Joguei-me na cama dos meus pais a espera de que o ruído no banheiro do corredor cessasse, minutos antes havia separado uma camisa e uma bermuda que entreguei à Vinicius para que se trocasse após o banho. Poderia também estar fazendo o mesmo no banheiro do quarto, mas preferi esperá-lo com a intenção de não promover mais desordem dentro de casa. E hoje acredito, que para estar mais próximo, imaginando coisas com minha mente suja. Durante algum tempo pesquisando pornografia na internet, você chega a um nível em que nada mais lhe choca ou provoca indignação, é possível ver de tudo... Mulheres casadas transando enquanto são observadas pelos próprios maridos, sexo grupal com humanos e animais, pessoas que parecem amar urina e tomam de joelhos em frente ao movimento incessante da câmera, homens comendo homens, mulheres chupando mulheres, pré-adolescentes transformados em produto erótico. Tudo isso mexe demais com a cabeça da gente, acabo imaginando como seria participar de uma coisa dessas, para mim que ainda não tinha metido em ninguém, só o fato de pensar em algumas coisas me deixavam latejante. Como quem escuta alguém chamar, notei, como sempre, de que me punha do lado direito da cama, o lado de mamãe. Inconscientemente sempre que me deitava ali, me punha do mesmo lado.
Por muitas vezes quando estava só em casa, deitava-me naquela cama e passava por um período de meditação. Havia algo naquele colchão que escapava aos outros da casa, proporcionando um taciturno relaxamento dos músculos e equilíbrio no fluxo de pensamentos. E um cheiro confortavelmente cítrico que fora ali, só o sentia quando estava em sua presença. Ela perfumava o ar com sua pessoa, e mesmo em dias ensolarados como aquele, ainda era capaz de transmitir um raro frescor que se propagava com as pequenas ondas de ar. O outro vértice exalava um forte cheiro de éter e de água oxigenada para uso hospitalar. E ainda, resquícios de um pó branco, talco anti-transpirante para os pés. Um dia ela falou, que só se casara por que estava grávida, que não havia amor. Não entendo como conseguiram dormir juntos por dezoito anos. Talvez ela tenha se acomodado a qualidade de vida que ele poderia e estava lhe oferecendo. Porque antes vivia com a mãe e sobreviviam com a mísera pensão que o pai lhes deixara. Hoje se podia dizer que a única renda de mamãe era o aluguel da antiga casa dos pais, um salário que era depositado em sua conta todos os meses. A casa de campo estava em seu nome, mas fora um presente de meu pai. Talvez um agrado que lhe fizera com a intenção de vê-la um pouco menos infeliz, pois o discurso sobre possuir uma esposa insatisfeita era incessante, e desde que me conheço por gente que venho escutando tais resmungos. O que não o impedia de tentá-la comprar com jóias e presentes caros. Ele era um eterno conquistador de sua própria mulher, e ela uma perversa amante de seu incansável marido. Gostavam de jogar esse jogo, mas jamais fui usado como razão para estarem juntos. Sentia ser amado por ambos, mas a alta dedicação que recebia dela parecia despertar nele um certo rancor ou ciúme, ostentava um proeminente afastamento. Mas depois de tantos anos, com toda certeza ela não se livraria de tal situação sem levar consigo uma pequena fortuna. Ao contrario da minguante vida financeira com a qual cresceu, meu pai sempre desfrutara de tudo que o dinheiro poderia oferecer a uma criança, se transformando em um adolescente fútil e mimado que mais adiante herdaria, com sua irmã mais nova, todos os bens da família e levaria uma vida adulta sem preocupações, destituída de qualquer necessidade e embevecida de conforto e gastos excessivamente desnecessários. Hoje vivia exclusivamente da renda de alguns imóveis, que se sobressaia em muito ao seu salário de ortopédico cirurgião.
A porta ao lado se abriu produzindo um ruído leve. Levantei-me e ao vê-lo pude ver como minhas velhas peças de roupa lhe caiam bem. O vapor que saia de dentro do recinto lhe rodeava e o envolvia de forma insofismável. Entrando, disse que não demoraria muito e pedi que ficasse o mais a vontade possível. Ao fechar a porta, arranquei a bermuda juntamente com a cueca e liguei a ducha. Definitivamente não tinha a intenção de deixá-lo esperando, mas ainda me ensaboava quando ouvi o telefone tocar, soou três ou quatro vezes antes que eu pudesse sentir um toc-toc do outro lado da porta. Pedi para que atendesse, ou que deixasse tocar, mas mencionei que não teria problema algum em atender.
—Tudo bem, então. —Disse.
Faria um chá assim que eu estivesse pronto, os cientistas do tempo pareciam estar certos sobre a chuva, e trovões já anunciavam sua lenta aproximação. Talvez fosse interessante tomar chá com biscoitos enquanto as nuvens bloqueavam o sol e devagar escureciam o ambiente. Ele estava ansioso para ver o DVD do Marcelo Bonfá, e eu que assistira uma única vez, estava ansioso em vê-lo novamente ao seu lado. Incrível como certas pessoas são essencialmente estúpidas, o que seria do rock nacional se uma banda chamada Legião Urbana nunca houvesse existido? O que seria de milhões de jovens que cresceram cantando “geração coca-cola” se Renato Russo tivesse se tornado um arquiteto ao invés de compartilhar sua dor e seus conflitos com todos nós? Será que teríamos aprendido algo sobre a vida ouvindo Dinho Ouro Preto e suas fúteis canções ao lado do Capital Inicial? Ainda assim, quando entrei na Saraiva Mega Store essa semana a procura desesperada do novo álbum do Bonfá, a atendente me olhara como se Marcelo Bonfá fosse um alienígena ou algo assim. Ela parecia nunca ter escutado aquele nome, e eu quase perguntei: “Onde você esteve nos últimos vinte anos? Na Sibéria, Alaska ou algo assim?”. Estúpida até morrer, como pode ter sido contratada? Como pode não conhecer o clássico baterista da lendária Legião Urbana? Hoje sabemos do grande homem que sempre esteve atrás do outro grande homem, e que talvez, o que tenha faltado no primeiro grande homem tenha sido a sensibilidade e a delicadeza do grande homem que sempre esteve atrás, com suas baquetas, escondido e ofuscado por seus dois melhores amigos sem talento.
Quando sai do banho, percebi que Vinícius estava meio inquieto, pálido e aturdido.
—Que foi Vinícius? Aconteceu alguma coisa? —Ele parecia ter sido atacado por marginais dentro da minha própria casa. Uma nuvem encobrira o sol e a escuridão vespertina invadira o apartamento transformando nossos corpos em sombras.
—Quem era ao telefone?
—Era seu pai… —Sentou-se na cama, passou a mão entre os cabelos, jogando-os para traz. Olhou nos meus olhos e respirou fundo.
—Vem cá... —Disse. —Aconteceu uma coisa, Augusto… Eu não sei como te dizer isso, que merda, Vinicius. —levantou-se impaciente e percebi lagrimas escorrendo em seu rosto.
—Você está me deixando nervoso, o que foi que aconteceu?
—Era o seu pai no telefone.
—O que aconteceu? Diz logo o que está acontecendo.
—Não sei, Augusto… Parece que seus pais estavam na fazendo e pelo o que ele me disse, eles discutiram… Ele disse que sua mãe estava bastante agressiva e pegou o carro com a intenção de vir embora.
—Minha mãe estava bastante agressiva, ta vendo? É sempre assim, para ele a culpa é sempre dela… E o que ele quer? Que eu vá buscá-lo?
—Não, Augusto. Ele já está na cidade. Está no hospital, mas disse que você deve esperá-lo aqui… ele está vindo pra cá.
—Aconteceu alguma coisa, Vinicius?
—O carro que sua mãe estava saiu da estrada, sofreu um acidente, eu acho.
Tenho certeza que por três segundos meu sangue parou subitamente em meu corpo, não que o coração tivesse parado de bombeá-lo, mas por três segundos ele deixara de percorrer as artérias. E durante esses três segundos eu tive a nítida impressão de sentir o cheiro cítrico do perfume de mamãe, ele invadira o quarto sutilmente, de forma que só eu o senti. Eu chorei ao por a mão no peito. Eu desabei. Eu via o céu nublado através da porta da sacada.
—Ela não está mais viva, não é?
—Não… Eu sinto muito, Augusto.
Naquele momento senti meu peito totalmente abalado, a criança dentro de mim, a criança que eu sou chorou e berrou sem se preocupar, era só uma criança e até então eu não sabia o que era dor. Vinícius que também não sabia o que fazer, me abraçou, me deu seu ombro para ver qual era o efeito. Eu o abracei com força e aparado por ombros tão quentes praguejei contra Deus.
—Eu vou para o hospital.
—Seu pai disse para ficar aqui…
—Mande meu pai se ferrar, Vinicius. —Peguei as chaves sobre o criado ao lado da cama. —Você vem comigo?
—Se é mesmo o que você quer fazer…
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(Vinicius no banho)

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