Em toda minha vida nunca havia perdido alguém, e agora sentia o que todos temem, o peso da morte. E tudo é tão forte que parece te consumir internamente, corroer todos seus órgãos, é o inicio de um processo impetuoso de petrificação. Querem saber? Eu sempre tive tudo que quis, e não sei de nada que tenha me feito falta até hoje, mas nunca aprendi a perder nenhum troço que fosse. Nunca aceitei um não como resposta ao que queria. E agora perco a pessoa que mais importância tinha na vida, aquela que mais me conhecia e adivinhava minhas necessidades. E essa, de fato, é a pior perca. Onde é que eu vou comprar outra mãe? Quanto eu poderia pagar para abraçá-la por mais uma vez? Ou para vê-la interagir comigo novamente? E ainda sou obrigado a ver aqueles comerciais ridículos de cartão de crédito que dizem que essas coisas o dinheiro não compra, mas que para todo resto eu deveria usar meu Mastercard. Vão se fuder, todos eles.
Hospitais são em sua essência lugares tristes e fúnebres, onde a morte parece estar sempre fazendo convites, parece rondar pelos frios corredores a procura de uma porta aberta, de vitimas imunes. As intrigas entre meu pai e eu não foram suficientes para nos mantermos afastados quando nos encontramos. Talvez o que mais o causava dor, era o fato de não ter tido a chance de salva-la, como fizera com vários de seus pacientes. Era compreensível aquilo, a grande ironia. Eu estava muito mal, sentia um liquido espesso escorrendo pelo nariz. Nos abraçamos fortemente, cheios de autocomiseração. E de certa forma, quase imperceptível, consolamos um ao outro.
—Ela sofreu traumatismo craniano, e faturou vários ossos. Mas ainda respirava quando chegou aqui…
—Eu quero vê-la. —Eu disse.
—Não Augusto, o corpo não está em condições…
—Não venha me dizer isso que você já tem mais do que decorado… eu sou seu filho, ela é minha mãe.
Ele pensou por um minuto, se estivesse emocionalmente equilibrado, eu sei que jamais teria me concedido tal desejo. Mas, no entanto, voltou-se para um conhecido próximo, um homem com seus trinta anos, vestia branco e jaleco. Pediu-o para que o fizesse o favor de me levar onde ela estava. Vinicius acompanhava tudo sentado em um banco no corredor. Olhei para trás enquanto seguia o médico, ou sei lá quem era, ele me seguia com os olhos.
Deveria estar esperando e preparado para ver o que vi, fui até mesmo advertido sobre. Mas a ingenuidade era um filtro que me impedia concluir quão horrível seria o real. O ambiente por si só já era assustador, e ao retirar o plástico que a cobria tive vontade de vomitar. Seu crânio deformado e parte do couro capilar solto, o sangue na face, a pele coberta por hematomas, a boca ferida e sem dentes. O braço fora do lugar… Mãe, o que aconteceu com você? E que mundo é esse? Repleto de coisas imundas, pérfidas e desgraças. Sai imediatamente da sala, o tal médico me gritou, disse:
—Ei, rapaz…
Eu não olhei para trás, lembro-me de ter pensado algo tipo: filho da puta. Acho que estava me referindo a Deus, ou sei lá a quem. Qualquer um que pudesse se responsabilizar por aquilo. Quando voltei pelo mesmo corredor, não encontrei meu pai por ali, vi Vinicius, mas fui incapaz de lhe dizer palavra. Sai do hospital para a escuridão da tarde, para o vento que soprava o lixo jogado na rua. Eu estava só, não como aquelas pessoas que andavam apressadamente por medo da tempestade próxima, elas voltariam para alguém ao final do dia. Vomitei.
Dirigia sem direção, conscientemente sem saber para onde ir, meu corpo estava em total desordem, a mente produzia um álbum de lembranças, sensações irrepreensíveis em tais circunstancias, ela se tolhia provocando dores físicas inexplicáveis. Naquele momento pensei poder compreender certas coisas, talvez aquele era o preço a pagar pela enorme felicidade que vinha sentido nas ultimas semanas.
Paro para pensar porque algumas pessoas parecem tão importantes em nossa vida, nós as amamos, e da noite para o dia elas se vão, como se não fossem queridas ou nada valessem, como se não sentíssemos nada por elas. Esse mundo é injusto, ele nos dá e depois nos toma, não consigo compreender esse modo cruel, esse destino reservado a cada um de nós. E grande merda o fato de Allan Kardec ter morrido jurando que a morte é apenas um novo nascimento. Minha mãe estava morta agora, fora de um corpo capaz de viver, e se existem outros mundos, eu não sei. Mas aqui, entre nós só existe uma vida e ela se foi.
Não sei como, mas só me dei conta quando fechei a porta de casa e corri para meu quarto. Fiquei pensando sobre o grande medo que me possuía e que ele nada podia fazer por mim a não ser me privar de viver, de sentir, provar, experimentar tudo até o dia em que eu também seria convocado. Eu parecia temer tudo aquilo que se aproximava de mim a uma distância visível, e então me trancava no quarto como uma fortaleza, as paredes tornavam-se uma proteção do meu corpo permanentemente apavorado, e eu sentia a entrada de uma pessoa, mesmo próxima, como uma invasão e uma violação da minha esfera de segurança mais privada.
Cheguei a sacada do meu quarto exasperado, o céu embotado de angustia parecia tão próximo das minhas mãos, pela primeira vez não havia ninguém nas ruas, eu não podia vê-las como nessa manhã. As lagrimas caíam. Eram mais forte que eu... Me passava coisas na cabeça, me lembrei do meu ultimo aniversario quando meu pai achava loucura me presentear com um carro aos dezoito anos, mas ainda assim ela me comprou um, e conversível, como eu queria... De quando viajávamos e por muitas vezes cantávamos no avião e as pessoas ficavam nos olhando. A gente tinha combinado de ir para Paris esse ano. Eu adorava quando ela me acordava aos domingos com um assobio para gente ir ao clube, quando ela trazia o café na cama. Eu era pequeno e deitava-me com ela quando vinha o medo de dormir sozinho no escuro… E agora isso tudo estava dentro de mim quase como uma granada cravada no peito. E a tempestade bloqueava toda luz. Os primeiros pingos chocaram-se contra meu rosto, eram fortes e esparsos. Ao longe vi um clarão que produziu um estrondo audível, em pouco tempo me vi sendo banhado pela chuva. Totalmente capaz de encobrir meu choro. E ali fiquei por horas e horas.
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(Dr. Marcos pelos corredores do Hospital)

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