Olhando para o relógio, era quase uma da manhã, mas só me veio um rosto. O mesmo rosto que, muitas vezes sem querer, permanecia comigo durante o almoço e todo resto do dia. E ele ficava mais nítido nas horas do banho, era como se naquela hora ele pudesse se materializar ali. Fui à casa de meu único amigo, o único que poderia me ouvir e me ajudar, Vinícius.
Fico pensando comigo que seria tão fácil se as pessoas simplesmente pudessem fazer o que quisessem, se Carol pudesse acertar a cara de Julia com um tapa certeiro, o motorista de ônibus pudesse deixar mais cedo o trabalho para jantar com a família, se meu professor de Geografia pudesse reprovar todos os alunos, somente por se sentir frustrado, ou se Bush pudesse bombardear o Irã até não sobrar mais nada, se eu pudesse tocar o Vinicius só pra sentir o calor que o corpo dele tem, porque o meu é frio. Fico pensando nisso e ao mesmo tempo acredito que a vida assim não prestaria, a falta de regras e excesso de liberdade só deixaria o mundo mais louco do que ele é. Precisamos de repressão, leis judiciais, ameaças religiosas, precisamos ter medo, medo de perder o trabalho ou apanhar ao acusar alguém. Então a liberdade que tanto almejamos não passa de uma história para dormir, um sonho irrealizável, já que no fundo sabemos que antes de sermos livres precisamos nos sentir protegidos.
Do lado de fora a casa parecia inabitada, tomada por uma escuridão que certamente os faziam dormir, liguei-o no celular. Assim que atendeu, com voz de sonho interrompido, pedi para que me encontrasse na esquina. Não poderia ser em outro horário, ele teria que se levantar e me encontrar em dez minutos. Em menos de dez ele apareceu, não como costumava vê-lo, estava exatamente como costumava dormir. Cabelo embaraçado, bermuda curta, camiseta sem mangas e chinelos de dedo. A cara já amassada pelo travesseiro.
—O que deu em você?—Perguntou entrando no carro, a capota estava fechada. —Aconteceu alguma coisa?
—Seus pais estão em casa?
—Estão dormindo há horas. O que você tem? —Ele parecia preocupado. Não duvido que não estivesse.
—Minha mãe não morreu coisa nenhuma.
—Do que você está falando?
—Ela foi assassinada, Vinicius. Meu pai deve ter armado alguma coisa, acho que ele a matou.
—Augusto, você pirou?
—Não. Esta noite quando cheguei do shopping percebi que meu pai estava no telefone, ele andava muito misterioso nos últimos dias. O fato é que eu peguei a extensão e ouvi tudo, ele falava com um homem que eu não sei quem era, mas pensando melhor agora, a voz parecia-me familiar.
Contei-lhe toda historia, me emocionei novamente, fui tomado por magoa e rancor outra vez, e quando terminei vi que Vinícius estava tão surpreso quanto eu. Apenas escondi minha visita ao hospital. Acho que ele não entenderia as razões.
—O que você pensa em fazer?
—Vou fazer ele pagar por tudo.
—Você não acha melhor ligar para policia? Eles vão descobrir se isso é verdade ou não.
—Isso é verdade, Vinícius —Cheguei a ser agressivo. — Eu ouvi, eu via como ele tratava a gente. E polícia nesse país não vale nada, e nem uma prova eu tenho para acusar ele. O que eles vão fazer? Desenterrar o corpo dela? Acho que nem uma perícia no carro eles fizeram… são uns incompetentes.
—Mas se ele queria matá-la, porque ele não fez isso antes, porque ele esperaria até agora?
—Sei lá, muitos sentem prazer em torturar a vitima antes de realmente matá-la.
—Isso parece loucura, Augusto… Não dá para acreditar assim…
—Eu posso passar esta noite aqui?
—Claro que pode. —Descemos do carro, acionei o alarme e o deixei ali mesmo, de frente a casa.
Às vezes não sabia o que tinha, as vezes sentia algo tão forte por Vinícius, que só podia ser comparado ao ódio por aquele homem que dizia ser meu pai. Nessa noite em que dormi em sua casa, observei-o tirando a camisa para se deitar e senti uma atração até agora não conhecida e incompreensível. Algo dentro de mim pulsava, crescia, e parecia capaz de me acabar num só golpe. Mesmo sem entender, sentia-me aberto a deitar-me ao seu lado, sentir seu cheiro o mais perto possível. Aquela pele branca parecia-me tão doce e suave, parecia possuir um aroma natural incomparável àqueles perfumes amadeirados caríssimos que se compram em lojas de importados.
Era uma sensação de querer morrer, ou de simplesmente trocar toda sua vida por um único desejo. Eu me sentia tremer, como se compostos químicos explodissem vagarosamente em meu peito, e se espalhassem com a mesma lentidez com que explodiam. Como algo radioativo, que destrói tudo o que ousa tocar. Borboletas no estomago.
As lágrimas, em silencio, rolaram sem nenhum controle, sem nenhuma observação critica. Também, nada podia impedi-las de cair.
Estava sentado na cama ao lado, sem camisa, pronto para deitar. Ele se olhava em um espelho de parede a procura de cravos na pele, mais um passo e ele caia na cama. Meus olhos não tinham outra utilidade a não ser olhá-lo. Num exato momento nossos olhos se cruzaram no espelho, ele percebeu as malditas lágrimas. Virou-se num movimento preocupado e se sentou, passando seus braços nus sobre meus ombros, que também estavam nus. Pele na pele. Os compostos químicos passaram a se movimentar rapidamente.
—Sai daqui Vinícius… —Eu disse tirando seu braço dos meus ombros.—Você não vê que assim você só complica?
—O que você tem? … Não consigo te entender.
Levantei-me, peguei minha camisa sobre a cadeira da escrivaninha, me vesti e logo depois sai do quarto e fui embora. Abri a porta da casa do menino, apertei o interruptor que abria o portão e sai sem me despedir. Eu estava ficando louco? O que é que eu estava fazendo?
No fundo senti que era mais fácil enfrentar meu pai do que aquele mundo desconhecido que era estar ao lado de Vinicius, eu queria não ter que me preocupar com tal sentimento, mas isso é um troço que querendo ou não te perturba, não parece fluir naturalmente, exige de você uma decisão. Entrei no carro, sai dali mesmo sabendo que talvez me sentiria melhor dormindo dentro do carro. Mas na rua? E se amanhecesse morto no dia seguinte? Talvez fosse mais seguro fazer isso no estacionamento do prédio. Só o porteiro saberia, só ele veria um carro chegar e passaria horas a espera de que alguém descesse. Mas e dai? Ele me vira batendo com a cabeça contra as paredes do elevador.
Esse meu plano falhou assim que entrei na garagem, o carro dele não estava lá, o que significava que não estava em casa. Eu podia subir em paz. Já passavam das duas, ainda assim liguei o aparelho de som da sala, subi até meu quarto e peguei um do Rage Against the Machine, “Evil Empire”; meti o troço na gaveta e dei play para iniciar, aumentei o volume sem me importar com eventuais vizinhos. Sentia a bateria soar dentro de mim e meu sangue fervia, peguei uma garrafa de uísque no bar e a virei no copo sem calcular doses. Aquela garrafa sempre estivera ali, eu nunca havia posto álcool em minha boca, e naquele dia descobri como poderia ser libertador. Parece diluir toda dor, de uma forma estranha, mas profundamente eficaz. Eu tinha tudo àquela noite, todo tipo de infecção, eu sentia ser o dono dessa história.
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(Todos dormem na casa de Vinicius)

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