Os últimos dias de fevereiro foram bem solitários. O velório de mamãe reuniu poucas pessoas, um grupo de doze ou um pouco mais, a maioria delas usavam preto ou tecidos de cor escura. Uns cinco amigos de meu pai e sua irmã, Natalia, que atualmente reside em Belo Horizonte ; um primo de mamãe, seu parente mais próximo, e Vinicius, acompanhado de seus pais. Talvez esteja até esquecendo alguém, outra meia dúzia de pessoas, mas isso não tem a menor importância agora.
A casa parecia ainda mais fria e silenciosa, pouco nos víamos, pouco falávamos quando jantávamos juntos. Muitas vezes quando ele chegava, eu já estava dormindo, ou ao menos, fingindo que dormia. Outras vezes trancava a porta e concentrado, observava da sacada as ruas se esvaziarem vagarosamente. As pessoas evacuando o espaço público e como eu, se trancando em seus próprios quartos, para logo mais deitarem em suas camas. Milhões de camas, uma ou mais para cada habitante.
Com a chegada de um novo mês a rotina voltava a fazer parte de nossas vidas, o barulho começava a fazer falta aos ouvidos. Foi quando, na mansidão de uma tarde, liguei o som, ultimo volume, cantei todas as canções de que gostava e decidi voltar ao Campus. Dizem por ai que independente das desgraças a vida continua, e mesmo que esteja paraplégico e enfermo, vegetando a espera de um banho e comida, a vida tem que continuar. Então a vida se sobrepôs sobre tudo e eu me senti na pavorosa obrigação de seguir em frente.
Nos primeiros minutos da manhã seguinte a visão fora aquela de sempre, a praga de cabelos ruivos se aproximando. Sempre vindo em minha direção. Pelo o que me parece, naquele dia ela apertara os passos disposta a me alcançar. Pôs-se ao meu lado, e prosseguimos em passos sincronizados, de modo que eu a ouvia, mas evitava seus olhares.
—Eu sinto muito, misto quente… —Lamentou com um tom de voz tolhido, pareceu-me ensaiado. Abriu seu pó compacto. —Eu soube o que aconteceu. —Disse enquanto olhava sua imagem refletida no pequeno espelho. —Nossa! É assustador como nós somos tão suscetíveis. —Após conferir a aparência e ajeitar uma mexa de cabelo, guardou o pó em um compartimento da mochila que carregava em apenas um dos ombros.
—Não diga…
—Na verdade as coisas acontecem tão rápido que enquanto você ficava em casa deprimido a Julia aproveitava para dar em cima do Vinícius. Eu sei que deve ser uma péssima hora para comentar tal assunto, mas você não acha … —Parei subitamente.
—Carol, sinceramente eu não sei o que te incomoda tanto nisso, às vezes a impressão que tenho é que você gosta de mexerico.
—Não, não, de jeito nenhum. —Voltei a caminhar e ela me seguia. —Vai disfarçar, misto-quente? Eu sei que você gosta do Vinícius, não é verdade?
Carol tinha o péssimo dom de desvendar pensamentos, observadora cuidadosa e farejadora perspicaz, quase uma raposa.
—Porque você me diz isso? Eu tenho demonstrado alguma coisa?
—Olha Augusto, eu estou do seu lado. —Segurou meus ombros me fazendo parar próximo a escada. —Pode contar comigo, cara. Acho que não é segredo para ninguém o fato de que eu não gosto da Julia. Então…
—Então, Carol… será que poderia me deixar em paz? —Ela respirou fundo, como se perdesse a paciência e tentasse recuperá-la.
—Tudo bem. —Parecia-me vencida. —Mas caso precise de mim, tenho andado pelos corredores.
Se afastou enquanto acendia um cigarro, o que era permanentemente proibido ali dentro, e acenou indo ao encontro de Renato enquanto eu me propus a subir as escadas. Em alguns minutos o sinal de entrada nos obrigaria a deixar o poleiro. Como eram chamados os andares superiores nos intervalos, ficavam apinhados de alunos que se debruçavam sobre o para-peito e do pátio central era possível ver aquela aglomeração de cabeças que falavam e se contorciam em dois andares. O fato é que por mais que falássemos de quão horrível era aquilo, ao estarmos no pátio central, quando estávamos pelos corredores, era impossível não ser parte daquilo que todos criticavam.
De repente, subindo os degraus, senti-me como se quisessem tirar tudo de mim, pelo menos tudo que tinha certo valor. Com freqüência sou dominado por sentimentos de inquietação, principalmente quando algo me atormenta. O mal-estar físico me tira do sério. Suponho que este ataque repentino tenha sido causado pela ameaça que Julia representava naquele instante. Se pelo menos ela soubesse como eu me sinto… mas isso é algo que ninguém nunca irá saber. Só poderão imaginar, ou, minha aparência e meu falar extenuante poderão lhe causar certa preocupação. Mas nada mais, além de uma forte certeza de que eu me deixei abater.
*
Há alguns meses, desde que ganhara meu carro, não mais ia ao colégio no ônibus, — Se tinha um carro também tinha o direito de usá-lo para aquilo que fazia todos os dias, assistir aulas. — devido a longa distancia, o Campus possuía ônibus escolares que recolhia grande parte dos alunos pela cidade todas as manhãs. Haviam outros “afortunados” como eu que não mais usavam aquele sistema prejudicial de locomoção. Mas éramos um numero pequeno, em crescimento considerável. Já se falava até na ampliação do parking-lot, em um terreno que adentrava a reserva natural. Floresta, como chamávamos.
Eu deixava a garagem do meu prédio e pegava a avenida 136 até seu final, ou inicio, nunca sei dizer, depois a 115 e atravessava a marginal botafogo pela 88, então contornava o estádio e caia na BR 153, seguindo em direção oposta a saída para São Paulo. A interestadual corta a cidade, traçando nela um longo trecho urbano, repleto de viadutos, passarelas e lombadas eletrônicas. Quando fazemos o mesmo caminho todos os dias tudo se torna tão monótono, uma chatice, chegamos a pensar que de fato a vida não parece oferecer muito além disso. Além do que obrigatoriamente vivemos dentro das vinte e quatro horas. Ultrapassado o viaduto do Aldeia do Vale, um condomínio de luxo onde moravam vários colegas de classe, entravamos numa curta estrada que cortava a mata fechada por árvores e dava acesso aos grandes portões do PH, onde logo na entrada se lia: “Os melhores do Estado estudaram aqui.” Neste dia eu atravessava exatamente essa pequena estrada de acesso, o vento entrava pela janela e as vezes fazia com que a gravata voasse em meu rosto. Diminui a velocidade e fechei-a parcialmente.
Quando voltei a dar atenção a estrada, pude ver movimentos humanos entre a folhagem, alunos, pois era notório o azul e branco dos uniformes e os paletós pretos de dois rapazes sentados num forte tronco caído. Eles estavam sentados naquele tronco, num pequeno vão que se abria na floresta, próximo a margem da estrada, antes do portão principal. Ela estava em pé gesticulando enquanto soltava fumaça, enquanto Renato e Caio pareciam escutá-la atentamente. Parei o carro, abri a porta e desci, mas permaneci ao lado. Acenei para os rapazes, que também fumavam um cigarro, Carol notou minha presença e veio até mim. A forma como andava, como levantava cada pé e os punha novamente no chão era ingenuamente elegante. Fazia com que a mecha solta de cabelo vermelho se movesse, e com tentativas inúteis insistia em colocá-la atrás da orelha.
—Você tinha razão. —Eu disse.
—Eu quase sempre estou certa, mas o que você notou?
—Exatamente o que você disse… A Julia parece estar muito em cima do Vinicius… —Eu deveria estar envergonhado de dizer aquilo, mas essas convenções sociais pareciam não fazer sentido algum agora. —não que isso seja algum problema… —tentei não deixar a coisa tão grave como parecia.
—Você quer parar de tentar me enganar? Então por que veio falar comigo? —Ela tragou.
—Isso não te sufoca?
—O que? —torceu a mão e olhou diretamente para o cigarro. —O cigarro? Ah! Não. É bom… quer experimentar?
—Não, obrigado. Mas tudo bem Carol, suponhamos que realmente eu esteja com bastante ciúme do meu amigo, e realmente estou… você sabe tudo que me aconteceu… acho que estou me sentindo muito só, sabe?
—Vai por mim, misto quente, ou você dá um jeito na Julia ou ela toma o Vinícius de você. —Carol parecia sempre tão precisa, parecia até já ter um plano. E nem era dela o problema.
—Não, eu não quero que isso aconteça. Eu realmente gosto dele, Carol. Carol ou Carolina? —Questionei.
—Não! Você está louco? Carol, Carolina é minha avó.
—Pois é, Carol…
—Olha Augusto, eu sou sua amiga, cara. Sempre fui, você é que parecia não gostar de mim… mas quer saber? O que passou, passou. —Sorriu.— Eu vou bolar um plano, a palerma da Julia que nos aguarde… e quando estiver com algo pronto eu te ligo. Tudo bem assim?
Dali dava para ouvir a sirene, quando tocou. Concordei com ela dizendo que tudo bem e voltei ao carro. Após estacioná-lo, já de frente a imponente estrutura, fiquei ali, parado, só tentando entender como tudo funciona. Há um ano eu odiava aquela menina e exatamente agora ela parecia-me tão simpática como Branca de neve quando eu tinha uns seis anos de idade. Hoje vejo como fui enganado, não há nenhuma lógica, nada naquela história faz sentido… A bruxa madrasta, a própria Branca de neve dividindo uma miniatura de casa com sete anões, e para completar o absurdo ainda aparece um príncipe para beijá-la depois de morta e fazê-la cuspir o pedaço de maçã envenenada que até então bloqueava sua garganta. Pelo amor de Cristo!
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(Renato e Caio próximos a estrada de acesso ao Campus PH)

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