Me lembro de um dia em que subi para levar-lhe comida, um pouco de água e o encontrei num momento de desolada depressão, o que tornava-o momentaneamente calmo, mas triste, largado no chão sobre o tapete sujo de cinzas. Não usava camisa, as costelas apareciam sob a pele branca e viscosa. Tentei encará-lo, ainda não era hora de conversa.
—Me deixa sair daqui, Renato... Você não pode fazer isso comigo. — Tentou se levantar, apoiou-se na cama, mas não conseguiu. Estava se alimentando muito mal, algumas vezes nem tocava na comida, noutras tinha a impressão de que ele havia jogado tudo dentro do vaso. Na cozinha e na dispensa não havia praticamente nada. Na geladeira, quase tudo estava perdido e fora da data de validade, o mal cheiro vinha de uma pizza velha, endurecida e mofada. Vinicius estava deixando dinheiro para comida, mas não era suficiente. E Augusto parecia precisar de medicação, por um período de tempo pensei em abandonar tudo e fugir. logo tal ideia passava e eu me focava outra vez, na recuperação do meu amigo.
—Cala boca, Augusto. Vê se come alguma coisa.
—O Vinicius? Me deixa falar com ele. —Levantou.
—O Vinicius não está. —Menti. —Até logo. —Sai rapidamente e passei a chave. Antes mesmo de chegar no topo da escada pude ouvir ele atirando a jarra de suco em algum lugar lá dentro. Depois disso houve mais barulho, objetos sendo jogados sucessivamente contra as paredes, chutes que aplicava contra os móveis, todos aqueles cd’s indo parar no chão, de uma só vez.
—O que é isso? —Vinicius estava em estado de alerta. —Precisamos subir até lá, Renato!
—Deixa ele, Vinicius... Eu vou olhar o armário e vê se encontro qualquer remédio para ansiedade ou qualquer coisa do tipo. Precisamos sedar ele de alguma forma.
Vinicius olhava a caixa de drogas que tomamos de Augusto, estava ali, a ferida exposta, sangrando e doendo aos nossos olhos.
—O que vamos fazer com isso? —Quis saber.
—Jogue tudo fora no vaso sanitário. Menos a maconha.
—Por quê?
—Ele vai precisar dela nos próximos dias.
No armário do quarto dos pais dele encontrei uma caixa de Zetron pela metade, e um Rivotril em gotas. Aquilo iria resolver, pensava numa forma de como fazê-lo tomar o medicamento quando escutei um estrondo assustador vindo do quarto, barulho de vidro explodindo. Deixei o closet do casal, onde estava, aos passos largos e topei de cara com Vinicius ali no corredor, na porta do quarto.
—A sacada! —Foi o que eu tinha pensado. —Eu disse que isso não era seguro.
—O que quer que eu faça?— Grilei. Abrimos a porta e presenciamos toda a destruição, o quarto estava totalmente revirado e parcialmente destruído. Puta merda, aquela porta de vidros que se abria para uma varanda estava toda destruída, transmitindo a sensação estilhaçada de nossas almas. Augusto estava do lado de fora.
—Vinicius arruma outro quarto... Ele não pode mais ficar aqui. Lembre de tirar tudo que possa oferecer risco... Objetos cortantes, quebráveis... tire até os lençóis.
Saltei cuidadosamente todas aquelas coisas lançadas ao chão, encartes, livros, fragmentos de porcelana e outros não identificáveis. Muito vidro.
—Vai ficar tudo bem! —Disse quando ficamos de frente.
—Vai nada... Olha só para isso! Me expulsaram daquele colégio e eu não tenho ninguém...! Eu estou feio... Eu estou passando mal, Renato! Eu estou sozinho. —Me aproximei um pouco, ele chorava, com olheiras enormes, o nariz escorria.
—Você não está sozinho...
—Eu não sei o que fazer... Não sei...
—Augusto, não dá para pensar em tudo agora, cara... Primeiro você vai ter que sair dessa, e depois vai ter que conseguir ser forte para resolver todas essas outras coisas. O que você acha? A gente está aqui para te ajudar sair dessa, cara. O que acha de tomar um banho e fazer essa barba? Acha que consegue? —Ele estava muito deprimido, pensei em lhe passar aqueles remédios o quanto antes. Aquilo iria o ajudar de alguma forma.
—Eu não sei. —Respondeu desanimado. —Eu vou tentar.
—Vamos... É melhor sairmos desse quarto, depois arrumamos toda essa bagunça.
Vinicius veio dizer que estava tudo certo, surpreendeu-se ao ver Augusto tão calmo e oprimido. Já Augusto pareceu-me extremamente envergonhado por deixá-lo ser visto em tais circunstancias. Preferiu nada dizer. Ele assumiu uma atitude tão passiva que inconscientemente abaixamos a guarda, antes mesmo de entrarmos no quarto ao lado o filho-da-puta me deu uma cotovelada no queixo e empurrou Vinicius com as duas mãos lançando-o contra uma das paredes. O golpe foi tão sorrateiro e agressivo que nos deixou momentaneamente meio atordoados. Desceu em disparada rumo à sala no piso inferior, as portas estavam trancadas e sem chaves na fechadura. Houve uma pequena perseguição dentro do apartamento de jeito que o pegamos no quarto de empregada. Tentando nos tirar do controle enfiou-se dentro do quarto e pensou em se trancar, mas Vinicius conseguiu colocar o pé no portal impedindo que a mesma se fechasse. Gritou de dor quando a porta espremeu seu pé, quase quebrando-lhe os dedos, que por sorte estavam protegidos por uma bota de couro. Foi preciso que nós dois o segurasse e jogasse-o onde já devia estar há algum tempo. Novamente nos xingou, se debateu, chorou e gritou. Já exaustos nós ficamos ali, impassíveis. Durante aquela primeira semana vivemos um pequeno inferno particular dentro desse inferno coletivo que resultou em toda essa história. Antes de Vinicius se despedir, aproveitamos o silêncio que se apoderara do segundo andar e subimos para fazê-lo tomar o remédio. Estava sentado no escuro abraçando os joelhos.
—Trouxemos um lanche.
—Eu não estou com fome. Vão embora daqui. Vão embora da minha casa.
—Você precisa comer. —Tentou Vinicius.
—Vai pro inferno!
—Ele tem razão... Acho que você não comeu nada o dia todo.
—Eu quero um cigarro!
—Então vamos fazer uma troca... Tome o suco pelo menos e depois se enfia debaixo do chuveiro, se fizer isso eu te arrumo uma carteira de cigarros.
—Beleza. —Levantou-se e pegou o copo de suco.
—Tem mais uma coisa. —Disse eu.
—O que é?
Mostrei-lhe um comprimido de Zetron, havia gotas de Rivotril no suco que tomava.
—Você precisa tomar esse comprimido. Não é nada demais... Vai te ajudar ficar de boa sem precisar daquela porra do seu cachimbo imundo.
Quando Vinicius partiu, Augusto estava no banho. Enquanto permanecia trancado no banheiro eu desci até a sala para pegar meus cigarros na mochila e enrolar um baseado. Eu precisava relaxar e acreditava que também faria bem ao outro, talvez lhe abrisse o apetite ou diminuísse os efeitos colaterais pela abstinência das pedras que vinha usando.
Quando o vi estava bem melhor, já estava alguns dias sem tragar a fumaça letal do crack em combustão. Entreguei-lhe meus cigarros, retirou um da carteira e percebi que estava tremendo muito, mas ainda assim, contido. Os efeitos maléficos da nicotina lhe tranqüilizaria os pulmões.
—Trouxe um para gente fumar! Vai te ajudar a ficar melhor. —Ele sorriu. Liguei o rádio e abri a janela, o vento explodiu em nossa cara, o locutor chamou aquela velha canção do U2, “With or without you”. Peguei o isqueiro das mãos dele e acendi o beck puxando algumas vezes para que a brasa se fizesse, depois traguei fundo, segurei a fumaça e tampei o nariz com uma das mãos. Passei. Depois de muito tempo prendendo a respiração soltei o que o corpo não conseguiu absorver.
—Eu vou embora daqui em algumas semanas... —Ele me olhou espantado, atônito eu diria.
—Que hora mais legal você escolheu para me dizer isso. —Eu sorri triste.
—Achei que fosse te ver alegre.
—Quem é que fica alegre perdendo coisas importantes pelo caminho?
—Quem foi que disse que viver seria fácil? Mas a gente tem que aprender, Augusto...
E tudo ficou tão melancólico, a visão da cidade ao ritmo daquela musica triste, as palavras que eram proferidas sentimentalmente, aquele ano que chegava ao fim sufocando todos nós, marcando todos nossos dias futuros.
—Conseguiu falar com seu irmão?
—Ainda não.
—Ele deve ligar em breve...
—Eu não tenho outra opção, cara. Minha única saída é ir para o Colorado... Não sei se para sempre, talvez sejam só alguns anos... Eu não sei, mas agora eu sinto que é o que eu preciso fazer.
Ele me olhou como se entendesse.
—Eu vou sentir sua falta. —Foi bom escutar... Eu sabia que também sentiria falta de tudo que deixaria para trás... Toda minha vida.
—Eu também Augusto... Vou sentir falta das ruas dessa cidade, tirando você e Carol, é a única coisa que eu tenho aqui.
Eu gostaria de saber quem faz as regras, o que faz de nós o que somos, quem seleciona os que vão e os que ficam e se todos esses obstáculos que encontramos pelo caminho são colocados em nossa frente propositalmente ou se apenas os encontramos pelo fato de estarmos justamente naquela estrada. Será uma opção? Então caso não seja o que faz de nós culpados pelo o que fazemos, ou merecedores do que passamos? Convivendo todos esses anos com os alunos do Campus e vivendo a vida que vivia, pude de fato ver a diferença que existe entre as pessoas, como alguns possuem coisas das quais nem necessitam e noutra esfera um infinito de gente que se espreme, habita pequenos cubículos e conseguem apenas o básico para sobreviver. De fato nunca precisei de muito, talvez porque nunca tenha tido o bastante, porque perdi minha mãe ainda jovem, porque aprendi a conviver com o vazio da geladeira e os eventuais cortes de energia, aprendi olhar em volta e ver nada mais do que paredes, e isso fez de mim um cara forte. Se Augusto e eu nos parecíamos? Muitas vezes cheguei a pensar que sim, mas habitávamos mundos completamente diferentes. Ainda assim o Augusto seria para mim uma daquelas pessoas que o tempo não apaga, que você jamais esquece. Uma daquelas pessoas que você encontrou ao pegar um pequeno desvio, e que por vontade própria decidiu te acompanhar, ou porque estava perdido, ou porque você decidiu pegar o atalho, ou porque em algum momento da história você iria encontrar, independente de que caminho seguisse. E eu prefiro pensar assim, acreditar que tudo tem um motivo e que nada é por acaso. Isso faz com que pessoas como eu, acredite que coisas boas ainda estão por vir.
Depois de um cigarro deixei-o ali, estava bem cansado e talvez fosse bom que dormisse algumas horas, quando acordasse era provável que voltasse a sentir tudo outra vez, seria mais um dia difícil. Segui pelo corredor escuro e silencioso, fui até o escritório do doutor Marcos e liguei o CPU, desci com a ideia de pegar minha escova de dente, escovei-os na suíte chique dos pais de Augusto, talvez fosse só impressão, mas nos espelhos daquele banheiro você se via mais bonito. Fiquei na duvida se não seria a qualidade do espelho que proporcionava uma visão mais real do que somos na verdade, ou se aquilo seria apenas um efeito não compatível produzido pelo dono da casa de espelhos. Aquelas coisas bizarras que encontramos em parques de diversão.
Depois de um cigarro deixei-o ali, estava bem cansado e talvez fosse bom que dormisse algumas horas, quando acordasse era provável que voltasse a sentir tudo outra vez, seria mais um dia difícil. Segui pelo corredor escuro e silencioso, fui até o escritório do doutor Marcos e liguei o CPU, desci com a ideia de pegar minha escova de dente, escovei-os na suíte chique dos pais de Augusto, talvez fosse só impressão, mas nos espelhos daquele banheiro você se via mais bonito. Fiquei na duvida se não seria a qualidade do espelho que proporcionava uma visão mais real do que somos na verdade, ou se aquilo seria apenas um efeito não compatível produzido pelo dono da casa de espelhos. Aquelas coisas bizarras que encontramos em parques de diversão.
Voltando ao escritório a área de trabalho do Windows já me aguardava. Digitei email e senha, quando a lista de contatos abriu Fernando estava on-line, Mariana e Pablo também, bloqueio ambos. Logo Fernando me puxa para teclar e diz que tentou muito falar comigo. Então rapidamente expliquei tudo o que aconteceu nas últimas semanas, ele disse que queria muito que eu fosse vê-lo, eu calculava lhe falar o mesmo. Eu não tinha grana, ele disse que eu precisava entrar em contato com um cara que ele conhecia, o mesmo com quem fez negócio quando partiu. Esse cara, Jairo era o nome dele, me colocaria dentro dos Estados Unidos. Quanto a dinheiro, depositaria na próxima semana uma parcela para que eu iniciasse o processo, oferecendo a entrada e fazendo negociações. Não tinha erro, disse ele, me alertou sobre pequenos detalhes e finalizou pedindo que confiasse, pois não faria errado desta vez. Foi estranho ver meu irmão aquela noite pele web, já fazia um tempo... Ele disse que eu estava diferente, crescido, abatido também... É, eu me encontrava assim.
Quando meu irmão saiu, fiquei ali ainda tentando encarar as grandes mudanças que me aguardavam. Sem querer nada abri a gaveta superior da mesa de doutor Marcos, havia tantos papéis lá dentro... Peguei o que estava no topo, uma apólice de seguro do carro. Olhei mais um, e outro... Tirei a pilha e coloquei-a sobre a mesa, o monitor ainda ligado diante mim, no fundo da gaveta teve algo que me chamou a atenção. Uma chave presa por um retalho de papel contact. Puxei o plástico adesivo e segurei a chave em minhas mãos, era bem pequena, prateada... Olhei as outras gavetas e nenhuma delas possuía fechadura. Quando abri-as percebi que, ao contrário da primeira, estavam praticamente vazias. De onde seria aquela chave? Olhei tudo ao redor, não havia nada ali. Atravessei o corredor e adentrei o quarto do senhor Almeida, depois me perdi dentro do closet. Escancarei as portas, poucas gavetas, algumas caixas de sapatos no piso do armário, agachei-me e pus a abri-las delicadamente uma após outra... Já pensava em abandoná-las quando, surpresa, em segurar uma delas o barulho e o peso não era de calçados. Lá dentro uma caixa de madeira segura por um pequeno cadeado. Testei a chave que tinha em mãos, deu certo, sentei-me para ver o que tinha descoberto. Fotografias. Fotografias bem antigas. Na primeira se via uma moça, que deduzi ser Paula, mãe de Augusto, pela comparação que fiz com outras imagens dela espelhadas pela casa. Ela carregava um bebê nos braços acompanhada por um rapaz que não era doutor Marcos, estavam caminhando em uma rua bem movimentada. As seguintes traziam as mesmas pessoas, Paula, o bebê e esse homem que não me era estranho, mas que também não me dizia nada. Quatro das fotos traziam apenas o casal sem a criança, em outros dias, pois trajavam cores diferentes. Verifiquei o verso das imagens, em uma delas havia letras azuis, um endereço: “Rua Riachuelo, 1430, Setor Samuel Graham, Jataí.” Muito estranho. Retirei do maço aquela com a anotação e devolvendo as outras, tranquei novamente a caixa e deixei tudo em seu lugar.
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(Uma caixa pode guardar muitos segredos)
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