domingo, 25 de janeiro de 2015

59 - NÃO ESTAMOS MAIS EM CASA


Trilha: Sixpence None the Richer - dancing queen









                                                                                                           Havíamos decidido que precisávamos nos afastar de tudo aquilo que vinha acontecendo recentemente, e que de alguma forma parecia nos envolver de modo inexplicável. Essa reunião tinha como objetivo principal discutir os acontecimentos na tentativa de chegarmos a uma visão lógica dos fatos. E também porque não tínhamos nada para fazer. Com o recesso do PH estávamos a deriva, pessoas tão ocupadas de repente livres tempo integral, meu irmão, oficina do diabo. O fato é que a história da reunião atravessou fronteiras e chegou até pessoas que aparentemente não tinham nada a ver, Julia Mesquita, por exemplo. Apareceu com seu braço direito envolto por uma armadura de gesso, sustentado por uma alça que enlaçava o pescoço. Os pais de Augusto possuíam uma fazenda há sessenta quilômetros da cidade e pretendíamos passar os dias de recesso por lá, somente nós, longe de repórteres e fotógrafos, longe de novos conflitos. Enfim, uma semana tranquila entre amigos há sessenta quilômetros da cidade. Sem pais, sem adultos, donos do nosso próprio tempo. Seria divertido.
      Pouco tempo antes da hora marcada, Raul, pai de Vinicius, deixou o filho na porta do terminal rodoviário pensando que ele fosse passar uns dias com velhos amigos de infância. E nem preciso dizer que Vinicius pegou um táxi e foi direto para o edifício de Augusto. Júlia levou mais malas que Carol e Sander juntos. Trouxe um conjunto inteiro de malas, formando um total de três, cada uma maior que a outra.
—Julia, na verdade só vamos passar cinco dias fora, em uma fazenda onde ninguém mais vai nos ver. Por que todas essas malas? —Indagou Carol, indignada por chegar à conclusão que o porta-malas era pequeno demais para a bagagem de todos nós.
—Necessidades. Objetos pessoais e roupas intimas nesta pequena, calças e agasalhos na segunda, e roupa-de-cama na maior. Não durmo sem meu travesseiro.
—E como conseguiu trazer tanta coisa com esse braço quebrado?
—O moço do táxi me ajudou. Aliás, a ajuda foi de todos, obrigada.
—Além de termos de aguentar Julia Mosquita, ainda teremos que servi-la durante toda a semana. —Disse Carol bem próxima de mim, de modo que só eu pude entender o que havia dito. Os outros acharam melhor não comentar. —Lembrem-se que precisamos fazer compras, enfrentar as filas do Wallmart vai nos tomar algum tempo.
—Não precisamos ir até o Wallmart, o Pão de açúcar é logo aqui do lado.
—Whatever...
     Vinicius e eu tentamos diversas vezes distribuir a bagagem de todos com a intenção de que tudo ficasse, apesar de alguns riscos, bem compactado na traseira do veiculo, mas foi em vão. Nada que fazíamos era suficiente para que a porta do caralho do bagageiro fechasse. 
—Eu sinto muito, mas essa sua mala enorme, onde está sua roupa de cama, não vai poder viajar com a gente. Tire seu travesseiro e leve no colo. —Ordenou Augusto. E assim foi feito. Subiram para deixar a mala rejeitada com total segurança no apartamento e quando desceram já estávamos dispostos a partir, todos em seus lugares, apertados.
—Isso Aqui está uma lata de sardinha. —Comentou Carol magoada por estar no banco traseiro, enquanto Sander, o maior de nós, viajava na frente. Augusto queria que fosse o Vinicius, Carol também, mas Júlia e eu defendemos a ideia de que Sander era o maior e vencemos. Quem era esperto percebeu que era mais uma das táticas do Augusto, com a tentativa de afastá-lo de quem poderia, intencionalmente, passar os trinta minutos de viagem com uma das mãos sobre a coxa do cara. Coxas que ele sonhava em ter. A minha cabeça, às vezes ficava pensando: se os Augusto e Vinicius se atracassem, será quem iria comer quem?
      Olhando os dois, ambos pareciam cães famintos observando carne fresca. Só a idiota da Júlia não era viva o bastante para notar essa atração, estou falando sério, os caras se encaravam feio.  E a idiota da Júlia não pensava em se afastar, meu, se o cara prefere uma vara que uma xota, fazer o quê? Júlia era uma verdadeira idiota. Não que eu me importasse com essa porra que era a relação dos três, mas de tanto ouvir Augusto falando de Vinicius, eu acabava torcendo para que ficassem de vez, para que assumissem pelo menos para eles mesmos que se gostavam. Júlia era apenas um acaso, pelo menos sob o meu ponto de vista.
      As rodovias de Goiás são belas, a tarde era imensamente clara e a plana pastagem que nos seguia era de um verde quebradiço. O sol lentamente se recuperava, o céu já era varrido de nuvens, e o ar se tornava mais quente a cada manhã, mais seco. Não estava confortável, exatamente como não gostava de estar, chinelos, shorte, camiseta... Mas o vento passando entre os cabelos, a estrada ainda em seu inicio de percurso, tudo isso me proporcionava uma sensação prazerosa e falsa, como se estivesse deixando tudo para trás, jogando tudo fora, sensação de liberdade, de estar fugindo de tudo que me prende… Mas acho que nem mesmo as pessoas são capazes de me prender. Eu não tenho nem vinte anos e já aprendi que se você não toma a decisão de deixar os outros, a própria vida se encarrega de afastá-los ou tirá-los de você. A vida esfrega essa merda o tempo todo na cara da gente. Foi aí que notei o quanto me faria bem sair de Goiânia por um tempo, talvez não para sempre, mas por um bom tempo. Para onde e como iria ainda não era claro, mas sabia que era o que precisava fazer. Talvez conseguisse uma das tão sonhadas bolsas integrais em alguma Universidade do Sul. Para isso precisava competir e ganhar o torneio anual de natação, com isso minhas chances aumentariam significativamente. Teria que ser uma Universidade particular, porque junto com a bolsa viria alojamento, não precisaria pagar um lugar para dormir. De repente Carol iniciou uma conversa:
—Alguém conhecia um dos alunos mortos?
—Eu estava sentado ao lado de Getulio. —Vinicius parecia meio abalado ao falar sobre o assunto. —Nós nunca havíamos nos falado antes, mas naquele dia a gente trocou uma palavra antes de tudo acontecer… depois de tudo só me lembro de ter acordado, com o ônibus já capotado, e vê-lo sangrando ao meu lado...
—Não precisa voltar a se lembrar disso. —Disse Augusto pondo a mão direita no joelho do cara, como um gesto de apoio. —Melhor trocarmos de assunto, Carol. Aliás, estamos aqui justamente para esquecer tudo isso.
—Eu conhecia o Getulio. —Pronunciou Julia secamente. —Era uma pessoa incrível. Sua namorada, que não estuda no Campus, está grávida de quatro meses e ele estava super feliz com a idéia de ser pai. Não estavam pensando em se casar ou morarem juntos, mas desde o inicio apoiara sua namorada e a encorajara a ter o bebê.
     Todos ficaram momentaneamente modificados.
—Ai! Que história triste, Julia! —Soltou Sander.
—Mais triste é pensar que isso pode voltar acontecer e da próxima vez pode ser qualquer um de nós. Ele estava ao lado do Vinicius.
—Isso quer dizer que a hora do Vinicius ainda não chegou. —Apelou Carol.
—Eu não acredito que a hora do Getulio tinha chegado. Não acredito que tudo isso esteja acontecendo porque simplesmente chegou nossa hora. Alguém aqui acredita nisso?
—Eu não estou dizendo que…
—Não era você quem estava lá dentro daquele ônibus, presa enquanto tinha cacos de vidro até dentro de suas roupas, gente desacordada sangrando, as pessoas em pânico… eu estava em um banco da frente e pude ver o seu Costa praticamente sem cabeça caído quase ao meu lado… na verdade ninguém aqui sabe o que nós passamos a caminho do Campus aquele dia.
     Sander sabia que havia sido uma jogada de seu próprio destino não estar em cena aquela manhâ violenta em que colegas acabaram mortos. Ele dizia isso, ele se sentia um cara de extrema sorte. O fato é que naquele momento até mesmo Sander engoliu da sua própria saliva e assim como os outros, permaneceu calado até chegarmos à estrada de chão que dava acesso a fazenda dos pais de Augusto.
—Estrada de chão?
—É sim. —Disse o motorista impaciente. —Mas não se preocupem, não tem problema algum.
    E assim que adentramos uma nuvem de terra vermelha subiu cercando todos nós, deixando um jato quase impenetrável de poeira por onde passamos.
—Nenhum problema… nunca comi tanta terra na minha vida. —Carol estava tão revoltada, um pouco mais do que rotineiramente mostrava-se ser.
—Não exagere! —Amenizou Júlia.
—Ninguém pediu sua opinião.
—Meninas… vamos ser amigos. —Ironizou Sander.
      
     
A fazenda era um pouco antiga e tradicional, uma típica fazenda no interior do Estado de Goiás. Nunca estive em outros Estados para saber como é o interior do Espírito Santo, por exemplo, mas a fazenda de Augusto, além de estrada de chão ainda havia porteiras, três ao todo, todas elas abertas e fechadas por Sander. Havia muito gado nos pastos, mas eram de fazendeiros vizinhos. Antes de passarmos pela última das porteiras, avistamos um peão a cavalo, este estava caracterizado, com botas, calças velhas e sujas, uma camiseta abatida e chapéu.
—Jóia! —Gritou ao passar por nós. Não posso mentir, ficamos um pouco assustados com as boas vindas. 
—Eu acho esse estilo cowboy tão jeca!
—Eu não acho. —Retrucou Vinicius. —Eu gosto, faz parte da nossa cultura.
—Da sua cultura, você quer dizer? —Carol e Vinicius pareciam opostos em quase tudo. E ela não perdia uma chance. —Foi você que veio do interior como um bichinho acuado.
—Tudo bem, Carol. Não precisamos mais nos falar nos próximos dias.
—Se é isso mesmo que você quer. Quem sou eu pra te pedir que faça o contrário?
—Vocês querem parar com isso. —Com certeza estava tudo saindo diferente do que Augusto tinha imaginado em sua cabeça. E ele adorava fazer esse tipo de coisa, era meio neurótico na minha opinião, ficava idealizando. Sentindo primeiro, planejando tudo mentalmente achando que aquilo pudesse ser um ensaio do que de fato seria real. Justamente por isso, se estivesse contando essa merda de história, certamente diria que todo aquele trajeto tinha sido um “troço” imbecil. —Parem com esse troço de ficarem batendo boca, nem chegamos ainda. Poxa! 
      E então realmente as palavras de Augusto fizeram sentido, caímos na real, mal havíamos chegado e já estávamos praticamente pedindo para voltar. Aquele minuto em silêncio fora interrompido brevemente pelo canto de um pássaro que passou voando baixo e próximo, subindo, ultrapassando a fachada da casa e desaparecendo a seguir. E nossos olhares momentaneamente foram com ele, com o pássaro que nos viu chegar.



Copyright 2010





(Na estrada, a caminho da fazenda)














(Fazenda)


Nenhum comentário: