segunda-feira, 3 de março de 2014

10 - HERANÇAS DE DNA

Trilha: Alice in Chains - a looking in view






                                  Dentro do carro, saindo do prédio, precisava extravasar o ódio possesso e corrosivo. Pisei no acelerador e fui em direção ao hospital. Até a clinica onde ele passava os dias se escondendo, onde toda minha infância e adolescência ele se trancou na tentativa de curar estranhos enquanto seu suposto filho precisava de seus cuidados. Enquanto seu único filho precisava de toda a atenção.
   Desliguei o motor, respirei algumas vezes, tentando simular uma espécie de tranqüilidade indispensável no momento. Caminhei como um exterminador até a porta de vidro que dava na recepção. Não pude deixar de chamar atenção a uma hora daquelas, uma das recepcionistas me perguntou se poderia me ajudar. Sim, enfiando seu dedo médio bem no seu traseiro, eu pensei. Por sorte me aparece, Ismael, um velho amigo de meu pai. Haviam estudado juntos na universidade, ele percebera minha presença e viera de encontro.
—Augusto? Posso ajudar você?
—Meu pai pediu para que apanhasse algumas coisas no seu consultório. Nada de mais, só um material para estudo.
—Tudo bem. —Disse ele à recepcionista. —Pode vir comigo. —E seguiu pelo corredor iluminado por luzes fluorescentes. Fiquei pensando em como entraria no consultório, e também numa forma eficaz de despachar aquele velho gordo para algum lugar bem longe. —Você sabe, qual é, não sabe? Infelizmente não vou poder te acompanhar, Augusto. Tenho um paciente me esperando e pelo que me parece um homem com uma bala alojada em uma das pernas acabou de dar entrada. Ai ai… —Lamentou. Eu fingi procurar as chaves no bolso.
—Meu Deus, acho que deixei as chaves em casa… Onde eu estou com a cabeça? —olhei-o —Por acaso…
—Chaves? —sorriu —Eu tenho sim, seu pai deixa uma cópia comigo, eu faço o mesmo. Pode ser necessário em certas situações. —Retirou uma chave de um molho, que guardou novamente no bolso da calça, e me entregou. —Quando sair, devolva para aquela moça da recepção.
—Pode deixar, Ismael. Obrigado. —Ele se virou e seguiu pelo corredor de acesso aos quartos. Agora eu estava sozinho e com o freepass na mão, um sorriso malévolo no rosto. Possuído por um sarcástico demônio. Caminhando em passos largos e lentos, sentindo a chave com a ponta dos dedos.
    Entrei no consultório, e tomei o cuidado de trancar a porta. Acendendo a luz, a primeira coisa que pude ver foi um porta-retrato sobre a mesa com a foto de minha mãe. Num canto oposto, próximo a porta do banheiro, estava minha raquete de tênis, que havia deixado lá alguns meses antes. Fora exatamente em uma tarde em que nós dois passamos por lá, após uma partida no clube. Lembro-me de ter descido com a raquete do carro e minha mãe se assustou perguntando-me o porque de estar carregando a raquete, eu disse, em tom de brincadeira, que era para quebrar o consultório dele, e ela sorriu dizendo que não seria de todo mal.
    Nem sei o porquê de termos parado lá aquela tarde, acho que estávamos por perto e ela queria lhe falar sobre a proposta de compra que recebera pela casa de campo. Assunto que o desagradou ao ponto de nos pedir para que nos retirássemos dali, estávamos atrapalhando seu trabalho. Então fomos para um shopping da região e compramos oitocentos reais em livros, mamãe comprou uma espécie de auto-ajuda psicológica que se chamava “Cuide de seus filhos e seja amado por eles”, pediu à balconista que embrulhasse em papel colorido. Seria um presente para papai. Lembro-me da cara que fez quando o recebeu, enquanto isso nós folheávamos todos os outros que havíamos adquirido para nosso próprio prazer, e eu estava satisfeitíssimo com os contos de Hemingway em três volumes.
    Mas agora a raquete estava ali, na minha frente, bem ao meu alcance. O ódio se acumulou de tal forma que se propagou por todas as ramificações nervosas do corpo e parecia muito próximo de querer me explodir, explodiria os rins, o fígado, os pulmões e o intestino. Peguei minha raquete e quebrei todo consultório, rachei o tampo de vidro da mesa, rasguei o estofado das cadeiras com um estilete, arranquei as cortinas e risquei com canetão todo o papel de parede, espalhei todo tipo de papel que encontrei, não sobrou nada inteiro ou no lugar, a não serem algumas revistas que fingi ter ido buscar, e eu o mesmo, em minha estrutura corpulenta e aparentemente forte.
    Sentir o gosto de satisfação percorrer as veias fora esplendidamente prazeroso, era como uma boa e tranqüilizante doze de anestésico sendo injetada lentamente, vinha da espinha direto ao cérebro. Reconfortando os pensamentos, criando sensações, bloqueando todo e qualquer peso de consciência.
    Dei uma última olhada e tranquei a porta.
    Fui andando devagar e calmamente pelo longo corredor, claro como uma passagem para o além, o que fazia sentido já que aquilo era um hospital. O sorriso cínico de satisfação brotava no rosto como ervas daninhas, como se eu acabasse de gozar. De longe pude ver Ismael, com seu jaleco branco, fazendo algumas anotações sobre o balcão da recepção enquanto conversava com um dos enfermeiros. Devolvi-lhe a chave.
—Obrigado, Ismael.
—Demorou bastante.
—É que eu aproveitei e organizei algumas coisas, meu pai anda muito sem tempo, estava uma bagunça, sabia?
—Que bom que vocês dois estão se dando bem agora.
—Você nem imagina!
   Despedi-me de Ismael e peguei o elevador que me levaria até a garagem interna do hospital, sentia um leve arrependimento enquanto os números em minha frente brilhavam de forma decrescente. Mas não durou muito, não durou quase nada. Foi apenas um frio vento que passou entre meus dedos, e talvez uma consciência culpada que não tinha motivo algum para se sentir assim.



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(Dirigindo pela cidade, rumo ao Hospital)

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