Quando voltei já era noite, para mim era tarde da noite. Uma luz brilhava no andar de cima e parecia vir do quarto de meus pais. Na cozinha, o display do microondas jogava uma luz azul sobre a mesa e os armários de madeira. Abri a geladeira, a luz amarela clareou tudo por um minuto, havia caixas de suco pronto em sabores diferentes, sem escolher enchi o copo com suco de maracujá. Não é um dos meus prediletos, mas àquela hora da noite me ajudaria a dormir. O display mostrava onze horas, não era tão tarde, mas nunca estive fora até uma hora dessas, certamente por falta de oportunidades. Agora seriam várias as vezes em que chegaria em casa nesse tão desenvolto horário do dia.
Subi a escada até meu quarto, coloquei a carteira e o celular sobre o criado. Abri a porta da sacada e respirei o ar puro que me engoliu. O telefone tocou. Foi estranho, mas foi assim mesmo, de repente acordei-me para aquele ruído às onze e quinze da noite, ruído que parecia tão alto e repentinamente se extinguiu. Fui até a porta e pus a cabeça para fora, o corredor estava escuro, livre.—Meu pai ainda pensava estar só em casa— desconfiando que era a mesma pessoa com quem vinha falando de modo tão misterioso, desci até a sala sorrateiramente e peguei a extensão.
Estranho… não era uma voz feminina, era uma voz esganiçada, mas masculina. A voz era tão metamorfoseada que não parecia ser humana, e era inegável que o homem que falava usava algum aparelho qualquer para manipular tão bem aquele som. Um tom arrogante e agressivo.
—E então?— Perguntou o homem.
—Você não deveria ligar aqui em casa... Quantas vezes já lhe disse para me contatar no celular?
—Nada disso, doutorzinho. E quem você pensa que é para me dar ordens? Se eu digo que o menino precisa saber é porque quero que saiba.
—Eu sou o pai dele, eu é que sei o que ele deve ou não saber.
Eu permaneci atônito na extensão, ninguém desconfiara de minha presença na linha e isso me permitiu continuar ali, fazendo suposições mentais sobre os rumos que tomavam aquela conversa.
—Nada disso, você sabe o que eu quero. Já lhe disse que se a verdade não for dita, coisas vão começar a acontecer. E você não vai gostar, eu tenho certeza que não.
—Me diz quem é você seu covarde. —Meu pai parecia apoplético.
—Covarde é você que tem medo do seu filho fajuto, aquele garoto que te chama de pai nunca foi seu filho, você sabia que mais cedo ou mais tarde a Paula iria falar a verdade.
—A Paula está morta.
—Foi assassinada e você sabe disso,—O que era aquilo? Minha mãe assassinada, e essa história toda?— você nunca gostou dela, Marcos. Chamava-a de piranha e nunca a perdoou por ela ter te traído em plena lua de mel. Eu só tenho uma duvida, será que foi lá que ela se engravidou do Augusto?
—Seu canalha, eu amava a Paula e amo meu filho.
—Ama mesmo? Ou é só culpa por ter matado a mãe dele? — Meu Deus! O que acabara de ouvir? —Me diga? —Continuou a voz metálica. —O que aconteceu naquela tarde antes de Paula pegar o carro e sofrer o acidente? Você bateu nela, não bateu? Quem é cachorro doutor Marcos? Vamos, me diga.
—Vá para o inferno. —Ouvi o barulho do fone socando o aparelho. A porta do quarto abriu-se, em segundos ele se moveu e agora estava no alto da escada, eu ainda segurava o fone do aparelho da sala na mão. Até então, sem reação alguma. Não fazia idéia do que fazer, estava sem resposta de como deveria agir. O fone ainda na mão. Lembrei-me do velório, daquela cena horrível no hospital quando a vi toda desfigurada como um cadáver mutilado. Passaram-me cenas na cabeça de longas e antigas discussões entre os dois. Olhei-o na face e vi o rosto de um homem frio e vingativo.
O susto ao me ver ali fora disfarçado, dissimuladamente embutido. Assim que ele pensou em descer os degraus eu já sabia o que fazer, deveria me manter longe daquele monstro, tanto quanto fosse possível. Coloquei o fone de volta, ele já sabia o que eu acabara de escutar. Desceu inseguro, fitando-me com precaução.
—Eu não vi você chegar… —Por ódio, medo ou rancor, sei que chorei.
—Eu não acredito que você tenha parte nisso tudo… Seu assassino. —Me afastei, fiz o contorno em uma poltrona e subi a escada em direção ao quarto. Peguei as chaves, soquei-as no bolso e desci novamente, ele enchia um copo com uísque. Estávamos tão transtornados.
—Augusto, eu sei o que você acabou de ouvir, mas não é verdade, meu filho.
—Seu desgraçado,—Eu gritei como nunca havia feito, não sei nem de onde saiu tal palavra. — você matou minha mãe.
—Augusto, foi um acidente, eu. . .
—E essa história de que eu não sou seu filho… quer saber? Eu sempre suspeitei, eu suspeitei a vida inteira.
—Meu filho nada do que você ouviu é verdade…
—Não interessa, o principal eu já sei, você não é meu pai e matou minha mãe… Agora eu entendo porque você sempre me rejeitou. Te dou toda razão agora, você não precisava me amar, não era sua obrigação. Agora que já se vingou de nós dois, você pode comemorar bebendo seu uísque e rindo sozinho… Eu não acredito que você tenha feito isso com ela… —Eu estava fraco em minha dor, ele tentou aproximar-se.
— Eu te odeio.
—Augusto, você precisa me escutar… Eu não sei quem é esse sujeito, eu não fiz o que você está pensando… Nós precisamos conversar.—Se aproximou mais uma vez, como se quisesse me dar um longo e calmante abraço.
—Sai de perto de mim.—Eu o empurrei com violência, aquele homem não merecia meu respeito, abri a porta e chamei o elevador. Segurei com bastante força a maçaneta da porta pelo lado de fora. Para que ele não abrisse.
—Onde você vai, Augusto? Eu não acredito que você vai sair uma hora dessas, nesse estado. —Ouvi-o do outro lado. —Precisamos conversar.
—Eu não tenho nada pra falar com você. —Uma dor se apossava de todo meu corpo, não sei como descrever tal sensação, mas sei que é poderosa demais. Te preenche, lhe dá forças, extermina esperanças. E eu me remoia agarrado a maçaneta da porta. O elevador chegou, de dentro dele ainda pude ver o rosto daquele homem antes que a porta se fechasse por completo. Olhei-me no espelho, eu também era um monstro, irreconhecível. Acima de mim, a câmera filmava todo o interior e expunha o drama, o porteiro acompanhava a cena em monitor sem cores que eram transmitidas ao vivo, instantaneamente.
Bati minha cabeça contra as paredes do elevador, chutei-as com força, chorei em berros.
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.(Augusto pega a extensão para ouvir a conversa de Dr. Marcos)

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