Acordei com Augusto socando a porta e
gritando meu nome, já deviam ser umas nove da manhã, mas não havia claridade do
outro lado das cortinas, o quarto estava abafado e quente, levantei e abri a
porra daquelas janelas para que o ar entrasse. Meu comparsa, Vinicius, ainda
não havia chegado e o sábado prometia ser longo. Ainda dentro da zonzeira que
sempre me acompanhou ao acordar fui até ele ver o que estava acontecendo.
—Abre essa
porta, Renato! Você não tem o direito de me trancar aqui dentro.
—Nós já
conversamos sobre isso...
—Abre logo
esse troço seu filho-da-puta, seu desgraçado!
Eu simplesmente ignorei-o e desci pensando
em preparar um café preto. O telefone tocou.
—Sou
eu. —Disse o comparsa.
—Eu estou
te esperando aqui... Descobri uma coisa que você vai achar intrigante. —Estava
me referindo as fotos encontradas horas atrás. No inicio da madrugada.
—Acho
que não vai ter como chegar aí antes do almoço. Minha mãe não está passando bem,
na verdade minha mãe está surtando e não quer que eu saia. Mas ontem, Renato,
aconteceu algo muito estranho.
—O que
aconteceu?
—Quando
cheguei em casa, havia um envelope endereçado à mim, idêntico àquele que
Augusto recebeu no dia das bruxas, igual àquele que encontramos na fazenda com
as fotos do Caio... Havia três fotografias lá dentro. Uma de meu pai em frente
uma casa que eu não conhecia, ele aparecia fechando um portão e usava luvas,
parecia apreensivo. A segunda trazia meu pai caminhando em direção ao carro
estacionado mais adiante, e a terceira mostrava aquele mesmo portão que antes
ele havia fechado, mas ao lado havia uma placa com endereço, o zoom da maquina
deixou as letras bem visíveis. Quem deixou isso aqui queria que eu fosse até
esse local.
—E o
que você vai fazer?
—Você
não está entendendo... Eu já fiz. Ontem mesmo peguei um taxi e pedi para que o
motorista me deixasse naquele lugar. um sobrado na região do Eldorado. Quando
desci havia luzes acesas no interior da residência. Toquei a capainha, uma
mulher na casa dos trinta veio atender a porta. Usava óculos e tinha o cabelo
bem curto, como o de um rapaz.
—Pois
não? —Disse parada ao portão.
—Olha...
Eu sei que vai parecer loucura, um estranho na sua porta uma hora dessa, mas
essa tarde recebi em minha casa essa foto, com seu muro e esse endereço... Eu
não sei como posso explicar, mas você pode imaginar porque me enviariam algo
assim?
A mulher apresentava uma palidez cerosa. Pensou
por alguns segundos, demonstrou nervosismo.
—Entre.
—Falou finalmente. — Tem algo que precisa ver.
Ao entrarmos,
ela se sentou num sofá de cor escura, se apresentou fazendo com que eu também
fizesse o mesmo, em seguida inseriu o assunto. Disse que o pai havia sido
assassinado meses atrás e que estavam culpando um homem que ela acreditava ser
inocente. Foi na tarde de ontem, com o bloco de imagens que recebeu, que veio a
confirmação, ela estava certa. Nas imagens, que ela já havia entregado à
policia, um homem que não era o doutor Marcos, era visto torturando seu pai. Ela
havia guardado uma, me passou ingenuamente. A imagem não era nítida, parecia haver
um vidro entre a máquina que registrou aquilo e os participantes daquele
acontecimento lamentável. A foto que estava em minhas mãos mostrava ele com uma
das mãos segurando o pescoço da vitima...”
—Ele
quem? —Perguntei. Então Vinicius guardou o ar no peito por um curto tempo e
desabafou.
—Meu
pai... —Puta-que-pariu! Fiquei em alerta. —E o homem de quem estou falando era
Ismael, o médico, o pai do Augusto não é o culpado desses crimes. —Eu estava
cercado de pessoas vivendo o complexo de Édipo. Descobrindo verdades e rebelando-se
contra seus próprios criadores. Confesso ter ficado em transe, ainda não eram
nem nove da manhã.
—Seu
pai matou essas pessoas? Caralho! O que é que você está pensando em fazer?
—Pensando
em ligar para policia e dizer quem é o homem que eles procuram. O pior de tudo
é que não consigo entender por que meu pai faria algo assim, aliás, eu não consigo
explicar como ele foi capaz...
—Talvez
eu consiga. Eu preciso ver essa foto... Acha que pode me enviar uma foto do seu
pai por email?
—Você
pode entrar no site da MartinsBianco, lá você vai encontrar algumas fotos dele.
Vá em advogados e clique em Raul Martins Bianco. —Houve uma interferência, como
uma voz gritando do outro lado, não deu para entender o que era. —Eu preciso
desligar, nos falamos depois.
—Me
desculpa, mas porque seu pai faria algo assim e depois se mataria?
—Eu não
sei, cara... Preciso desligar.
—Eu te
ligo quando souber de algo. —Desliguei.
Subi outra vez as escadas, correndo,
Augusto ainda espancava a porta e chorava em um daqueles quartos. Entrei no
escritório para acessar a internet, liguei o computador e naquele espaço de
espera disquei os oito dígitos do residencial de Carol.
—Alô?
—O que
você está fazendo agora, Carol?
—Absolutamente
nada... O que acha de locarmos um filme? —Meio que achei engraçado, parar para
assistir um filme com tantas coisas em mente.
—Acho
que não vai dar não, aliás, preciso de você aqui na casa do Augusto. Pode
subir?
—Está
rolando alguma coisa?
—Muita
coisa, mas o principal é que acho que descobri o que está acontecendo... Você
não vai acreditar.
—Acontecendo
com quem?
—Com nós,
Carol... Toda essa história maluca sobre as ligações para o doutor Marcos,
essas mortes, o tiro na sua vidraça, as perseguições na estrada de acesso... Acho
que estou perto de matar a charada.
—Está
falando sério?
*
Ao entrar no site de advocacia
MartinsBianco fiquei surpreso em constatar que o pai de Vinicius era o mesmo
homem que aparecia com a mãe do Augusto naquelas fotos, em todas elas. Outra
vez peguei as chaves, fui até o closet, retirei a caixa e observei todas aquelas
imagens, nenhuma parecia ter sido tirada com o consentimento do casal. Algumas,
inclusive, foram tiradas a distância e nunca de frente. As mais antigas datavam
de mil novecentos e oitenta e seis, a mais recente, aquela que possuía o
endereço no verso, fora registrada em noventa e nove. Peguei o telefone.
—Descobriu
alguma coisa? —Vinicius estava tão apreensivo quanto eu.
—Você
morava em Jataí, não é isso?
—Sim.
—O que
pode me dizer sobre o seguinte endereço: Rua Riachuelo, 1430, Setor Samuel
Graham?
—É meu
antigo endereço... Como você descobriu...?
—Eu
encontrei umas fotografias na casa do Augusto e em uma delas havia esse
endereço escrito no verso... As fotos que encontrei mostra seu pai e a mãe do
Augusto juntos, em mil novecentos e oitenta e seis, em mil novecentos e
noventa e dois, em mil novecentos e noventa e nove. Aquela história
sobre o amante da dona Paula era verdadeira...
—Você
está me dizendo que meu pai teve um caso com a mãe do Augusto durante todo esse
tempo e que meu pai matou esse homem e aquela mulher para se vingar de doutor
Marcos?
—Eu não
sei, mas tudo parece se encaixar, Vinicius... A teoria do amante era
verdadeira, talvez seu pai acreditasse que o doutor Marcos tivesse alguma culpa
na morte da Paula. Pelo que sei o casamento chegaria ao fim de vez bem naquela
tarde em que ela sofreu o acidente.
—Meu
Deus do céu...
—Você
precisa ficar calmo, cara... Talvez sua mãe possa dizer alguma coisa que possa
ajudar, certamente ela deve saber ou desconfiava de algo. O caso entre os dois
parece ter durado mais de uma década.
—Minha
mãe está surtando, Renato... Posso nem comentar algo assim aqui, agora.
—Fala
com seu tio, o pai da Sarah... Ele deve saber de algo.
*
—Mas
por qual motivo o pai do Vinicius praticaria um atentado contra o ônibus em que
estava o próprio filho? —Indagou Carol. E ela tinha razão, ainda não havia
pensando nisso.
—Mas
não acha lógico? Raul acreditava ser o pai do Augusto, é quase certo que ele e
Paula vinham se encontrando até poucos dias antes da morte dela. Lembra do que
Augusto nos dizia? De como era um inferno a relação dos pais? Pode ser que Raul
realmente culpe o doutor Marcos pela morte da amante.
—Mas eu
não entendo... Até aí, tudo certo, as fotos que temos e a que Vinicius disse
que viu comprovam isso... Mas algumas coisas não se explicam, como por exemplo: Quem enviou as fotos do Raul para Vinicius e para a filha de Ismael? —Carol era
uma verdadeira raposa, farejava. —Quem está nos enviando essas fotos é a mesma
pessoa que atirou contra os ônibus na estrada de acesso, e a mesma que incêndiou
a casa de campo, e atirou contra Ricardo. Não foi o pai de Vinicius que
praticou essas ações. Você entende? E nessa época, o doutor Marcos já estava
preso.
—Mas
será que essa pessoa é a mesma que nos viu com Caio aquela tarde e tirou ele do
rio? Quem foi que o prendeu aquele tempo todo?
—Não
sei.
—E
sobre aquele carro que quase nos matou na estrada de acesso? Não estou
entendendo mais nada, Carol...
Augusto começou a chutar a porta do quarto
e socá-la ao mesmo tempo, produzindo um som grosseiro que incomodava.
—Você
já falou com ele sobre tudo isso?
—Ainda
não, não é uma boa hora. Ele nem quis tomar os remédios, isso pelo menos o
deixaria mais calmo.
—Onde
estão? Vou subir até lá e fazê-lo beber antes que ele se machuque com alguma
coisa.
—Nem
queira ver o quarto dele como está... Venha. —Chamei-a até a cozinha. —Aproveita
e leva um sanduíche, e faça-o comer também.
Preparei um pão com queijo e chester, enchi
um copo com suco de uva industrializado e preparei a dose de calmante. Nesse meio tempo Sander
ligou no celular de Carol, era pra dizer que estava com saudade. Provavelmente aguardaria processo em liberdade, depois de permanecer detido por alguns dias, estava novamente em casa bebendo seu absinto e assistindo a TV a cabo, confortavelmente, durante todo o dia. Eu fiz sinal
para que ela desligasse e subisse com a bandeja, mas Sander queria saber
detalhes do que estava acontecendo.
—Fale
com o Renato, eu preciso cuidar do Augusto. —Disse ela, e então me entregou o
celular. Pegou o lanche.
—Converse
com ele antes de entrar, ele pode querer fugir. Ah, e leve cigarros. —Falei.
Contei tudo à Sander de modo que aquilo
pudesse fazer algum sentido, ainda havia uma brecha em tudo, mas só a certeza
de que Raul era o assassino mutilador de cadáveres já era de dar arrepio.
—Se
existem fotos do pai do Vinicius na noite em que ele matou aquele médico, quer
dizer que a pessoa que está enviando essas fotos e incendiou a casa da fazenda,
assim como atacou os ônibus e atirou em Ricardo, está querendo provas contra
esse Raul e é possível que esteja querendo atingi-lo através dos filhos.
Vinicius estava no ônibus, ambos estavam presos naquele lugar quando atearam
fogo. É alguém que está seguindo o Raul antes mesmo desse tal de Ismael ter
sido assassinado.
—Mas
quem faria algo assim?
—Esse
Raul com certeza sabia que alguém estava lhe perseguindo, não houve uma invasão
na casa de Vinicius uma vez? E outra, depois encontraram o cara morto lá
dentro, quem prova que realmente foi suicídio?
—Vinicius
uma vez comentou que estava na sacada de casa quando o pai chegou e viu que um
carro vinha logo atrás, quando o pai entrou na garagem, o outro carro ainda
permaneceu na porta por um bom tempo.
—Quer
saber? Eu começaria investigando aquela mulher que foi assassinada primeiro, a
que estava saindo com o pai do Augusto, a tal de Solange. Se existem fotos dele
matando Ismael, mas não existem fotos dele matando Solange, pode ser que isso
queira dizer que quem está o perseguindo começou a agir só depois que essa
mulher foi morta.
—Como
vou fazer isso? Eu não sei nada sobre essa mulher.
—O caso
dela chamou muito a atenção da mídia. Digite no Google, faz uma busca na
internet... Deve aparecer algo. —Já estava no escritório. Digitei “Solange das
neves” e logo apareceu uma lista de itens.
—O que
achou?
—Espera,
estou olhando.
A maioria deles apenas citava a mulher,
enquanto o foco era o acusado doutor Marcos Bueno de Almeida Flecha. Já quase
no final da lista encontro um que dizia o seguinte: “Filhos de empresária
assassinada brigam na justiça por herança.” Entrei na página em busca de mais
informações, a matéria relatava que os filhos de Solange haviam entrado na
justiça, porque a mãe havia deixado metade do que tinha para uma instituição
que cuida de crianças com síndrome de Angelman, crianças que sofrem com rigidez
corporal, dificuldades para andar, ausência de fala, riso excessivo e crises
convulsivas. Por que ela faria isso, eu não tenho a mínima ideia.
—Você
ainda está aí? —Perguntou.
—Estou
sim. —Não parei para ler tudo, mas visualizei toda pagina, ao fim da matéria
mais uma foto revelando o que até então não era pensado. De longe um fotógrafo
registrara a imagem dos dois filhos de Solange, na verdade um casal de jovens
muito simpáticos. A garota eu nunca havia colocado meus olhos sobre ela antes,
porém o cara que estava ao lado, eu já conhecia e estive com ele várias
vezes... Não podia ser... “Não é possível...” — Pronunciei, escapou-me.
—O que
foi?
—Acho
que acabo de descobrir tudo, Sander... Eu preciso desligar.
Carol ainda estava com Augusto, estavam
bem, já que não era possível escutar coisa alguma. Sai e desci as escadas até o
andar debaixo, onde César, aliás, aonde aquele filho-da-puta vinha passando
seus dias. Pensei não encontrá-lo mais, fiquei surpreso em ver a porta
entreaberta ainda do corredor. Abri. Chamei-o. Havia duas malas prontas no chão
da sala e sobre o sofá de couro preto um equipamento fotográfico. Ele estava de
partida. Antes que me pegasse ali, voltei para o andar de cima e liguei em seu
celular. Tocou várias vezes. Por fim ouvi sua voz.
—Por
onde tem andado? Não mora mais no prédio? —Falou com voz de malandro.
—Passei
alguns dias fora. —Menti. —Preciso falar com você sobre algo que é do seu interesse.
—Estou
viajando hoje, Renato. Também vou passar alguns dias fora.
—Antes
de sair fale comigo... Estou a caminho e sei de coisas que você nem imagina,
meu velho!
—Posso
saber sobre o que se trata?
—São do
seu interesse. Eu já disse. Você me espera?
—Trinta
minutos, no máximo.
Liguei para Vinicius que me parecia muito
pior que da ultima vez que falamos. Agora ele estava totalmente insano,
preocupado, nervoso e ainda não havia conseguido contatar o tio.
—Escuta, você pode me passar o numero daquela sua repórter? —Liguei para Juliana Texeira, ela podia ajudar. Em seguida acionei a policia e desci, fiquei a espera da equipe de reportagem. Seria o maior furo jornalistico do ano.
—Escuta, você pode me passar o numero daquela sua repórter? —Liguei para Juliana Texeira, ela podia ajudar. Em seguida acionei a policia e desci, fiquei a espera da equipe de reportagem. Seria o maior furo jornalistico do ano.
*
Ele estava na sala do apartamento que
dizia ser dele quando entrei, simplesmente peguei as imagens que eu tinha,
aquelas que recebemos na fazenda, e joguei sobre o sofá em sua frente.
—Onde
você conseguiu isso? —Primeiro ele as pegou e fingiu não saber do que se
tratava.
—Não
tente me enrolar, César... —Pronunciei seu nome com ironia. —Eu sei que você é
filho da Solange, sei inclusive que está na justiça para tirar o dinheiro de
crianças doentes... Que vergonha! Eu só ainda não entendi o que você está
fazendo aqui, e como você conseguiu se alojar nesse apartamento... Pedro, esse é
seu verdadeiro nome. —Logo aquele seu jeito bacana de ser foi para o espaço e
ele se mostrou como era, um cara rancoroso e cheio de ódio represado.
—Você
quer toda a verdade, Renatinho?
—Eu
estou esperando... Ou você me conta a verdade ou eu ligo para policia. Já tenho
muitas provas contra você...
—Quando
minha mãe foi assassinada algo me dizia que aquele doutor Marcos tinha alguma
coisa a ver com a morte dela, os próprios policiais nos alertaram sobre isso...
E para te dizer a verdade eu nunca fui com a cara daquele médico escroto. Um
dia decidi ir até o hospital onde ele trabalhava, para ter uma conversa séria com
ele, mas assim que cheguei o vi saindo em direção ao seu carro. Eu desci
rapidamente para tentar lhe alcançar, mas foi em vão, ele deu partida e foi
deixando o estacionamento, no mesmo instante um senhor que ocupava outro carro
próximo ali, também deu partida e saiu em lentidão atrás do médico. Voltei
para o meu carro e fui atrás, notei que o senhor que estava no estacionamento
seguia o carro do médico todo percurso, inclusive quando ele parou no
hipermercado e demorou cerca de cinqüenta minutos, o outro homem ainda permaneceu
lá, e eu também não movi um pé, permaneci ali a espreita. Quando o
médico entrou na garagem desse prédio, o carro que o seguia continuou e eu fui
atrás, foi então que descobri onde seu colega, o Vinicius, morava.
Passei algum tempo perseguindo o tal do
doutor Raul, aquele assassino, tentando entender qual era a dele, dias depois
decidi invadir a casa e ver se encontrava algo que confirmava minhas suspeitas,
que o velho estava armando para o médico... Ainda não entendia porque. Foi
nesta noite que encontrei essas fotos que aqui estão, essas fotos daquele garoto gordo no rio. Encontrei também cartas de amor
enviadas por Paula, mãe do Augusto, fotografias antigas de ambos carregando os
dois filhos, que hoje praticamente são gays e amantes. Que mundo nojento!
—Continue.
Augusto não é irmão do Vinicius, já sabemos disso.
—Detalhes
que me escaparam... Então passei mais alguns dias atrás do advogado, foi quando
descobri que ele trancafiava alguém num barracão alugado na zona leste, ali para os lados do Jardim Novo Mundo. Não foi
possível saber quem era porque era impossível entrar no lugar sem arrombar uma
porta, uma vez tentei falar com a pessoa que estava lá dentro e ninguém
respondeu... Mas ele sempre passava por lá após sair de um restaurante no setor
Sul. Ver esse homem matar aquele tal de Ismael, coitado, foi uma das piores coisas... Quando
associei o que ele estava fazendo com a morte de minha mãe, eu fiquei com tanto
ódio, ódio pelas pessoas que morrem todos os dias injustamente... a partir
daquele instante eu falei para mim mesmo que iria fazer esse advogado
desgraçado pagar o que ele tinha feito comigo, mesmo que para isso fosse
necessário tirar dele o que mais amava, o que havia lhe motivado a praticar
esses crimes, seus filhos.
Decidi me mudar para cá para acabar com
Augusto, queria ver o pai dele amargurar os dias que passeou com minha mãe como
se ela fosse uma acompanhante vulgar e sem valor. Depois desisti... Armei tudo
de um jeito que o médico ainda continuasse preso. Ataquei os ônibus na estrada
de acesso porque queria machucar Vinicius, queria que ele estivesse se mandado
desse planeta naquele mesmo dia. Infelizmente nem tudo que planejamos dá certo...
Temos que ter isso em mente... Quando decidiram passar aqueles dias na fazenda,
achei que seria divertido passar um susto em vocês, e por incrível que pareça o
Raul também planejava o final de seu plano, levaria Caio para ser encontrado
preso na casa de campo do médico, com mais essa na ficha, doutor Marcos
passaria um longo tempo na prisão e era exatamente o que ele queria. Tempo o
suficiente para Augusto esquecer que tinha um pai... e teria conseguido se não
fosse por mim.
—Você
atirou em Ricardo?
—Eu
precisei fazer...
—Seu
psicopata, você teria matado todos nós.
—Digamos
que vocês tiveram sorte...
—Você
fez aquilo com Julia? Você estuprou ela e depois a matou?
—Ela
era bem gostosinha, cara de boa moça e cabeça de puta. —Pensei em avançar e
dar-lhe um soco na cara, mas não podia. —E sabe o que é mais triste, que já
estou com todas minhas malas prontas. Vou de carro até Brasília, de lá pego um
vôo para São Paulo e ainda hoje estarei em Buenos Aires. E ai, meu querido, já
era... Acabei com aquele advogado desgraçado, deixo Doutor Marcos preso, e a vida dos dois filhinhos destruída.
—Então
você matou o pai do Vinicius?
—Claro
que não... Na verdade o idiota fez exatamente o que eu queria. Quando percebeu
que havia perdido o controle e que mais cedo ou mais tarde algo de muito ruim
aconteceria com ele, o vagabundo preferiu se antecipar e atirou na própria
cabeça. —Depois de contar-me tudo, colocou um sorriso no rosto como se tivesse
feito um bom trabalho. Estava bem vestido, elegante, diplomático e acima de
suspeitas. —Gostaria de me ajudar a descer com as malas?
—Você
não vai a lugar nenhum, meu brother. —Abri a porta e lhe mostrei o aparelho de
escuta que carregava comigo. Policiais entraram, renderam-lhe, um deles me
agradeceu e César sentiu-se traído, amargurado, escondeu o rosto quando as
câmeras o filmaram, se protegeu da multidão ensandecida na porta do edifício.
Horas mais tarde encontraram o corpo da proprietária do imóvel onde ocupava
esquartejado, membros ensacados e empilhados dentro de um freezer vertical na
cozinha do apartamento.
—Mais
um suspense que chega ao fim... —Dizia Juliana Texeira. —Doutor Marcos Bueno de
Almeida, que estava preso injustamente, ganha liberdade essa tarde. Alguns
detalhes de tudo que aconteceu, assim como o carro usado pelo assassino em suas
perseguições ainda estão sendo investigados. A policia conta com a colaboração de Pedro
César das Neves, que acaba ter confessado os seguintes crimes: O assassinato dos estudantes Julia
Mesquita, Ricardo Bensimon Feitosa, Sarah Martins e também de uma senhora de
sessenta anos, Edna de Campos. —Interrompera as informações para dialogar com o
âncora do telejornal.
—Caso
de difícil resolução, não Juliana?
—Muito,
Fábio. E o céu está armado, já estamos prevendo uma possível tempestade aqui na
cidade, e vem num bom momento, não? Lavar as marcas que estes acontecimentos
apavorantes deixaram na população. Eu volto a qualquer momento com mais
noticias.
*
Com a volta do doutor Marcos para casa,
Augusto teve o amparo profissional do pai que o ajudou a ficar longe de tudo,
inclusive do álcool. Eu estava presente durante todos aqueles dias, que digo a
você, não foram fáceis. Quando seu pai contatou um colega especialista,
decidiram deixá-lo em uma clinica por dez dias, e durante aquele tempo eu
fiquei ali sozinho. O curto tempo me fizeram ver que Marcos agora era um destroço, a
traição da mulher exposta publicamente, seguida de sua trágica morte, os meses
na prisão, a carreira destruída, o filho viciado em drogas.
Quando Augusto voltou para casa estávamos
há dois dias do Natal e pretendíamos passá-lo na casa de Carol. Dona Lena ligou
e fez o convite. Essa noite seria a última juntos, no dia seguinte eu
embarcaria para aquela aventura de atravessar o México, de encontrar meu irmão
em Denver. Eu estava com medo, totalmente inseguro, mas ansiava vê-lo e
abraçá-lo. Era fim de tarde, dia vinte e quatro, dividíamos o espaço da sacada,
debruçados sobre o parapeito de olho em tudo que aquela cidade tinha para
oferecer. De nós três, Carol, Augusto e eu, ele era o único que ainda
permaneceria ali, andando naquelas avenidas para se encontrar com outras pessoas,
refazendo o ano perdido em busca de finalizar o segundo grau, de pegar caminhos
diferentes para outros lugares conhecer, lugares mais seguros onde aquele que
passamos todo o último ano.
—Falou
com o Vinicius? —Perguntou Carol.
—Falei
com ele essa manhã... Vai fazer faculdade aqui mesmo. —Augusto estava bem
diferente, sem expressões. —Agora está no interior com a mãe, na casa de
parentes... Disse que não seria uma boa ficar ligando para ele enquanto
estivesse lá. Disse que seria melhor eu esperar... Na verdade nem sei se ele
quer falar comigo...
—Ontem
falei com Fernanda.. Disse que vai para Porto Alegre no inicio do mês. —Os
ruídos de todos os cantos da cidade foram ouvidos por dois minutos. Uma
orquestra.
—Acha
que um dia vamos estar juntos outra vez? Nós três? —Os planos de Carol haviam
se concretizado. Estava matriculada na Universidade Federal do Estado do Paraná.
Aquela pergunta deixou um silêncio no ar, um
vazio que aperta o estômago e traz a incômoda sensação de que na vida nada é
certo... Não existem regras, nem leis universais, e essa sensação de incerteza contínua
e latejante prossegue, como um lembrete que avisa: O que há de bom ao longo da
estrada sempre se dissipa inelutavelmente, e deixa dentro de cada um de
nós todas as lembranças boas de quando, um dia, apesar de todos atropelos, fomos
felizes.
FIM
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(A cidade)

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