quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

8 - CONTANDO MENTIRA

Trilha: The White Stripes - seven nation army




            
                          Talvez tenha chegado na porta da casa de Vinicius uns dez minutos após a hora marcada, um lapso, naquela época costumava ser exageradamente pontual, e implacavelmente cruel com os que não eram, pois não raramente me castigava a esperá-los. Talvez tenha calculado mal a distância que levaria para chegar a zona norte pegando a Independência. Sua mãe atendeu a porta, dona Fabiana, a incrível fã de Djavan e assinante da revista Casa&Interiores. Estava usando um avental de tecido azul e luvas térmicas para forno, o que me fez pensar que estava preparando um ótimo assado. Parecia gostar de se dedicar aos afazeres domésticos, ao filho e ao esposo. Lá em casa isso sempre fora serviço pago, terceirizado e realizado conforme o astral diário das funcionarias.
    Já havíamos nos encontrado algumas outras vezes, e gostou muito de rever-me, percebi pelo sorriso viçoso com o qual me recebera e convidou-me para entrar. A casa recendia um aroma de bolo de laranja, que estaria ainda mais agradável se não fosse pela presença de Julia Mesquita acomodada no sofá da sala. Seus cabelos longos e castanhos estavam presos com uma fita de cetim prateada que nada tinha a ver com sua roupa. Julia era uma daquelas que deveria sempre estar de uniforme, pareceria mais elegante. Aquele rosto sem cor, aquela boca rosa esbranquiçada sem batom. Seu olhar inexpressivo exibia de forma pálida e característico um contentamento ao ver-me. Seu insulso sabor poderia ser muito bem confundido com boas maneiras, mas ao meu ver, boas maneiras que se expressam por falta de expressão, não são suficientemente apreciáveis para despertar em mim sentimento maior que um escárnio. Sempre fora uma espécie de Maria Madalena arrependida. Numa versão contemporânea, poderia ser uma protagonista da dramaturgia mexicana, ou ainda, uma personagem das novelas de Manuel Carlos. Tipinho sem graça! Sorri retribuindo o carisma que demonstrou por minha pessoa ao nos encontrarmos. Dr. Raul, senhor culto e sofisticado, pai de Vinicius, estava na poltrona ao lado acompanhando o noticiário do Bloomberg. Vestia roupas de descanso. Cumprimentou-me com um sincero “boa tarde” que me deixara subitamente desperto.
—Está atrasado. —Comentou Julia, sentei-me ao seu lado.
—Me parece que não… Fazendo o quê aqui?
—Achei que fossemos jogar essa tarde. Foi para isso que veio, não?
—Ele pediu para que viesse?
—Na verdade quando ele me ligou, perguntei se não podíamos ir juntos, e ele disse que tudo bem. —Parecia-me tão incontrolável, quase saltitante. —Eu moro aqui próximo. —Mais essa agora!
—Onde está o Vinicius? Realmente creio que estamos atrasados, o Renato e a Carol estão a nossa espera.
—Carol? Eu não sabia que a Carol estaria presente? …
—Mas foi exatamente a Carol que marcou esse encontro no boliche. Não estava sabendo?
—Não sabia que o Vinicius era tão amigo dessa gente... E é claro, se ela vai, o Renato não poderia faltar.
—E o Caio também não! —bateu-lhe um espírito abatido.
—Então seremos nós três e os três mosqueteiros?
—Não sei Julia, talvez seja você contra os outros. —Ela balançou a cabeça como se não tivesse entendido o que disse. Então emudeceu.
    Dr. Raul parecia tão compenetrado no telejornal, que discretamente cochichei em seu ouvido.
—Eu acho que você está a fim do Vinícius. —Olhou em meus olhos surpresa, como seu eu acabasse de achar um tesouro perdido ou desvendado seu destino.
—Como você sabe?
—Por favor, Julia… Só não vê quem não quer.
—Vem, —pegou minha mão. —podemos esperá-lo lá fora. —Nos levantamos sem nada dizer e saímos pela porta da sala, passamos pela garagem e nos escondemos no jardim sob a sombra de um pinheiro. A casa de Vinicius possuía uma bela fachada trabalhada em pedra e madeira, onde se via paredes, elas eram de um amarelo mostarda. O jardim era vivo e florido, artisticamente cuidado. Possivelmente Dn. Marta havia recriado algum modelo publicado em uma das edições de Casa&Interiores.
—Você podia falar com ele para mim, Augusto.—Disse em tom de segredo, quase ao meu ouvido. — Vocês são tão amigos. —Não poderia levar aquilo adiante, muito menos gostaria de me tornar o confessionário daquela pobre alma. Precisava rapidamente dar um jeito de me ver livre de tudo isso. E ao mesmo tempo tirar da cabeça de Julia tais pensamentos, essas ilusões que alimentava sobre meu amigo. 
—Julia… Eu preciso te contar uma coisa horrível. Na verdade eu não sei se deveria, mas em tais circunstancias…
—O que é… Você me parece tão preocupado, é tão sério assim?
—Bem…Não deveria ser, mas já que você tomou a liberdade de se abrir comigo… Acho que pode ser algo decisivo. —Desviei os olhos por cima de seus ombros. Ela nem percebeu. —O Vinicius… Ele não é como você está pensando, entende? —Agora sim, peguei em seu braço e manipulei um olhar profundo.
—Como assim? —Ficara murcha de repente, a euforia passara como uma nuvem pelo sol.
—O Vinicius não gosta de ficar com meninas.
—Como assim? Ele é gay? —A voz saiu tão alto, num eurístomo impulso de indignação, que me fez apertar seu punho enquanto tampava-lhe a boca com a outra mão.
—Fale baixo, se ele ouvir? —Soltei-a —Eu não deveria estar lhe falando isso, ele me pediu segredo e confiou em mim. Só te contei porque prometeu não dar com a língua nos dentes. —Ela não havia prometido nada, mas era estúpida demais para negar qualquer coisa que eu viesse a dizer.
—Claro! Me desculpa, mas você tem certeza?
—Ele gosta de ficar com rapazes, escuta o que estou te dizendo. Se eu fosse você deixava esse seu caso de lado, desse mato não sai cachorro. E eu sei como você é… você é uma garota sensível, se apega as pessoas facilmente, é carinhosa, bondosa, e depois acaba sofrendo por isso. —Tentei ser o mais doce e suave possível, pela primeira vez fui tão dissimulado que aquilo de certa forma me enojou. Carol me veio a mente no mesmo instante, ai pensei se minhas atitudes já não estavam sendo influenciadas por minhas novas companhias. Será? Não, só eu poderia ser responsável por elas.
    Não fazia idéia de que Vinicius levasse tanto tempo para ficar pronto, parece que quando admiramos alguém, não nos passa pela cabeça que essa pessoa é um simples ser humano como nós. Visualizamos tais pessoas em suas atividades diárias, e até caseiras como são nas noites de festas onde estão com suas melhores roupas e suas melhores expressões faciais. É como se acordassem prontas para entrar num carro e se dirigirem para um evento de moda; belas, limpas, fulgurantemente perfumadas, sorridentes e bem nutridas. Mas Vinicius definitivamente era um ser como qualquer outro, exatamente como eu.
    Observando os acontecimentos, conclui que tudo ocorrera dentro do esperado, Julia estava arredia e perdera a vivacidade dos olhos mesmo ao lado do objeto amado. Eu estava me sentindo tão bem, conversando com todos, percebendo como era querido. O fato é que o bem-estar da coitada pareceu chegar ao zero quando encontrou Carol. A menina de cabelos ruivos estava esfuziante, irrestritamente energética. Mas à Julia, se dirigia ironicamente com indiretas e olhares de soslaio. Deixara claro a divisão que estabelecera entre os membros do grupo, desde o inicio.
    Apesar de Julia ser financeiramente bem sucedida, seus pais sempre foram pobres e conquistaram lugar na sociedade gradativamente, um pequeno comercio de calçados que fora dando certo ao longo de uma ou duas décadas e hoje representavam 30% de todos os tênis, sapatos, sandálias e saltos vendidos na cidade. Com 50% do estoque sendo de fabricação própria. Receberam alguns prêmios de certas instituições preocupadas em premiar comerciantes em destaque, algumas fotos em colunas sociais e assim freqüentavam finamente esse meio. Mesmo assim, eram bem sucedidos, numa cidade onde grande parte da elite emergiu de tais classes, o que mais se pode dizer? Apenas que fabricavam calçados duradouros e de boa qualidade.
    Talvez esse seu histórico-familiar fosse responsável por sua modesta educação e seu simples modo de se vestir. Por muito tempo aquela menina baixinha havia sido a única pessoa sem graça com quem, às vezes, conversava no Campus. Mas agora não sei, depois da morte de minha mãe muitas coisas mudaram em mim, eu sentia isso tão forte, me sentia diferente, e essa menina parecia me causar áspera repulsa, mesmo sabendo que talvez cuspia no prato que comi. Mas todo prato um dia é posto de lado e substituído. E o que eu posso fazer? A vida continua.


©Copyright 2010



.
(A turma se diverte no boliche)

Nenhum comentário: