sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

58 - ENGOLINDO SUAS PRÓPRIAS VIDAS

Trilha: Warren Ellis - moving on    (e)    Blur - beetlebum









                                                                                                         Abriu-se um clarão no céu, afastando a grande sombra, deixando a cidade clara, como todos os dias devem ser, de um azul como não víamos meses. As manchete estavam em todos os jornais, os noticiários atualizavam o caso diariamente, às vezes com informações desnecessárias, pura especulações, a imprensa internacional também fizera notas sobre o mistério que nos rondava, o desaparecimento, as mortes e os atentados. Não falavam do pai do Augusto e seus dois crimes, até então, as duas histórias não se cruzavam. A Folha de São Paulo anunciou: “Pais de todo o Brasil resgatam seus filhos do drama estudantil em Goiás”. Em O Globo sai a seguinte manchete: “Pais de alunos mortos processam Campus PH e pedem indenização milionária.” Logo em baixo em letras menores: “Policia diz não ter pistas sobre quem causou a morte dos estudantes e faz apelo à população.” Em A Gazeta do Povo: “Alunos retornam à Curitiba após pânico em Goiás.” O Popular: “Campus PH reforça sistema de segurança e monitoramento de seus alunos.” Diário da manhã: “O Colégio do terror.” O calor aumentava progressivamente e de modo relutante as pessoas abandonavam seus novos casacos de longa data em casa e passavam a circular em tiras de pano, sandálias e bonés. Eu não gostava de me vestir assim, gostava de roupas sobrepostas e mesmo em dias mais quentes usava uma jaqueta leve de material sintético que não esquentava tanto.  Para alguns caras uma camiseta regata branca e uma bermuda já é muita coisa, só me vestia assim quando estava em casa. Eu usava camisa pólo de mangas curtas, botões abertos em cima para que a camiseta abaixo ficasse amostra, e para fechar, uma jaqueta, um blusão, um sobretudo, qualquer coisa de mangas longas que pudesse aquecer tanto quanto um forno industrial. Em baixo era normal, apenas uma calça jeans que não abria mão, meias e sapatos.  Mesmo usando poucas peças Augusto era muito indeciso sobre o que vestir, trocava de roupa três ou quatro vezes. Dormindo no quarto ao lado e dividindo o mesmo banheiro, na verdade porque queriamos, não existia um meio de não presenciar todas essas coisas; de até mesmo deixar de emitir opinião sobre qual calça ele deveria usar, quando questionado, o que acontecia freqüentemente. A indecisão fazia parte da sua personalidade, tinha a tendência de escutar os outros porque no fundo não queria se culpar pelas decisões erradas.
      Um apartamento tão grande e rico como aquele faz muito bem aos seus moradores, é como se você acordasse num sonho todas as manhãs, tudo era espaçoso e belo. Bem caberia quatro apartamentos meus lá dentro, mas meu apartamento era uma merda de verdade. Posso dizer que nunca tive tanto espaço na vida, mas com o passar do tempo a convivência doméstica acabou se revelando uma coisa enfadonha e até um pouco intolerável. Por qual razão alguém acorda em um feriado às sete da manhã? E só o barulho da água do chuveiro caindo ininterruptamente, no banho de meia hora paraíso que ele tomava, já me despertava. Depois ele surgia vermelho, invadia meu quarto e dizia sorrindo quase que diabolicamente: “É um belo dia Renato, o que acha de a gente fumar um?” Ele era assim, totalmente de veneta, quando era preciso acordar as seis para ir assistir aula, nem sempre conseguia, já noutros que nada havia para fazer, ele se ocupava de fazer alguma coisa. Quinze minutos depois eu estava enrolado no cobertor, sentado na sacada da sala, exalando fumaça e viajando. Sonhando com o imenso vazio das grandes capitais quando todos estão trancafiados em seus próprios apartamentos respirando e engolindo suas próprias vidas. Levantei-me, deixando o cobertor no chão, se não me engano estava só de cueca, fiquei preocupado é claro, mas foda-se. Ele nem era bobo de se meter comigo.
—Preciso de uma xícara de café.
—Faz dois?
—Claro. —O bom de casa de pessoas ricas é que tem tudo que você deseja e procura, até mesmo coisas sem utilidades, depois que aprendi a utilizar a cafeteira elétrica passei a fazer e a tomar mais café. Peguei o pó e liguei a pequena tevê da cozinha. A repórter estava na estrada de acesso com o microfone em mãos e dizia alguma coisa, aumentei o volume.
—Após uma varredura na área florestal que não é pequena, a policia encontra dentro do rio que corta a região a carcaça de um veiculo, um sedã preto que pode sim ter sido o veiculo usado por uma pessoa ainda não identificada e que jogou o carro dos estudantes para fora da pista, deixando infelizmente uma vitima fatal.
—Ei, Augusto! —Gritei. —Estão falando sobre nós na tevê, encontraram o carro... —Logo ele surgiu apavorado com o baseado ainda em mãos.  
—O quê?
—Parece que encontraram o sedâ preto dentro do rio. 
—Como foi que o desgraçado conseguiu jogar esse carro no rio? —Eu não fazia ideia. Juliana Texeira prosseguiu:
—Daqui o carro será encaminhado a pericia técnica, e esperamos que ele ajude a policia a encontrar esse criminoso, que segundo o delegado responsável pelo caso, também é autor do atentado aos ônibus do Instituto na última semana.
       O campus havia declarado cinco dias de recesso para investigações, reformas no sistema de segurança e reunião geral de todos os diretores do Instituto. No acidente com os ônibus, vinte e dois alunos ficaram feridos, sete em estado grave, um com uma bala encravada próxima aos pulmões, dois mortos, incluindo seu Costa, que fora atingido por uma bala e perdeu a direção, fazendo com que o ônibus tombasse ao se chocar de frente com uma árvore próxima ao acostamento. Julia, que estava no ônibus 521, que seu Costa dirigia, quebrara um dos braços e sofrera cortes leves no rosto, Vinicius, Fernanda, Felipe e os outros nada sofreram além de hematomas e cortes e decidiram não se pronunciar sobre todo aquele desastre. Houve alunos que apareceram na tevê, houve alunos que tiveram fotos estampadas em jornais embaixo de manchetes que diziam “Vitimas de um horror estudantil”, mas Vinicius, Julia, assim como Augusto, eu e Carol, nada dissemos.  O assunto ganhara destaque nacional, fazendo parte do bloco diário de noticias, de importantes publicações, destaque na Folha, O Globo, Correio da Bahia, Estado de Minas, Zero Hora entre outros. A estrada de acesso fora exibida em rede nacional por todas as emissoras, inúmeras vezes. A polícia do estado passava a considerar uma ligação entre os diversos casos ocorridos recentemente e o desaparecimento de Caio no inicio do ano, mas tudo ainda era uma nuvem negra e densa, um labirinto de caminhos sinuosos, uma casa de espelhos mágicos.
—Eu estou chocado. —Disse com o pó ainda nas mãos. Sentei.
—Acho que estamos certos em passar um tempo fora daqui.
—Partimos que horas?
—Deixamos marcado as duas, antes podemos sair para almoçar, disse à Maria que não precisava vir essa semana já que não estaremos aqui.
—Você acha mesmo que o melhor é que ninguém saiba para onde estamos indo?
—Não sei Renato... —Dizia em pé, escorado no balcão e voltado para mim. — Mas não quero pensar nisso, me deixa deprimido... Eu não entendo nada do que está acontecendo… você consegue?
—Não, já pensei inúmeras vezes. Realmente nada faz sentido.
—Isso é o que dizer da vida...
—O quê?
—Que nada faz sentido.
—Hum... Eu concordo plenamente. —E se seu pai sair da prisão, a sentença do pedido de habeas corpus não é essa semana?
—Eu não sei...
—Talvez devesse avisar o advogado. —Disse levantando-me, rompendo com a inércia. —Desisti do café. Vou até a sala fazer uma ligação. Depois tomo um banho e vamos assistir South Park, hoje tem maratona de quatro horas.
—Beleza! Temos uma manhã inteira antes do almoço.
    Já me sentia fraco, tinha medo de que mais cedo ou mais tarde não houvesse outra alternativa a não ser voltar para o lugar que eu mesmo havia dito que nunca mais voltaria. De tantas vezes repetir o numero acabara o gravando mentalmente, disquei, chamou quatro ou cinco vezes, atendeu. Esperei que dissesse “yes” duas vezes para ter certeza de que não era uma nova secretária eletrônica, como também para conferir se a voz era realmente do meu grande irmão.
—Yes? —Disse, ainda pensando em palavras.
—Renato? É você mano? —Foi estranho. Eu nunca havia ligado antes.
—E ai, Fernando? —soltei o ar preso. —Como você está?
—Me desculpa, Renato, por não estar telefonando e ter desaparecido... Cara, a vida aqui é uma correria, uma loucura, você não tem tempo para nada. Esse país não para nunca, mano. E como vocês estão? Você ainda está com o velho? —Estranha a pergunta.
—Cara... —Eu não sabia o que dizer. — Eu estou... Quero dizer... Fernando, eu preciso te contar uma coisa... —E quando invoquei todas aquelas imagens em minha cabeça, tudo aquilo que queria apagar com uma borracha, como se apaga uma frase mal feita em uma folha de papel, ficou em cores mais vivas que nunca, desabei em choro. Eu queria ter minha família outra vez, eu queria me sentir seguro em algum lugar, tão seguro quanto me sentia aos doze anos de idade.
—Renato? O que aconteceu, irmão? Não vai me dizer que o velho morreu?
—Não... É bem pior que isso. Queria mesmo que ele estivesse morto agora...
      Houve um silêncio, eu ainda ofegante, depois ele disse:
—Ele fez alguma coisa com você?
—Eu não sei... —Eu sabia sim, não tinha forças para falar. —Eu estava muito tonto e quando acordei do porre ele estava em cima de mim, eu estava sem calça...
—Aquele desgraçado! O que foi que você fez?
—Peguei minhas coisas e vim pra casa de um amigo.
—Isso demorou muito acontecer…
—Como assim? Do que você está falando?
—Bem... Eu nunca soube achar um momento certo pra te contar tudo, mas acho que se as coisas chegaram a esse ponto, não tem mais porque esperar...
—Do que você está falando, Fernando?
—Quando saí de casa anos atrás, não foi porque a tia Luciene precisava de companhia. O velho vinha abusando de mim há anos, gostava de me acariciar, pegar no meu pau, por a boca nele... Desde os doze anos aquele desgraçado fazia coisas assim comigo... Você passava a tarde na escola, a mamãe cuidando da vovó, você lembra como foi aqueles anos antes da nossa avó partir? Enquanto isso o velho chegava mais cedo do serviço e mandava a Fátima, a empregada que nossa mãe tinha arranjado aquela época, ir embora mais cedo para que ficássemos sós...  —Fernando parecia estar discutindo com o telefone, sentia raiva, e conseguia transmiti-la em cada palavra.  Eu ficara ainda mais chocado do que já estava, eu estava tão surpreso quanto enojado. Sentia vontade de vomitar no primeiro local apropriado que encontrasse pela frente.
—E você vem me dizer isso só agora? —Ele respirou durante um minuto.
—Acha que é fácil contar isso pra alguém? Eu não sabia como... — De certa forma eu me sentia traído. —Pode me dizer onde você está? Está com alguém que confia?
—Eu estou sozinho seu desgraçado! —Gritei afastando o fone do ouvido.
—Renato? Fala comigo irmão... Acha que eu tenho culpa?
—Você esperou que ele fizesse algo comigo pra poder me contar?
—Quantas vezes o velho te surrou e você não fez nada, Renato? Mas tudo bem, cara. Eu me sinto culpado se é o que quer saber.
—Eu não quero falar com você. São quantas horas ai, agora?
—São duas horas.
—Tenha uma boa tarde. —E desliguei. Subi as escadas e passei no lavabo do corredor. Lavei o rosto e o enxuguei com a toalha azul pendurada no gancho de aço inox. Quando entrei no quarto estava aparentemente feliz, mas no fundo eu estava era muito grilado. Querendo que essa porra toda fosse para o inferno!
—E a maratona?
—Então... —Pensei um momento. Vou tomar um banho. —A campainha tocou, vesti uma bermuda e descemos para atender. Havia uma lista de pessoas na portaria do prédio de Augusto pré-autorizadas a subir. Carol era uma dessas pessoas.
—Entra ai, pensei que tivéssemos marcado as três?
—Ai Augusto, minha mãe não é mais aquela mulher querida e bondosa que você conheceu alguns meses atrás. Ela se transformou em uma bruxa depois que entrou em conflito com meu pai. Vim agora porque ela não me deixaria sair se estivesse em casa. Hoje de manhã tivemos uma briga quando mencionei que viajaria com vocês.
—Ela não queria que você fosse?
—Disse que estava proibida. —Carol foi nervosa até o bar da sala e escolheu a garrafa que possuía o rótulo mais caro. Serviu-se. —Ai começou a falar que eu ando fumando e que tenho ficado até tarde na rua. Eu peguei e disse: ”Eu fumo sim, bebo sim e vou pra fazenda com os meninos, a senhora também já fez isso." —E Carol estava certa. A mãe dela tinha até foto na praia com peito de fora, na década de setenta.— Então peguei minhas coisas quando ela saiu para o trabalho e aqui estou eu. Caso me expulse quando voltar, vocês terão companhia no quarto ocioso.
—Que ótimo, como uma grande família feliz. Eu vou tomar um banho. —Disse ainda nos degraus. Puta-que-pariu! Carol e Augusto permaneceram ali. 
—O que foi que deu nele?  —Ainda escutei alguém perguntar. 





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. (Vista da sacada as sete da manhã)

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