sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

3 - O VENDEDOR DE SOL

Trilha: Bob Dylan - I want you




                         Vinícius estava na porta, calça de moletom azul e uma camiseta cavada cor branca, que contornava os braços fortes e os deixava em total evidência.
—O porteiro interfonou, mas ninguém atendeu, então ele me deixou subir.
—Chegou rápido.— Eu disse.
—O taxista foi quase um piloto. —De repente passou uma das mãos em sua testa, limpando o suor. Está fazendo muito calor!
—É verdade! Isso não deve ser normal. —Percebi que olhava meu tórax, branco, sem pelos, exposto espontaneamente.
—Você vai ficar assim? —Disse. Estava momentaneamente perturbado, suponho.
—O quê? Não... Perdão, eu vou vestir uma camisa, entra.
—Você está escutando Bob Dylan? —Eu falei que sim. —Eu já havia dito como acho você parecido com o Bam-bam, o namoradinho da Pedrita? —Ele comentou. 
     Aquilo soava tão estranho, mas era bom ouvir.
—O Bob Dylan é um dos meus favoritos. —E então subi sorrateiramente, pensando em vestir uma camiseta qualquer. E de fato talvez eu possuísse algo em comum com o filho de Barney. Principalmente se você já pode ver um episódio daquela fase em que eles, os bebês, se encontram adolescentes prematuros.
       Minutos depois quando retornei, percebi que ele olhava os livros na estante enquanto descia os degraus. Livros médicos do ortopédico e cirurgião Dr. Marcos, alguns datavam de um quarto de século. Acumulando pó, escureciam as paginas sem serem percebidos. Poucos eram consultados, já que os mais recentes se aglomeravam no escritório, onde dividiam espaço em várias outras estantes e alguns se empilhavam sobre os móveis. Aquela biblioteca medieval, que agora Vinicius investigava, era a grande herança com a qual meu pai prometia me presentear assim que me tornasse um calouro da universidade. Aquilo me repulsava, porque como se não bastasse a medicina, sei que tenho em mim uma aversão a coisas velhas e sou totalmente intolerante com qualquer material escrito em dadas condições.
—Está com fome? Já são mais de uma. —Eu disse, ele pareceu não ter me visto descendo, e colocara um livro no lugar quando o surpreendi.
—Eu estou morrendo.
—Vamos fazer alguma coisa então, a cozinheira está de folga.
—Vocês são muito elegantes, quem me dera ter uma cozinheira. —Comentou. Era uma pessoa simples, o que lhe emprestava um ar ingênuo com relação a todas as coisas do mundo.
—Coitada da Maria, minha mãe a escravizou quando percebeu o quanto ela cozinhava bem. Ela cuida da casa, sabe? Mas acaba preparando o almoço e o jantar todos os dias. Você prefere pizza ou lasanha? Tem massa semi-pronta aqui.
—Hum… —Pensativo. — lasanha.
—Vamos ter que preparar o molho. E espero que fique bom, porque eu também não sei fazer isso muito bem não, mas eu sempre me viro.
—Você já ouviu falar em comida congelada ou serviço de entrega?
—Meu pai é médico, sempre opta por tudo fresco. Chega até ser cansativo acompanhá-lo ao supermercado. Normalmente quando fazemos compras não nos comportamos como pessoas normais.
—Serviço de entrega?
—Se quiser podemos pedir alguma coisa.
—Não... —lamentou.—Eu só estava brincando.
    Eu estava mentindo, não sobre os cuidados excessivos do meu pai, mas sim sobre o fato de não termos congelados. Ele jamais conseguiria nos impedir de trazer para casa os peitos de frango empanados, a lasanha vegetariana, as almôndegas ao molho, o frango xadrez, e os legumes congelados e previamente embalados. Ah! Também adorávamos as tortas doces, que em caixinhas coloridas sobrepostas no freezer ficavam ainda mais irresistíveis. De verdade, havia dezenas de coisas que poderiam ser preparadas em minutos para matar nossa fome, poderia até mesmo pedir uma pizza ou comida chinesa. Mas o que eu queria mesmo era fugir do prático para ficar horas com o Vinícius conversando e rindo das piadas que ele contava.
    Começamos a fazer a lasanha, pelo menos a massa era instantânea e o molho semi-pronto.  E ao adicionarmos alguns temperos como páprica picante e orégano, o sabor era agradavelmente circunstancial.  Depois, sobrou muita louça suja, eu já estava juntando tudo para por na maquina de lavar quando ele disse que poderíamos fazer isso juntos. Combinamos de que eu ficaria com a esponja e o sabão e ele cuidaria de enxaguar e secar tudo, e no meio de todo esse parentético processo, ele me joga espuma de sabão e começa a rir, com aquele sorriso que deixa a gente até sem graça de tão espontâneo e corrupio que era. Retribuindo a atitude prestativamente, peguei um copo de água e dei-lhe o troco. Seu cabelo escorreu pelo rosto como um piche, o gel se desfez de forma gelatinosa. Soltamos risadas escandalosas que nos deixaram sem graça por questões de segundos, e pegando uma panela que estava em seu alcance, me jogou o resto do molho na cabeça. Depois se lambuzou um pouco com o mesmo e ficamos absortos, completamente desestimulados a continuar limpando tudo. Até então, eu ainda não sabia o verdadeiro significado de felicidade.           
    Essa felicidade é tão imprevisível, parece não ter hora para chegar e não avisa quando se vai. É como uma visita, que às vezes vem, toma um café e depois desaparece sem se despedir, nos deixando uma saudade imensa, capaz de te fazer correr para ver se a encontra em qualquer lugar; em um bar, na casa de alguém, no colégio, no shopping, na boate ou nas ruas da cidade, entre estranhos e desconhecidos. Mas às vezes é como se ela tivesse viajado, feito as malas, pego o passaporte e partido. Você procura até perceber que um dia ela voltará, chegará de repente, lhe fará uma pequena surpresa. Até lá, você tem apenas a saudade de outros momentos, e a sensação de nostalgia que toma conta da gente em tardes frias de sol.

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(Bagunça na cozinha)



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