domingo, 4 de janeiro de 2015

48 - MEU SÁBADO DE CÃO

Trilha: Shout Out Louds - Impossible (e)   Warren Ellis - destined for great things







                                                                             Os raios fortes de sol que brilharam durante toda tarde, entre aquele sonho cinza que estávamos vivendo, me faziam um bem enorme, me faziam acreditar e esquecer, e essas são duas grandes coisas, duas grandes habilidades: acreditar e esquecer. Gosto de acreditar que ao acordar pela manhã, todas as coisas vão estar em seus lugares, e que por mais que seja chato, seja apenas a continuação do dia anterior, sem transtornos ou escândalos, sem conflitos perturbadores e despedidas indesejáveis, o dia de amanhã será apenas mais uma confortante e inconquistável reprise dos anteriores. E sobre esquecer, sei como é difícil esquecer as coisas, bem, talvez porque eu só tenha dezoito anos e ainda é muito pouco tempo para começar a se esquecer, talvez aos quarenta isso seja possível.
   Convenci-me de que naquele final de semana, esqueceria tudo, esqueceria o mistério que nos rondava, os problemas familiares, mesmo sabendo que meu pai teria uma conversa comigo, logo, logo. Eu desejava e aguardava aquele sábado como todos os cegos desejam um cão labrador. Levaria Julia para jantar e isso me deixava num estado de espera interminável, desde a noite do dia anterior quando nos falamos ao telefone e tomei uma atitude convidando-a para um encontro. Quando aceitou, pediu que prometesse apenas uma coisa, foi assim que ela disse: “prometa apenas uma coisa.” E imediatamente eu prometi. De que não voltaríamos para casa logo após o jantar, e isso me deixara ainda mais ansioso, será que acabaríamos nos divertindo em um daqueles motéis na saída da cidade? Coisas assim me passavam constantemente. Meu Deus, será que ela me queria? Julia era uma garota especialmente atraente, digo isso porque não era apenas seu físico que me chamava atenção. Quero dizer… era totalmente atraído por seu corpo, por todas as suas características, sua baixa estatura, que para mim era o ideal em mulheres, seus olhos castanhos impossíveis de se descrever, não pela cor que eles tinham, mas pela forma como olhavam; a pele clara e suave, desinfetada de todos os problemas de sua idade. Mas de fato o que de mais importante possuía, e acredito que isso seja válido a todo ser humano, era seu caráter, ou pelo menos o que ele significava para mim. Eram todas suas respostas sobre qualquer coisa que eu lhe perguntasse. Eu não sei no que de fato ela se interessava em minha pessoa, mas sabia que de alguma maneira sentia-se muito atraída. Todos aqueles beijos no táxi devem tê-la deixado com um desejo eminente de um pouquinho mais da próxima vez.
      Sai do banho apressado, havia separado uma boa roupa para aquela noite, algo entre o casual e o elegante, calça jeans, botas de couro recém compradas, camisa branca longa, sempre para o lado de fora da calça, casaco preto com grandes bolsos e capuz, de tecido firme e resistente. Uma japona, como chamava minha mãe. Minha mãe às vezes dava nomes engraçados às coisas, um cozido de carne picadinha com legumes, por exemplo, ela chamava de “guizado”.
      Pegaria o carro do meu pai, quase nunca dirigia, mas em certas situações isso se tornava algo inevitável. Normalmente o táxi era meu transporte predileto, talvez por não possuir um carro próprio, e nem fazer muita questão de possuir um. Gostava de me locomover de maneiras diferentes, e sempre que estava dentro de um carro me sentia incomparavelmente mais confortável quando não estava dirigindo, quando estava apenas no banco de passageiro sendo levado por longas estradas.
      A noite prometia, e eu era John Travolta em “Os embalos de sábado a noite“, talvez rolasse até uma boate qualquer antes de mais nada.
—Vê se leva essa garota em um bom lugar, ela parece ter bom gosto. —disse dona Marta naquele pequeno espaço de tempo em que estive na cozinha para um copo de água. Voltara a tomar seus remédios e parecia mais controlada. Quando meu pai viesse me falar sobre o bilhete, eu lhe jogaria as anfetaminas de minha mãe em sua cara. Com palavras é claro. E observaria sua reação.
—Levarei. Pode acreditar.
  
      Julia não morava longe, cinco quadras virando a esquerda. O amarelo de sua casa, era visto da calçada como um grito que escapava sobre o muro, e os portões em cor de zinco, imensos e trabalhados, deixavam escapar que seus pais eram pessoas que gostavam de se projetar, e como constatei naquela mesma inesperada noite, que eles eram pessoas excêntricas e perspicazes.
      O senhor que abrira a porta, por seus cabelos finos, ralos e brancos ao redor da cabeça, me fez pensar que poderia ser o avô de Julia, mas era seu pai.
—Então você é o tal moço que Julia está aguardando? —por um minuto pareceu me analisar com o olhar grosseiro de quem examina pessoas fazendo questão de demonstrar que realmente estão processando considerações a seu respeito. —Entre! Já está tudo pronto.
—Como assim? Tudo pronto. —eu estava embaraçado.
—Julia nos disse que sairiam para jantar essa noite, bem... Marina achou que seria divertido se jantássemos todos juntos. —Com a experiência das décadas que carregava, percebera a decepção estampada de alguma forma em meu rosto. Talvez no olhar. —Ora, não se desanime, a comida está excelente... —E saindo da pequena saleta me conduziu até a ampla sala de leitura. Assim a chamavam. — Marina cozinha muito bem, mas essa noite ela não entrou na cozinha, apenas orientou Rosário, nossa cozinheira. Teremos cordeiro, o que me diz?
Eu não sabia o que dizer, aquele velho estava me parecendo sarcástico e veio para atrapalhar meus planos de toda uma pequena vida amorosa, de toda uma noite suculenta.
—Me parece ótimo. A Julia? Ela concorda com tudo isso? —Eu parecia bobo?
—Aceita algo para beber? Temos o que quiser aqui.
—Não sei... Água?
—Gasificada?
—Ah, não, obrigado.
—Julia já deve estar descendo, e sobre minha filha caçula, —Disse enquanto abria o pequeno refrigerador do grandioso bar. —talvez precise saber que ela sempre concorda com tudo que Marina e eu dissemos.
—Me desculpe, senhor, mas o nome de sua esposa não é Dirce?
—Sim. Dirce Marina. —Pronunciou ao mesmo tempo que me passava a água, gelada e com gelo. Ao primeiro gole quase me engasguei, de repente me aparece uma mulher hiper produzida, ultra maquiada, com seus sessenta anos e ainda mantendo certas tendências dos anos setenta, como o brilho da roupa, as cores da maquilagem e as formas geométricas de brincos e pulseiras. Ela era o exagero em pessoa, o orgasmo do fantasmagórico e teatral. O cabelo era claro e armado quase como uma chapéla sobre a cabeçinha miúda de sorriso largo. Controlei-me.
—Então esse é nosso rapaz! —E de modo estranho tocou-me os ombros, mantendo seus olhos acesos sobre mim.—Julia ainda está lá em cima, Tolentino? —Perguntou ao senhor Mesquita. A verdade era que ninguém havia dito à Julia que eu estava ali sendo torturado em seu living, como dizem os esnobes do colégio em que estudo. —Ela provavelmente já deve estar descendo, meu docinho. —Deu um tapinha na minha maçã esquerda e nada pude fazer além de esboçar uma alegria sem graça.
—Foi o que eu disse. —Tolentino, era esse seu nome, preparava duas taças de qualquer coisa para ele e Dirce Marina, possivelmente algo afrodisíaco, de cor azul anil. —Julia é assim mesmo, enrolada, não é meu docinho? —Perguntou à mulher assim que lhe passou a bebida, ela concordou com um sorriso de afirmação e prazer.
—Espero que goste de cordeiro. Foi o que decidi, cordeiro, após ouvir sua história, Julia me contou de onde veio, decidi que cordeiro seria a melhor opção. Sofisticado e ao mesmo tempo rústico.
      O que a minha futura sogra estava dizendo? O que teria a ver minha cidade natal com os cordeiros? Onde estaria Julia naquele instante? Aqueles velhinhos malucos seriam mesmo meus sogros? Por um momento concentrei-me na imagem de Julia, na pele branca, nos cabelos escuros, lisos, no seu beijo suave; pensava em tudo isso para não esquecer-me do que estava fazendo ali e assim ir embora fugido exasperado.
—Cordeiro é muito bom, aprecio bastante.
—Olha só que gracinha. —Disse Dirce ainda com a taça na mão. —Olha como ele fala. Eu aprecio sua educação, meu rapaz.
—Obrigado, senhora.
    E então todos rimos, mera convenção social. Comecei a jogar.
—Poderia subir e ver como Julia está?
—É a primeira vez que está aqui e já quer subir? —indagou o senhor em tom de piada.
—Ah que isso! Não vamos ser tão rígidos com o pobre moço, Tolentino. Pode subir, é o primeiro quarto a direita, mas desçam rapidamente que já vou mandar servir o jantar.
—Ok. Não tem com o que se preocupar. —Andei o mais depressa que pude e ao sair ainda se ouvia a mãe de Julia rindo entre algumas palavras ditas por seu pai, em tom muito baixo. Precisava tirar Julia de casa o mais rápido possível, se tivéssemos que jantar, tudo bem, jantaríamos, mas iríamos embora logo em seguida.
    A porta estava apenas encostada, segurei na maçaneta e com os nós dos dedos bati de leve. Ela disse que podia entrar e ficou surpresa ao me ver.
—Não sabia que já havia...
—Estou aqui há mais de meia hora. Que história é essa de jantarmos aqui, Julia?
—São meus pais, Vinicius, me desculpa, — Disse-me inquieta. —mas quando eles decidem controlar uma situação não existe nada que a gente possa fazer. Meu pai não quer que eu saia. Disse que você é muito novo para dirigir, que é tarde para sairmos a sós...
    Meus planos estavam arruinados, tudo mentalmente tão arrumadinho, perfeito, principalmente a parte do motel... Se fosse movido por impulsos sairia daquela casa naquele exato momento, como um garoto mimado de oito anos quando resolve emburrar. Mas eu era um homem, um jovem e bem-sucedido homem de dezoito anos.
—Muito bem, então. Acho melhor descermos. —Dito decididamente.
—É.. Eu também acho. —Ela estava perfumada. Usava um vestido rosa de tecido fino, leve, semitransparente. Passou por mim e eu ainda fiquei alguns segundo a observar seu quarto, era um quarto tipicamente clichê de uma garota pré-adolescente, paredes rosas, sem graça, olhando bem tudo era rosa ou branco. Confesso que achei meio cafona, muito menininha, muito delicado demais. Será que ela se sentia uma princesa injustamente confinada? Seria eu seu grande salvador? O que eu estava fazendo ali, apreciando sua incúria intimidade? Sai correndo, confesso eu, um pouco afobado. Não havia ninguém no corredor. Chamei por ela? Provavelmente a família já estava reunida rindo da minha cara. 
      Foi quando resolvi descer que a cadela apareceu. Era uma Collie gigante, vinha desconfiada em minha direção, rosnando baixinho. Eu sempre achei essa espécie de cão tão cafona, era a cara da mãe de Julia. Por um tempo fiquei totalmente paralisado. Afastei um pé para trás bem devagar tentando recuar, ela percebeu e rosnou um pouco mais alto. Parei outra vez. Gritei por Julia o mais alto que pude e quando o fiz a maldita Collie veio correndo em minha direção, latindo. Ela pegou a barra de minha calça nos dentes, derrubando-me no chão e envolveu a carne do meu calcanhar com o maxilar. Eu gritei. Julia apareceu e gritou. Dirce Marina gritou mais alto ainda e Tolentino pediu para que a cadela se afastasse. Nada adiantou, então eu lhe dei um chute com o pé direito, algo que lhe prejudicaria a visão para o resto de sua vida infeliz e inútil. Ela saiu chorando descendo a escada. Dirce achara minha atitude inadmissível e criticara no mesmo instante.
—Um animal indefeso... —Lamentou. —Onde vamos parar? Precisamos selecionar melhor as companhias de Julia Tolentino. —E desceu emborrecida.
—Meu Deus! Está sangrando! —Ela tentou me dar todo o apoio.
—Ainda bem que Didica está em dias com suas vacinas. —Que raiva!
    No banheiro da família o pai de Julia me ajudou a lavar o machucado, depois passou um pouco de algo transparente que não era álcool. Em seguida colou uma gaze e cobriu com esparadrapo. A velha maluca usava a linha interna da casa a todo momento clamando que fossem jantar. Eu já queria era ir embora. Por fim me deram um analgésico e disseram que tudo ficaria bem.
—Podem me deixar um minuto a sós? —O pai olhara para filha e saíram.
—Te aguardo aqui de fora.
—Ok.
     Liguei a torneira da pia e deixei a água correr, estava odiando tudo aquilo. Lavei o rosto, usei a toalha mal cheirosa que se encontrava logo acima. Do celular liguei para Augusto, duas vezes até cair e nada. Liguei em sua casa. Alguém atendeu como se o numero fosse de uma Floricultura. Disse que estavam dando descontos nas coroas de flores durante toda aquela semana, comprava uma e levava duas, desliguei sem nada dizer. Descia a escada com um pouco de dificuldade, é claro que me sentaria a mesa e experimentaria o cordeiro feito em minha homenagem, nem mesmo minha mãe alguma vez chegara a preparar um cordeiro, mas ainda assim aquela mulher dizia ver relação entre mim e essa carne exótica.
      Didica desapareceu, provavelmente foi trancada em algum canto da casa, afastada do convívio social. Estava prestes a me sentar quando meu celular tocou, não estava no silencioso, pedi licença, mas o atendi ali mesmo.
—O que foi? —Ele perguntou, sua voz esta descontraída.
—Tudo bem?
—Acho que não.... liga a televisão, um amigo do meu pai acaba de ser encontrado morto dentro de casa e estão ligando o caso dele com o da Solange.
—Você está falando sério?
—Liga a televisão.
—Onde fica a tevê? —Perguntei. —Poderíamos ver o noticiário? —Julia me guiou.
—O que houve? —Perguntou ela.
—Um amigo do pai de Augusto foi assassinado, está passando na tevê. —Estávamos na sala. —Qual canal, Augusto?
—Quatro.
     Julia sintonizou o canal e nos sentamos para acompanhar. A repórter Juliana Texeira estava de frente uma casa, um grande sobrado na região sudoeste da cidade. A matéria já estava em andamento, mas o que ficara claro era que Ismael era amigo intimo de doutor Marcos, e da mesma forma que Solange Neves, o médico também fora encontrado com mutilações bem parecidas com as encontradas no corpo da empresária. A policia já havia expedido uma ordem de prisão ao pai de Augusto porque supostamente havia provas. Dr. Marcos já estava sendo procurado e deveria chegar à delegacia a qualquer momento.
     Dirce assistiu tudo horrorizada enquanto Tolentino não compreendia o fator motivador desses assassinatos. Seriam crimes passionais? Sugeriu num momento.
—Ainda está ai? —perguntou. —Estou em casa, pode vir pra cá?
—Como está?
—Eu estou bem. Não estou preocupado... não vou esquentar a cabeça com isso não, Vinicius! ...E então? Pode vir pra cá?
—Não agora... Mas não demoro muito.


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. (Didica, cadela de júlia, ataca Vinícius)


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