido substituído, quem estava no volante era Oswaldo. Às vezes isso acontecia.
—Bom dia, Oswaldo! —Falei ao subir os degraus.
     Pela rodovia Sander, que já havia me pedido desculpas pela situação constrangedora que causara em sua casa, me dizia que estava rolando um clima muito bacana entre Carol e ele; e dias atrás Fernanda me contou que estava ficando com Ricardo Bensimon, o nadador não muito tolerável de nossa sala, não conversava com ele, mas... bem, o amor, esse clima de paixão parecia estar rondando o corpo das pessoas.
     Estávamos nas semanas de jogos, olimpíadas internas do Campus, após o intervalo poderíamos escolher acompanhar qualquer disputa agendada, já que nem todos participavam do torneio. Naquela manhã haveria futsal, jiu-jítsu e natação; Augusto havia me convidado para a piscina, Renato estava competindo e no sério eu não tinha nada melhor para fazer, comuniquei a Julia e disse que se estivesse livre poderia nos acompanhar.
—Felipe e eu pensávamos em acompanhar Fernanda. Ela está saindo com o Ricardo, então... —E ficamos de nos encontrar por lá. Julia não suportava a presença cínica de Carol durante os intervalos no refeitório, e preferia sentar-se com Fernanda, Ricardo, Takano e Cindy Potumati, do comitê de boas-vindas.
     Deixando o refeitório não esperamos os quinze minutos de intervalo, descemos imediatamente para as piscinas, para conseguirmos melhores lugares. Carol e Sander estavam se dando as mãos de um jeito que ainda demonstrava insegurança por parte de ambos, eu observei enquanto cruzávamos o pátio. Durante as provas Julia e eu sentamos em locais diferentes, estávamos em grupos distintos, ainda assim era possível vê-la. A arquibancada que ocupava a direita da piscina coberta, estava completamente lotada, os pais e familiares eram convidados para o evento, os jornalistas também, porém devido aos acontecimentos sem explicações a diretoria preferiu fechar as portas para este último grupo. Apesar de não ser um colégio que precisasse de divulgação, devido a seleção que o próprio instituto fazia, o nome Campus PH vinha e muito sendo propagado semanalmente em todos os meios de comunicação, principalmente pela mídia sensacionalista. De publicidade, já estavam fartos.
     Renato não estava bem àquela manhã, nos quatrocentos metros livres ficara em quarta posição, perdendo o pódio para Ricardo Bensimon, que ficara em primeiro, seguido de Henrique Melo Godinho Manso e Rafael de Barros e Vasconcellos. Após as provas femininas ele, Renato Fortino, se juntou a nós na arquibancada e passou o restante do tempo calado, trocou algumas palavras com Carol, outras com Augusto, nos pediu desculpa pela performance e então se fechou. O quarto lugar não era tão ruim, já que nem sempre podemos ser os primeiros. Renato deveria saber disso, ou eu é que não fazia idéia do que se passava com ele.
    Tinha um horário com Dra. Maria Helena àquela tarde. Após a matéria assinada por mim, os coordenadores, liderados por Graça odiosa, me obrigaram a marcar horário com um dos psicólogos disponíveis e eu já estava em minha terceira sessão.
—Normalmente tento corresponder o que os outros sentem por mim... Coisas boas eu digo. Acho que isso é uma forma de lutar contra os relacionamentos superficiais de hoje. —Disse divagando. Ela imediatamente anotou qualquer coisa em seu livreto. A doutora tinha cabelos louros, muito claros, obviamente tingidos, porém sem sinal de raiz, de pele não era tão branca e isso criava um contraste com os fios descoloridos. Ela tinha a cor de asiáticos. Estava sempre bem vestida e amavelmente acolhedora. Sua sala cheirava Bom Ar e a grande taça de vidro com pequenos bombons recheados me chamava a atenção. Em cada sessão consumia uma média de dez. Ela dizia que não tinha problemas. Eu acreditava ter sacos daquilo guardados em um daqueles armários.
—Entrou em contato com algum de seus velhos amigos? —indagou.
—Ainda não...
—Não havia lhe deixado isso como tarefa?
—Não quero procurá-los... Eles bem que poderiam fazer isso. —outra vez ela fez uma anotação. Depois perguntou sobre como estavam as coisas em casa.
— Não sei... Acho que minha mãe está tomando anfetamina. Lógico que não é vendido com esse nome, na verdade acho que ela nem sabe disso.
—Você notou isso? Como foi?
—Percebi que ela anda estranha. Achei que tivesse parado apenas de tomar o remédio para o transtorno bipolar, mas hoje pela manhã ela disse que anda tomando esse outro para emagrecer.
—Foi um médico que receitou? Você sabe?
—Eu não sei... Mas acho que não. Ela vê essas coisas em anúncios de tevê.
—Isso é problema, tenta saber que remédio é esse que ela está tomando e me diz na próxima semana. Essa é a sua tarefa de hoje. —Doutora Maria Helena possuía uma régua que ficava sobre a mesa, que me fascinava, era uma régua de acrílico transparente, contendo um liquido em seu interior, com inúmeros brilhinhos, estrelinhas, cavalos-marinhos... e eles se mexiam a medida que alguém movia a régua. Às vezes ficava ali, simplesmente fazendo movimentos com o objeto e observando tudo aquilo que se mexia lá dentro.
—Acha que as outras pessoas têm o direito de ditar o que é certo e errado? —Perguntei. Estava curioso sobre o ponto de vista de um profissional.
—Me explique melhor.
—Por exemplo... Acha que a opinião dos outros é mais importante do que desejo?
—Acho que o que desejamos é sempre mais importante, porém é bom refletir se isso não entra em choque com o que as pessoas que convivem com você esperam de ti. Entende? Caso isso aconteça é melhor pensar em uma forma de conciliar da melhor forma possível. E às vezes, sim, é preciso fazer alguma alteração, uma adaptação. Você gostaria de entrar em detalhes sobre o que está acontecendo?
—Não agora, nosso horário está chegando ao fim. —Avisei. Ela dizia que normalmente eu gostava de deixar o que vinha me incomodando para o final das sessões, assim poderia deixar o consultório sem aprofundar o assunto.
—Falaremos sobre isso na próxima semana, e não se esqueça de me trazer o nome do remédio, se possível converse com sua mãe sobre quem lhe indicou e aconselhe ela a voltar a tomar a medicação que ela vinha tomando. Até mais, Vinicius. —Estendeu-me a mão cordialmente. De certo modo aquele encontro semanal proporcionava um bem estar, eu pretendia voltar na semana seguinte.
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    Ao abrir o portão de casa notei que meu pai não estava, devido a ausência de seu carro na garagem, só se via o Toyota Corolla de minha mãe, usado normalmente para passeios ao hipermercado. Minha mãe nunca trabalhou fora, gostava de cuidar da casa e se dedicava a isso, fazendo cursos de culinária, decoração, jardinagem, economia doméstica. Então era natural a alegria de chegar em casa, principalmente pouco antes das refeições, sua coleção de receitas era vasta o suficiente para nos impedir de comer a mesmo prato em menos de quinze dias, sempre havia sobremesas e o lanche da tarde também era especial e na maioria das vezes feito por ela mesma, não gostava de quitandas. As que tínhamos em nossa pequena cidade eram muito ruins e cobravam muito alto pelo que vendiam. Com toda essa dedicação é comum esperar que minha mãe desejasse ter outros filhos, mas por complicações em meu parto, eu fui o único que ela pode ter. Ao entrar em casa, lá estava ela, estava de costas, sentada no sofá da sala principal, segurava um envelope na mão que de longe reconheci. Um envelope azul. Meu coração bateu rápido demais e senti um frio no estômago, o que chamam de efeito borboleta. Tentei passar despercebidamente como às vezes fazia. Naquele horário, inicio da noite, o que eu queria era tirar a roupa, tomar um banho e jantar enquanto assistia a televisão. Minha idéia não funcionou. Ela começou a chorar. Eu parei sem respirar. Logo ela aumentou a voz e parecia irritada.
—Você pode me dizer o que é isto? —Sacudiu o envelope, o papel que estava fora dele, fez uma tempestade. Olhei diretamente para ela, ainda usava roupa de dormir, com certeza não estava bem.
—A senhora não se trocou ainda? O que a senhora fez hoje? —Fui até a cozinha rapidamente, não havia nada sujo, nem feito, preparado. Quando sai pela manhã me disse que estava se levantando para preparar o café e pediu desculpas pelo atraso. —Onde está meu pai? A senhora não fez nada hoje?
—Não fuja do assunto, Vinicius! —Gritou.
—Não estou fugindo do assunto! —Também gritei. —Estou preocupado com você! Não fez nada essa manhã... E por que diabos está com isso? Isso estava trancado dentro da minha gaveta... a senhora não tinha o direito de...
—Não fala assim comigo. —Estava um pouco histérica.
—A senhora não tinha esse direito de...
—Que não tinha direito, Vinicius? Não me venha com essa... Eu sou sua mãe. Preciso saber o que está acontecendo com você. —Eu queria desaparecer. —o que está acontecendo entre você e aquele seu amigo? Meu Deus! —Lamentou chorando. —Vocês dois juntos esse tempo todo, ele aqui debaixo do meu teto...
—Mãe a senhora está sendo precipitada em pensar qualquer...
—Eu quero saber por que aquele rapaz te escreveu isso.
    Por que eu estava sendo acusado daquela forma, tão injustamente por minha mãe? Não tinha ninguém ali para me defender, para me dar um abraço, para me dizer que estava tudo bem. Nunca me senti tão desprotegido e desamparado.
—Eu não sei... —Disse suavemente. Meio aturdido.
—Como assim? —Insistiu ela.
—Eu não sei... Está bem? Eu não sei por que ele me escreveu isso. —Eu demonstrei cansaço, e estava.
—Está acontecendo alguma coisa entre vocês?
—Não. —Respondi.
—Eu não quero mais ver você andando com o Augusto. Está entendendo?
—A senhora não pode fazer isso... A senhora não pode me proibir de falar com alguém, a gente se vê toda manhã.
—Então, Vinicius eu convenço seu pai a te tirar desse colégio que nos custa o olho da cara e a gente volta para Jataí.
—Eu não vou deixar o Campus no meio do ano, muito menos vou voltar para aquela cidade. Você só pode estar brincando.
—Você que se atreva a me desafiar...
—Quem a senhora pensa que é para vir me acusando, me dando ordens ou dizendo o que eu posso fazer? A senhora precisa de um médico, mãe. Precisa parar de tomar aquelas porcarias para emagrecer.
—Meus remédios não têm nada a ver com isso aqui. —Outra vez sacudiu o envelope.
—A senhora não tinha o direito de mexer em minhas coisas sem a minha permissão.
—Vinicius, por favor, escuta o que estou lhe dizendo... Isto é pecado meu filho. —Aproximou suas mãos de mim, acariciou minha face enquanto os olhos úmidos lacrimejavam. —As pessoas que fazem isso aqui estão condenadas, escuta o que estou te dizendo...
—Mãe isso não é pecado... Eu não acredito nessa coisa que a religião diz ... Como pode alguém ir para o inferno por gostar de outro ser humano? Seria mais fácil afirmar que isso foi algo criado pela própria regra dos homens... Olha só, eu não sei porque ele escreveu isso, eu nem penso em coisas desse tipo, eu já disse. —A melhor defesa sempre será a negação, aliada ao silêncio. — Eu gostaria de subir agora. —Ela não disse nada, simplesmente virou as costas e saiu em direção ao quintal.
     Chegando em meu quarto, confesso que me senti aliviado, queria chorar mas isso não ajudaria em nada. Peguei o celular e liguei para meu pai. Minha mãe estava precisando de ajuda médica. Quando nos falamos, disse que estava em seu escritório e que em alguns minutos estaria em casa. Já tentando amenizar a minha situação, lhe contei inclusive o fato dela ter entrado em meu quarto e revirado uma gaveta de uso privado e trancada a chave. Não mencionei o conteúdo da descoberta, mas deixei óbvio o que, ali, era de emergência: O estado de saúde de minha mãe. E pedi à Deus para que tudo desse certo, para que não me internassem como um louco ou me fizessem perguntas sem respostas.  
      Voltando a pensar em meus desejos, bem naquele momento, veio a sensação de que precisava dar mais atençao à mim e não aos outros, porque ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! É o quase que me incomoda, que me entristece, que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e na frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. Vou Gastar mais horas realizando que sonhando... Fazendo que planejando... Vivendo que esperando... Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu





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 . (Após uma discussão com a mãe Vinicius se tranca no quarto)


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