quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

57 - TODOS OS COWBOYS VÃO PARA O CÉU

Trilha: Poison - every rose has its thorn    (e)   Warren Ellis - money train









                                                                                                         Augusto ficava me olhando com uma cara nojenta, como se me perguntasse alguma coisa e estivesse a espera da resposta? Contar o que houve para ele não foi fácil não, até pensei em mentir, inventar uma merda qualquer. Mas, porra, se ele estava me ajudando... fiquei na dúvida algum tempo, sentia vergonha de estar naquela situação, o modo como me olhava questionando silenciosamente me inibia ainda mais.
—Acho que o que já sabe é motivo suficiente para eu sair de casa... —Disse à ele enquanto fumávamos na lavanderia. 
—Mas aconteceu alguma coisa. Não aconteceu?
—Augusto, dessa vez ele passou dos limites... —Puxei, prensei, passei e prossegui. —Ele me chupou, cara... você acredita nisso? Eu acordei ele estava lá de joelhos me chupando... e eu quase gozei. Foi terrível... Eu nem sei dizer o que tô sentindo. —Sabia que se contasse à ele, e pedisse segredo, não precisaria dizer algo à Carol. Definitivamente ela não precisava saber os verdadeiros motivos que me levaram para casa do nosso amigo com tudo de valor que eu tinha em meu quarto. Acho que o que Carol já sabia era o suficiente.
—Então vai passar esse período na casa de Augusto e depois vai se mudar? Para onde Renato? Como vai pagar um aluguel? —Dizia ela naquela manhã enquanto paramos na mesma loja de conveniência para comermos e consumir possíveis porcarias. —Para morar sozinho é preciso ter um emprego e você jogou o seu fora pela janela há alguns meses atrás.
—Não foi bem assim... E por que está tão agressiva hoje? Que bicho te mordeu? Um bicho chamado Sander?
—Eu não estou agressiva, estou entediada. Haverá uma festa de aniversário para o meu sobrinho essa noite e detesto a ideia de estar presente, mas não tem outro jeito. Minha mãe intimou e deixou bem claro que eu tenho o dever de ir à essa comemoração idiota. Eu já tenho dezessete anos, acham mesmo que nossos pais deveriam nos obrigar a fazer qualquer tipo de coisa? —Augusto e eu nos olhamos, compartilhávamos cumplicidade.
—Claro que não. De forma alguma.
—É o que eu digo... E como estão as coisas com seu pai, Misto quente? Temos nos falado pouco ultimamente.
—Ainda não entendo esse apelido... Tudo bem chamar Julia de Mosquita ou o Caio de Balofo... mas misto quente? —À mim ela às vezes se referia como o João. João do pé-de-feijão.
—Não vou explicar... Sejam criativos!
—Se você deixasse o Sander um pouco de lado...
—Você está sendo maldoso. —Disse ela.
—Hoje estamos sós outra vez. Você, eu e o Renato. É assim que deveria ser. —Augusto era um cara possessivo, nunca gostei muito de pessoas possessivas, eu prezava a liberdade e odiaria viver numa rotina onde tivesse que dar satisfações de tudo que faço o tempo todo. Nem escravos faziam isso.
—Eu não sei... —Manifestei minhas inseguranças publicamente. —Enquanto Carol está com Sander, você está com Vinicius. E eu estou sozinho, meu chapa.
—Que visão pessimista.
—Não vejo porque deveria ser diferente.
—Nossa! Vocês sim estão agressivos. Dois dias que ficamos sem nos ver e vocês parecem outras pessoas. —Carol pegou o celular para averiguar se não tinha recebido alguma mensagem de Sander, seu ursinho. —Acho melhor nos apressarmos, estamos em cima da hora. Não posso mais entrar no segundo horário, mais uma notificação em minha agenda e estou deserdada. —E saiu andando. —Minha mãe também já não é mais a mesma. Depois que recebeu uma ligação do meu pai dizendo que estava pensando em vender nossa casa ela meio que pirou.
—Vão se mudar?
—Espero que não... Mas ele está a fim de implicá-la, então vai levar isso adiante... Quero até ver o barraco que vai ser no aniversário do Erick... Ele vai estar lá, a vadiazinha de vinte e cinco também vai estar fazendo bico para todo mundo... Vão começar falar da venda da casa e o que era festa será uma briga familiar com direito a convidados, filmagem e bolo. Eu detesto a minha família! —Declarou pela primeira vez. 
—Mas ele vai mesmo vender a casa?
—Acho que não... O fato é que isso serviu como pretexto de guerra entre os dois. Acho que minha mãe deveria arrumar um namorado. Um cara mais rico que meu pai e que a trate bem. E o seu pai? Ainda preso?
    Desde a noite em que Ismael foi assassinado e partiu desta para melhor que doutor Marcos dormia na prisão. O juiz ainda analisava um pedido de habeas corpus. Se os assassinatos tinham alguma ligação com todo o resto, doutor Marcos era inocente. Quando houve o acidente na estrada de acesso, deixando a prima do Vinicius morta, o pai de Augusto já estava na grade.
—Não tenho andado preocupado... Se ele é culpado de alguma coisa que pague, caso contrário que processe o estado por ter sido preso injustamente.
—Não estou lhe dizendo, Misto-quente. —Às vezes Carol tinha muito jeito de revolucionaria, de líder. —Vão por mim, os pais não ligam mais para os filhos hoje em dia. E é por isso que somos o que somos. E ainda existem outros da nossa idade bem piores do que nós.
—Com a vida desgraçada que muitos já nascem predestinados... —Disse ele. —Fica até difícil acreditar que as crianças de hoje são de Deus.
—São aberrações do mundo novo. Filhos do apocalipse.
—E nós, profetas do underground. —Disse pouco antes de entrarmos no conversível de Augusto e então rimos, pois era assim que Fernanda nos chamava.
     Após o segundo viaduto da rodovia, seguindo em direção ao PH, pelo mesmo caminho de Brasília, Carol interrompeu a música e pretendia trocar o disco.
—Coloca na rádio. —Eu disse.
—Essa cidade não tem rádios boas. —Então Augusto deu sua opinião:
—Ah Carol! Nunca escutamos a rádio, vai lá. —E meio contrariada ela foi, colocou na FM e trocou de estação umas duas vezes, fugindo do sertanejo que é muito comum na nossa região, até encontrar uma boa canção, era a clássica do Poison, “every rose has its thorn”.  
—É meus amigos, mais um trimestre e tudo acaba... —Disse um pouco indignado. Aliviado em saber que o ensino médio chegava ao fim, mas de certa forma asfixiado, não me dou muito bem com inícios, com coisas novas e tal.
—Esse foi o nosso melhor ano! —Afirmou Carol.
—Para mim não! —Mencionou Augusto, sabíamos que era por causa de sua mãe.
—Ah, me desculpa, eu havia me esquecido! —Talvez não só pela mãe, mas por seu pai que estava preso e vai ver sua vida estava um cú, igual a minha.
     Augusto aumentou o áudio e o vocal explodiu em um fantástico efeito de sons, uma guitarra triste ao fundo, o barulho de carros em alta velocidade. O dia estava quente naquela manhã e as árvores, assim como toda a mata, era de um verde incomum e fugaz. O céu, cinéreo, parcialmente encobria o sol que sempre traz a renovação de um novo dia, mesmo assim o dia ainda era quente, os corpos estavam quentes, e tudo esquentaria ainda mais. Entrando no trevo à esquerda, na estrada de acesso para o Instituto.
—Alguém sabe quem canta essa música? —Perguntou Carol.
—Poison. —Respondi. —Uma das bandas preferidas do meu irmão.  
—Eu adorei! Eu adoro essa cidade! —Afirmou Carol. Mais uma de suas paixões, pensei. Carol sempre declarava estar amando alguma coisa. Ela amava e odiava, não havia meio termos.   Ainda faltavam três meses para o final do ano letivo e meu futuro ainda era incerto. Tentei ligar para Fernando algumas vezes, mas até o exato momento as três ligações que fizera haviam sido em vão. Em nenhuma delas ele estava em casa. E sobre o campeonato anual de natação, estava pensando seriamente em desistir, havia ficado em quarto lugar nas olimpíadas internas. Não iria competir com os melhores do estado para me ver em posição ainda pior. Não estava com nenhum pingo de disposição para os treinos e paciência para os apitos exigentes do treinador.   
     Passávamos por aquela estrada todos os dias, e quando vemos a mesma coisa todos os dias temos a tendência de deixar de observá-las. Eu estava praticamente absorto em meus pensamentos quando Augusto gritou algo do tipo, ai meu deus, e diminuiu a velocidade do carro.
—O que foi isso? —Ouvimos dois ou três tiros e Augusto imediatamente brecou o carro. Nos abaixamos. Ouvimos um estrondo surdo, gritos e vozes que vinham do ônibus tombado poucos metros a nossa frente.
—O que será isso? —Perguntou ele sussurrando?
—Eu não sei cara, mas tinha um ônibus na nossa frente. Você viu?
—Sim. —Mais um tiro foi ouvido, pareceu tão próximo que Carol soltou um grito de pavor. Pegou seu celular e discou um numero de três dígitos.
—Não acha melhor dar ré e sairmos daqui?
—Não sei se consigo...
—Por favor, precisamos de ajuda na estrada de acesso ao Campus PH... Eu não sei, mas ouvimos tiros, tem pessoas gritando, acho que alguém se machucou. —Tudo parecia muito rápido.
—O que disseram?
—Estão mandando alguém...
     Alguns minutos se passaram e ainda era desconhecido para nós três o que de fato estava acontecendo. Mas tiros contra ônibus tombado na estrada de acesso não era algo que já tivera acontecido antes.
—Vamos. —Eu disse. —Precisamos ir até o ônibus.
—Você está louco? Não ouviu barulho de tiros? Tem alguém armado por aqui...
—Acha que estamos seguros nesse carro sem teto?
—Augusto, não dê ouvidos à ele.
—Precisamos sair daqui Carol… não podemos ficar. E se tiver alguém precisando de ajuda?
     Abrimos as portas do carro e descemos receosos, o ônibus estava tombado a nossa frente, as portas estavam voltadas para o chão e os alunos não conseguiam sair pelas janelas de modo que o pânico se tornava cada vez maior. Estávamos bem perto quando as sirenes foram escutadas, olhando para trás pudemos ver o vermelho dos bombeiros, logo já se viam as viaturas policiais acompanhadas por uma equipe de televisão. Como se soube mais tarde, o ônibus que estava na frente conseguiu chegar ao Campus e comunicou a policia sobre o atentado.
—Olhem só a numeração do ônibus. —Observou Augusto.
—521. O que é que tem?
—É o ônibus que traz grande parte dos alunos do terceiro ano. É esse ônibus que traz o Vinicius, o Sander, a Julia, a Fernanda... Quase todo mundo que conhecemos está ai dentro desse ônibus.
—Eu acho que não estou passando bem! —Choramingou Carol.
—Acha que isso é mais uma peça do quebra cabeça? —Perguntei. Mas estávamos imóveis, apenas observávamos o trabalho dos bombeiros para tirarem os que estavam presos e feridos.




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. (Loja de Conveniência por onde passam a caminho do Campus )



(Atentado ao ônibus escolar)


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