terça-feira, 24 de junho de 2014

12 - O DONO DESSA HISTÓRIA

Trilha: Explosions in The Sky - six days at the bottom of the ocean






                         Acordei às seis da manhã, o despertador ao lado da cama despertara em ponto. Movi o braço, com a cabeça ainda sob o travesseiro, com a intenção de desligá-lo. Acabei deixando-o cair no chão, o barulho seco do troço se espatifando sobre o piso me fez saltar, o sono se dispersara com o estrondo. Sentei na cama e a cabeça girou, pesada. Aquilo não me parecia nada bom. — antes de sair tomei uma aspirina que Maria pegou para mim. Ela já estava pondo a mesa do café, mas não sentia fome, não tinha estômago, e não queria cruzar com o sujeito logo cedo. Pura besteira, mesmo adiando sabia que o encontro, quando ocorresse, seria suntuoso.
    Naquele momento de total embriagues em que me encontrava ontem, não me senti bacana nem o tal, na verdade me senti ridículo, mas gostei da sensação produzida, naquele instante foi como se nada importasse, claro, tudo tinha acontecido de fato, minha mãe havia partido, meu pai estava metido nessa coisa estranha, mas eu não estava nem aí para nada disso. Talvez seja isso que acontece quando as pessoas dizem ter afogado as mágoas na cachaça. Terrível é quando se deita para dormir, as coisas começam a rodar estranho, alguns móveis que estão no chão parecem flutuar momentaneamente. Tudo isso te dá um enjoou. Fechei os olhos para não vomitar.
    Passando pela estreita estrada de acesso ao Campus, diminui a velocidade e fui observando por entre as arvores. Era raro o dia em que não os via por ali antes da aula se iniciar. E lá estavam eles, no mesmo lugar de sempre, próximo ao tronco caído. Desliguei o carro no acostamento, desci e caminhei, pisando em centenas de folhas secas que caiam das arvores aquela época do ano. Formando um maciço tapete natural. Quando cheguei bem próximo, ao ponto de parar, estava de frente aos três, que pareciam me questionar com olhares cheios de palavras.
—Como vão? —Perguntei.
—Bem, e você? —Renato precipitara em responder.
—Minha cara deve estar contando alguma coisa. —Carol que procurava algo dentro da mochila, e até então não havia dito nada, interrompeu-se e me olhara, esquadrinhado-me.
—Meu Deus! Você estava na farra em pleno domingo? Você deve ter bebido todas.
—Não é o que está pensando.
    Caio tomara a mochila das mãos de Carol e se propôs a achar o que ela estava procurando, em poucos segundos retirou uma carteira de cigarros de seu interior e lhe mostrou com ar de Vitorioso.
—Nossa! Se fosse uma cobra… —Carol estava surpresa.
—O que vocês fazem aqui?
—Conversamos… fumamos um cigarro, - acendeu um com seu isqueiro acrílico rosa. — Vamos entrar só na segunda chamada, aceita um? São americanos, uma prima chegou de Wisconsin essa semana e me trouxe algumas carteiras desse ótimo cigarro. Aceita?
—Não… —Pensei. —Eu não sei fumar.
—A primeira vez é sempre horrível, e você vai tossir como uma besta. Mas depois aprende. —Disse ela ainda segurando a carteira em minha direção.   Na duvida, mas movido pelo impulso aventureiro da descoberta, retirei um da carteira. Em seguida a carteira fora para as mãos de Caio que passou para Renato posteriormente. Todos acenderam seus cigarros e eu, pela primeira vez levei o meu a boca para também acendê-lo, é indispensável que se observe antes para se ter um modelo de como deve ser feito. Quando aspirei a fumaça senti um ardor tão forte que meus olhos suaram e fumeguei por inteiro, quando tossi eles riram e Caio disse que era normal. Ao final do cigarro eu havia conseguido tragar de forma honesta pelo menos uma vez.
—Então? Você não vai nos dizer o que foi que aconteceu? —foi Renato, quem disse.
    Contei-lhes toda história, incluindo a quebradeira que promovi no consultório, aquele era o pequeno clímax da história, e todos vibraram com os detalhes. Repassando e contando novamente, toda aquela história me parecia tão irreal, que não lembrava minha vida e sim cenas de um filme estranho e desconjuntado.
—Eu não acredito, Augusto! —Ela estava boquiaberta. —De ontem para hoje você fez tudo isso?
—Não, Carol…Isso foi o que fizeram comigo. Mas é tudo verdade, podem acreditar.
—E você vai deixar isso de graça?—Se levantou do tronco e acendeu um novo cigarro. — Você tem que dá o troco, essa quebradeira na clinica foi pouca coisa perto do que ele fez. —Fez uma pequena pausa reflexiva.— Mas como você tem certeza de que ele realmente matou sua mãe?
—Você não acha melhor ir a policia, cara? —Perguntou Renato.
—Eu pensei nisso, mas o que eles poderiam fazer? Interrogá-lo?
—Comigo é dente por dente, olho no olho. —Disse Carol.
    De onde estávamos a sirene era perfeitamente audível. Ou entravamos na segunda chamada, os próximos cinco minutos, ou poderíamos ir embora pois não haveria uma terceira. E além do mais, nossos pais seriam contatados e avisados de nossa ausência sem justificativa. A segunda chamada já deixaria uma marca em nossas agendas. Um carimbo vermelho sinalizando alerta.
    Assim que entrei pude ver Vinicius me olhando como se eu tivesse chegado em um encontro atrasado. Era exatamente como me olhava seus olhos castanhos, claros e doces.  Apenas me sentei, relembrei a noite anterior e indiferente permaneci no meu lugar, em sua frente. Logo senti uma quente e lisa mão apertar um de meus ombros, como quem aperta algo que deseja. Você sabe. 
—O que foi?
—O que deu em você ontem?
—Me desculpa, eu estava com a cabeça quente.
—Eu faço idéia… E hoje? Você nunca chega na segunda chamada.
—Tem sempre uma primeira vez.—Disse rispidamente.
—Além disso está fedendo cigarro. Eu estou sentindo.
    Virei-me e o encarei.
—É o que acontece quando alguém fuma.
—Você andou fumando?
—Ah! Vinicius, pelo amor de Deus!
—Você precisa falar com o seu pai…
—Não, você está enganado. Eu não preciso falar com ele. —Era difícil falar sobre essas coisas dentro de sala, talvez, apenas não impossível pelos barulhos e chiados que faziam os idiotas do fundão.
—Liguei na sua casa agora de manhã para saber se estava bem, já que pensei que não fosse te ver hoje aqui. Seu pai me disse que nem sabe como você conseguiu se levantar com a meia garrafa de uísque que você tomou ontem. Você está bem?
—Eu não bebi meia garrafa de uísque, foram só uns dois copos. E para de se referir à ele como meu pai. Ele não é.
—Não muda de assunto, Augusto. E isso também não importa. —Ele se calou por um pequeno tempo, estávamos conversando em baixo volume, mas o professor parecia estar interessado em nós dois. — Não entendi porque você foi embora daquele jeito.  Faz dias que você anda se comportando estranhamente, me diz coisas sem nexos, meio que se insinua. Acha que eu não percebo? O que é que está acontecendo?
—Você sabe o que está acontecendo… O que não sabe é porque talvez não queira saber.
—Então me diz o que é. —Ele colocou a palma da mão direita sobre o rosto, na altura da boca, para impedir que Elizabeth Prado Cardoso, que sentava ao lado, lesse seus lábios. —Eu já provei ser seu amigo.
—A única coisa que te diz respeito Vinicius, você já sacou há muito tempo.
    Voltei a olhar para frente, abri o fichário com a intenção de copiar a matéria já lançada no quadro. Senti-o se aproximando.
—Se eu fosse você tomava cuidado com a Carol. —Ele disse ao pé do meu ouvido. E eu gostei do ar quente e do cheiro leve de seu hálito, que pouco consegui sentir. 



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(ressaca pela manhã)

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