segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

7 - SEGREDOS... SUPOSIÇÕES

Trilha: Guster - satelite





                              Lembro-me de que Carol não me ligou nos dois dias seguintes, como lembro-me de um domingo após aquela conversa. Meu pai estava no hospital, atendendo as emergências, provavelmente acidentados. Incrível como, mesmo após tudo que passamos com minha mãe, ele ainda conseguia fazer aquilo. Sua licença não passou de três dias, e agora parecia mais dedicado que antes, se é que isso era possível. Mas estávamos nos dando melhor. —falávamos bom dia um ao outro todas as manhãs, e isso já era uma melhora visível, em outros tempos topávamos sem nos olhar.— e por vários dias ele me esperou chegar para almoçarmos juntos.
     Decidi sair do quarto, de dentro de casa. Descer um pouco até a área de convivência do edifício. Nunca cruzava com ninguém mesmo por ali, e o contato com o verde fazia bem. Distraído, deixei que o telefone tocasse umas quatro ou cinco vezes sem que eu percebesse, atendi.
     Era o Renato chamando para ir ao shopping jogar boliche. E isso nunca antes aconteceu. De fato nenhuma pessoal me ligara para me chamar para lugar algum. Quando era convidado, normalmente era por convites formais e impressos que eram distribuídos aleatoriamente até que se esgotasse a tiragem de cem cópias.
     Ainda assim não é totalmente estranho que fosse Renato a me ligar, na verdade sempre fomos chegados, quero dizer, sempre nos cumprimentamos com sorrisos afáveis, e diversas vezes nos falamos rapidamente pelo corredor. Trabalho em grupo nunca fizemos juntos, pois era claro que seu grupo era Carol e Caio. Eu fazia com Julia e Felipe, às vezes com Felipe e Fernanda. Às vezes com quem me chamasse para fazer. Agora, no entanto, quando grupos fossem formados a pedido de algum professor, certamente Vinicius e eu seríamos um grupo, escolheríamos a dedo os outros integrantes. Situação chata essa de ficar a espera de um convite. Não vou negar que por várias vezes fui convidado por Carol, e inclusive em uma delas vi nitidamente Renato apontando o dedo em minha direção, mas recusei com classe. Eu tinha ranço daquela menina. Seria incapaz de fazer qualquer coisa ouvindo-a tagarelar em meu ouvido. E no final das contas era sempre ela que aparecia no grupo, não que eu quisesse aparecer, mas para que tanto trabalho em conjunto se no final ela era a única a brilhar e receber o melhor conceito?
     Renato era um dos bolsistas da sala, o Campus possuía uma organização pronta a ajudar os maiores necessitados, desde que conseguissem tirar notas máximas nos testes de pré-avaliação, e que se propusessem a visitar a psicóloga do instituto uma vez na semana. Dessa forma Renato sobrevivia no PH há mais de quatro anos. E sempre na companhia de Caio e Carol. Rapaz alto, aplicado na educação física, integrante da equipe de natação e um dos mais queridos pelo professor de Literatura. Sr. Frans. Professor maravilhoso que nos ensinou a amar a arte de narrar, que nos ensinou com maestria a ler poesias e romances. Gregório de Matos, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Aluízio de Azevedo, Clarice Lispector, e não parava por ai, líamos obras de vários outros grandes escritores e poetas como: Thoreau, Byron, Tennyson, Flaubert, Fitzgerald, Kafka, Tolstoi, Dickens, Oscar Wilde... E Renato recitava poesias maravilhosamente bem. Era agradável ouvi-lo, sua entonação era clara e embevecida de emoção.
     Mas agora ele estava ao telefone me chamando para ir jogar boliche.
—Quem vai? —Quis saber.
—O Vinícius, o Caio e a Carol. —Estava na cara que isso era armação da peste ruiva. Mas parecia estar jogando a meu favor.
—Ah, legal...
—Quando falei com o Vinicius ele me perguntou se não tinha problema em convidar a Julia. Fiquei sem saber o que dizer... Você sabe o gênio da Carol, e as duas não se dão muito bem. Mas acabei dizendo que não havia problema.
—Está bem, então. Eu vou. —Imaginei que já fosse um plano de Carol posto em prática.
     Voltei ao apartamento. Naquele curto espaço de tempo que levei para me arrumar, fiquei torcendo para que a mãe de Julia caísse da escada ou algo pior acontecesse que a impedisse de querer jogar boliche aquela tarde. Uma dor de alguma coisa, sei lá. Antes de me meter em tais pensamentos malévolos, mandei uma mensagem de celular para Vinicius dizendo que passaria em sua casa em quarenta minutos para apanhá-lo. Vesti jeans e minha melhor camiseta Herchcovich. Agora o que faltava era Julia aparecer para enfraquecer o animo corporal de todos e transformar o brilho da tarde num pedante suspiro sem forças.
     Calçava o tênis quando notei a presença do meu pai. A porta da sacada fechada, o ar preso que não circulava no interior do quarto, me deixaram ouvir o barulho da chave que destrancava a porta da sala. Ele subira silenciosamente as escadas, provocando um ruído característico dos sapatos que usava. Veio até meu quarto e me vira sentado na cama, a porta estava aberta, parecia surpreso ao me ver vestido para sair.
—Oi pai!
—Está de saída?
—Indo jogar boliche com um pessoal.
—Ótimo… fico feliz em saber que anda saindo com os amigos, Augusto. Você sabe… não é legal ficar remoendo as coisas.
—É, eu sei. —Mas ele parecia andar se aprofundando na introspecção. —E o senhor? Vai fazer alguma coisa hoje? Ainda é cedo.
—Não, vou ficar em casa mesmo. Vai passar um documentário muito bom na tevê sobre neurologia. Um documentário europeu, se não me engano. Fora isso, estou cansado demais, relaxar um pouco também faz bem. Não concorda? Estou pensando em fazer uns exercícios de yoga que um colega indicou.
—Espero que se sinta bem. —levantei-me pegando as chaves sobre o criado e colocando a carteira no bolso traseiro da calça.
     O telefone tocou e seu rosto não deixou esconder uma evidente inquietação. Sem nada dizer foi direto para o escritório, atendeu rápido, e o silêncio voltou a preencher o corredor. Percebi que a porta do escritório fora fechada delicadamente, de forma que mal pude ouvi-la bater. Lembro-me de achar tão estranho os telefonemas que Dr. Marcos andava recebendo nos últimos dias, não que eu tivesse algo contra sua privacidade ou que conhecesse o conteúdo do assunto tratado e muito menos a identidade de quem o ligava, mas sua total descrição levantava chispas de suspeitas. Será que em tão curto espaço de tempo meu pai já estivesse se envolvendo com outra mulher? Por que não acredito que já havia o fazendo antes de minha mãe… um homem que se esforçava tanto em nome do aconchego da própria mulher, não teria tempo nem motivos para possuir uma amante. Mas seu comportamento não me deixava duvidas de que algo acontecia sob aquele teto sem que eu fizesse idéia do que poderia ser.
     Passei de frente a porta do escritório e levantei os ouvidos para ver se capturava uma frase ou uma palavra sequer, mas o aposento parecia completamente desértico, nenhum som. Que se dane, pensei, naquele momento todo o lance com Vinicius e Julia me parecia bem mais importante e irresistível de se pensar do que qualquer segredinho do meu pai.

©Copyright 2010






(Augusto recebe um convite de Renato por telefone)

Nenhum comentário: