As aulas no Campus duravam em torno de uma hora, às vezes menos. Como era o caso da professora Giordane, que lecionava Química geral e terminava todas suas aulas com no mínimo dez minutos de antecedência, ou no caso do professor Frans, de literatura, que fazia com que a aula fosse tão prazerosa que os sessenta minutos se tornavam imperceptíveis. Com seis aulas por dia, inclusive aos sábados, e um intervalo de meia hora para alimentação e descanso coletivo das mentes estudantis, o ultimo sinal soava às treze e trinta. E programas para a tarde só bem tarde, pois quatorze horas era o momento em que chegávamos em casa, jogávamos a mochila, afrouxávamos as gravatas e após um banho redentor, sentávamos a mesa para uma verdadeira refeição. E não havia um dia em que não nos entupíamos de material para estudar e exercícios de casa, trabalhos e pesquisas cansativas. Uma merda só. Não que eu não gostasse de estudar, mas além do ritmo daquele castelo de horrores ser quase desumano, aos dezoito anos o que a gente mais quer é se divertir.
Durante o intervalo, o pejorativo recreio após sairmos do refeitório, eu estava sentado com Carol, Renato e Caio num dos bancos do pátio interno quando notei que Julia estava vindo em nossa direção.
—Olha quem está se aproximando, a senhorita Mosquita. —Observou Carol.
—Estou atrapalhando alguma coisa?—Quis saber.
—Na verdade não, nós estávamos falando de você, de como você é sonsa e destemperada, mas já havíamos dado o assunto por encerrado.
—Você é tão boba, Carol. —Disse Julia, com expressão de quem olha uma vaca parir.
—Quem é você para falar mal de alguém, Julia Mesquita? Você usava franja nos anos noventa.
—Que graça você acha nessa menina, Augusto? —Não nos poupou de seu desdenho. Como se gostar de Carol fosse algo repugnante a toda uma sociedade, a todo ser humano honesto e sensato.
—Julia eu não estou te entendendo… que eu saiba ninguém te chamou aqui.
—Como você está grosso, por acaso eu lhe fiz alguma coisa?
—Fala logo, Julia.
—Na verdade eu quero falar com o Vinicius e acho que vai ser inevitável não tocar naquele assunto, você sabe… levantei-me exasperado e arrastei-a comigo por alguns metros.
—Por quê? Se eu soubesse que você iria abrir essa sua boca eu não tinha te contado.
—É que eu estou achando essa historia muito esquisita. Ele não parece…
—Ok, tudo bem, então. —Disse interrompendo-a.
Fui rápido ao pensar, precisava sair daquela de forma a continuar ainda por cima. Mesmo que para isso fosse necessário crescer um pouco mais a história. De qualquer forma, evitar que ela falasse a respeito com o Vinicius seria algo quase impossível. Uma hora ou outra ia acabar soltando a língua.
—Espera ai que eu vou falar com ele primeiro. Você sabe, preciso me explicar e confessar que eu acabei contando um segredo dele para você. Se ainda formos amigos depois disso eu te dou permissão… se ele concordar, é claro!
Levantei-me e enquanto fui falar com Vinícius percebi que Julia e Carol não paravam de discutir. Ele ainda lanchava numa mesa do refeitório. Comia sozinho, sentei-me no banco em sua frente.
—Oi, Vinícius!
—Oi! — terminou de mastigar. —já faz algum tempo que não sentamos na mesma mesa durante os recreios.
—É por que… Eu e a Carol… Nós estamos no mesmo grupo de biologia, e nem foi nós que escolhemos o grupo, você sabe. Então a gente passa o recreio falando sobre o trabalho.
—Eu não gosto muito daquela garota, Augusto. Aquele dia então, no boliche, achei-a extremamente artificial.—mais uma mordida no hambúrguer.
—Deixa eu te falar.
—diz.
—A Julia está querendo falar com você.
—E porque ela te disse isso, em vez de falar de uma vez?
—Não sei, você sabe como é a Julia. Às vezes aparece com umas histórias meio sem pé nem cabeça.
—Mas, sobre o que é?
—Ela quer saber sobre sua coleção de chaveiros. E está morrendo de vergonha de vir falar com você, porque fui eu quem disse a ela que você curtia e tudo… entende?
—Sobre a minha coleção de chaveiros importados?
—Exato, rapaz. Só te peço uma coisa, seja o mais discreto possível. Não precisa ficar dando informações demais, entende?
—Não estou te entendendo... Mas beleza, manda ela vir aqui.
—Beleza, então. A tarde eu apareço lá na sua casa… pode ser? —Ele sorriu como sinal positivo. Ao voltar, mal consegui disfarçar a euforia ainda contida. Havia a possibilidade de dar tudo errado, é claro… Mas eu não contava com ela, e até daria um dedo do pé para ouvir a conversa. Confesso ter esboçado um dissimulado sorriso ao lhe falar.
—Tudo bem, Ele pediu para você ir até lá. Mas por Cristo, Julia! Você não deve usar palavras como gay, bicha, veado, fruta e nem nada assim para ele. Ele não gosta, entendeu bem? Não corra o risco!
—Eu entendi sim, Augusto. Obrigada, pela a dica.
Vinicius saia do refeitório, eu me sentei novamente entre Caio e Renato e de longe pude ver Julia se aproximar. Tanto Carol, quanto os rapazes não se conteram quando lhes disse o que se passava.
—O Augusto disse que você queria conversar comigo.
—É que quando ele me contou eu não acreditei. —Sentaram-se num banco distante.
—Normal... Ninguém acredita… não é muito fácil você achar alguém que tenha. Eu até hoje não conheci ninguém, a não ser pela internet.
—No outro colégio onde estudei, antes de vir fazer o segundo grau aqui, tinha uma menina, mas ninguém gostava dela.
—Por quê?
—Ela era meio esquisita. Não sei como te dizer…
—Não precisa, eu sei como é… as pessoas normalmente não entendem você ter um tipo de fissura nessas coisas.
—E você? Quando descobriu que gostava...?
—Ah! Eu tinha uns doze anos, o primeiro a me dar foi meu tio.
—Mesmo? Ele também gostava?
—Não, era meu aniversario.
—Nossa! E como foi? Quero dizer, com o seu tio?
—Tenho maior carinho por esse, foi o primeiro e daí em diante é que fui me interessar de verdade.
—Então foi ele que de certa forma…?
—Ele viu que eu tinha gostado e um tempo depois ele voltou a me dar.
—E foram só essas duas vezes?
—Do meu tio sim, mas meus amigos costumam me dar muito. Alguns primos também. Todo mundo sabe que eu gosto, então quando podem eles me dão. Se você se interessar em ver…
—Ah, não… Obrigada…E você não tem vergonha?
—Eu não, eu tento retribuir na medida do possível.
—Então é uma troca, é isso?
—É como se fosse.
—E seus pais? O que eles acham de tudo isso? Eles sabem?
—Lógico Julia, eles acham que isso é vício, mais me dão maior apoio. —Julia parecia terrivelmente conturbada.
—E o Augusto?
—O que tem o Augusto?
—Você já...? Você sabe.
—Não, uma vez eu pedi ele, mas pra falar a verdade, acho que o Augusto não é muito chegado nessas coisas, ele gosta de musica. Mas me prometeu que um dia vai me dar algo assim de recordação. O que vai me deixar muito feliz, vai ser mais um pra coleção, né? Se um dia quiser eu posso te mostrar todos. —Julia parecia estar sem palavras.
Tempos depois vi que ela vinha em nossa direção e me levantei para encontrá-la.
—Como foi?
—Eu estou chocada, ele é assumidão. Me contou cada coisa que eu fiquei de boca aberta.
—Eu não te disse, semana passada ele queria ir para cama comigo.
—Ele me contou, aquele sem vergonha. Chegou a me perguntar se eu queria ver todos os caras com quem ele já ficou. —Eu queria muito soltar uma grande gargalhada na cara dela.
—Não é para você sair espalhando por ai. —Sentenciei.
—Lógico, se o diretor vier saber algo assim, ele estará marcado. Você sabe como são essas pessoas que dizem ser cheias de moral e bons costumes, os conservadores, eu digo. São incapazes de saber a diferença entre meninos que se beijam e marginais que matam por um celular, um assassino de mulheres ou algo assim.
—E dizem ser os donos da razão… Nós sabemos como as coisas funcionam. —Como que num túnel rotatório, minha mente voltou ao velório de mamãe, tia Natalia enfiando o dedo no nariz enquanto o padre fazia a benção final. A noite do dia anterior, quando a última coisa que me disse fora: “Vou dormir, Augusto. Boa noite! Amanhã sairemos cedo, não se esqueça de se alimentar.“, e saiu da sala levando consigo o resto da pipoca que sobrara do filme "La mala educación", de Pedro Almodóvar. Voltei com o barulho de garotos da quinta série que passaram correndo por nós, Julia me olhava inexpressivamente. O intervalo acabara e aos poucos a multidão voltava para dentro de suas salas.
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(Hora de intervalo no Campus PH)

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