terça-feira, 24 de junho de 2014

14 - ELES NUNCA VÃO SE ESQUECER

Trilha: Grinspoon - leave it






                                       Maria trabalhava conosco há muito tempo, sempre guardava os pratos no refrigerador, ao chegar era só ligar o microondas por dois ou três minutos e estava tudo pronto. Depois comia na sala de jantar com a mesa posta ou ficava na cozinha de forma informal mastigando só por saber que isso me manteria vivo, ou ainda, engolia na sala de frente para a tevê sem dar a mínima à ação de mastigar. Neste dia havia trufas de chocolate branco como sobremesa e fora inevitável não prová-las antes mesmo do forno apitar anunciando o fim do tempo pré-estipulado.
      Estava terminando, comia ali mesmo na mesa da cozinha, meio oprimido, encostado na parede fria, vibrei ao ouvir o estrondo vindo da sala, era algo com a porta. Gelei-me por inteiro. Ouvi seu movimento subindo as escadas e as descendo logo em seguida, entrou na cozinha agitado e bateu com a palma da mão cerrada sobre a mesa. Eu ainda parecia tonto. O esporro me fez tremer nas bases.
—O que você pensa que está fazendo? —Soltou em voz alta, pensei até que talvez eu tivesse que me defender, fisicamente falando, eu digo.
—Você está ficando louco? Ou agora que descobri seus mistérios quer acabar comigo também? —Ele suspirou e deixou visível que tentava se controlar.
—Quem está ficando louco aqui é você, Augusto. —Apontou o dedo em minha direção. —O que você pensa sobre o que fez no meu consultório? Chegar a mentir para o Ismael do jeito como você fez. Você acha isso certo?
—E por acaso você acha certo o que fez com minha mãe? —Levantei-me para ficarmos na mesma altura. —Não me venha falar de integridade Dr. Marcos… —Disse enquanto sugeria que estava próximo de deixá-lo ali sozinho. — Quer saber? —Forcei uma cara de quem não se preocupa com as coisas—Minha intenção é te matar aos poucos. Espero que tenha gostado da decoração que fiz no consultório. Eu adorei, é tão moderna e audaciosa.
—Augusto, eu não sei o que te dizer. Eu não sei quem é esse infeliz que anda ligando aqui em casa com essas idéias hediondas… mas você não pode confiar em mim? Eu sou inocente, meu filho. Eu sou seu pai.
—Eu sinto nojo de vê-lo falar assim, deveria pelo menos ter a coragem de assumir os troços que faz. Você a odiava pelo modo como era tratado, eu cansei de ser movido por suas criticas durante toda minha vida, por algum motivo você parecia me odiar também.
—Eu te odiava? Augusto, você está distorcendo tudo…
—Olha aqui. —Que merda, eu sou sensível demais, e é preciso mostrar firmeza em uma hora dessas. —A gente sente, sabia? Você acha que eu não percebia suas criticas direcionadas à mim, seu rancor por ela não te tratar como você acha que merecia? Eu sabia disso… eu sabia do desprezo que minha mãe sentia por você... Eu sempre soube, mas eu não tinha nada a ver com isso. O fato é que você não tinha o direito de fazer o que fez… O que aconteceu na fazenda antes de tudo? Antes dela pegar o carro e fugir de você em direção aquele acidente horrível? Eu tenho certeza que vocês discutiram, e você deve ter perdido a cabeça e a ameaçado, não sei, ou dado uns tapas nela, não foi? De qualquer forma Dr. Marcos, o senhor é culpado. Na verdade você já devia ter tudo armado nessa sua cabeça de psicopata. Você mata pessoas todas as semanas.
—Pare imediatamente, você não pode falar assim comigo, está me entendendo? Eu tinha uns vinte pacientes para atender no dia de hoje, e tive de mandar todos embora. E você sabe muito bem de onde vem todo seu dinheiro.
—Eu não quero mais esse dinheiro imundo que sai do seu bolso.
—Dobre a língua quando falar do meu dinheiro, rapazinho. Passei anos na faculdade, fiz cursos na Europa e demorou um bom tempo para eu por a mão nesse maldito diploma de medicina. Trabalho o dia todo para te dar comida, roupa, revista, CDs, e esse monte de besteira que você consome todo dia. —Respirou. —Então Augusto, pense bem antes de me insultar.
—Isso você tinha que me dar, para compensar o amor que faltava.
—Esse mês sua mesada vai ser usada para pagar os estragos que você fez no meu consultório, então pense duas vezes antes de sair por ai comprando qualquer coisa.
—Eu já disse que não quero seu dinheiro, e não pense que eu não sei que a mamãe tinha um seguro de vida. Talvez de uns cem mil. Esse dinheiro me pertence.
—Só quando eu quiser, e tenho absoluta certeza de que você não está em condições de receber esse dinheiro todo agora. Acho melhor terminar seu almoço, sobre os concertos no meu consultório já estamos conversados. —Saiu em seguida, foi embora, pois ouvi a porta da sala se abrindo outra vez.
    Empurrei o prato da mesa que se quebrou ao chocar-se com o chão e sujou todo o piso branco com espaguete e molho de tomate. Dane-se, pensei. Subi até meu quarto, peguei as chaves, desci novamente e no hall chamei o elevador. Peguei meu carro e fui até a casa de Vinícius como havia prometido.
     Ele estava só em casa, e como de costume subimos para o quarto e ouvíamos musicas enquanto conversávamos, naquela época a gente não precisava de nada para estar bem, a gente não precisava de bebidas, de cigarros, nada que hoje me faz tanta falta. 
     Seu quarto era espaçoso, no segundo andar da casa, bem mais amplo que o meu; o quarto comportava uma espécie de anti-sala com uma poltrona para leitura, uma pequena mesa de centro e uma tevê trinta e duas polegadas. A minha era melhor, maior, fixada na parede, e durante a noite meu quarto se transformava em um verdadeiro cinema. Os moveis do quarto de Vinicius eram todos em madeira, armários e estantes embutidos onde se guardavam roupas, livros, discos e DVD’s. A cama e os criados, também de madeira, contrastavam com as paredes de um marrom opaco, e o acinzentado das cortinas.  Seu Apple estava ligado, o monitor demonstrava o fluxo dos downloads, a substância que se transmitia invisivelmente. 
    Ele estava meio largado na cama enquanto eu folheava uma revista sentado na cadeira rotatória, uns exemplares da “Super interessante” que ia se acumulando em seu quarto no decorrer dos meses e depois ia parar dentro das gavetas. Ultimamente ele ficava me fazendo perguntas sobre meu pai… parecia ser seu assunto favorito.
—Eu não quero saber desse cara não, Vinicius. Vou fazer ele pagar tudo. Você vai ver. Ou então, estou pensando em me mandar de casa, só preciso pegar o seguro de vida que minha mãe deixou.
—Você não tem certeza de nada, o que você ouviu no telefone foi um estranho supondo que seu pai matou sua mãe, você não pode levar só isso em consideração. Como se fosse a verdade absoluta… Transformar sua vida num campo de batalha por isso?
    É muito fácil supor quando se sabe que não é você que tem que lidar com toda merda que fede em sua volta.
—Deixa isso pra lá. —Eu disse. —Me conta como foi sua conversa com a Julia.
   Ele narrava toda a cena, a conversa entre ele e Júlia e eu acompanhava como se fosse o ultimo capitulo da novela, se eu fosse cara de gostar de novelas, é claro. Às vezes alguns detalhes se tornavam tão engraçados que não conseguia segurar um sorriso de divertimento e começava a rir, ele não conseguia entender… Não conseguia captar a importância que tinha dentro de seu próprio conto. Se contasse no dia seguinte para Carol e os rapazes, com certeza teriam um ataque e ririam disso toda a manhã.
    O som estava tocando uma música lenta, que aspirava um tranqüilo momento reflexivo, ele estava deitado de frente para a janela, as cortinas abertas deixavam um hipotético sol iluminar o ambiente, e o céu era de um azul manso que sustentava algumas nuvens esparsas e claras como algodão, era uma tarde fresca de sol. Num movimento inconsciente e muito natural, deitei-me ao seu lado, ali na cama. E foi aí que vi o céu como disse anteriormente. Logo que senti as costas sobre o colchão, pensamentos invadiram minha mente, nada que eu antes já não houvesse pensado. Minha motivação não era quase nada perto do desejo que verdadeiramente me encorajava a querer. Apenas isso, eu o queria, e só pensava nas possibilidades, nos prós e contras, na racionalização de algo que para mim ainda era insanidade mental.
      De repente um silêncio tomou conta de tudo, um silêncio de vozes apenas, deixamos o mundo externo para olharmos nos olhos, ele começou, se virou pondo os dele dentro dos meus. Aí voltei a pensar se deveria fazer mesmo o que tinha vontade. Tudo bem... Sei que esse papo é meio bicha, mas dane-se, quando estava perto dele ficava de um jeito que antes não havia acontecido com ninguém. Eu sou meio impulsivo mesmo, normalmente reflito sobre as coisas depois de fazê-las, alguns psicólogos dizem que isso é ruim. Se ele estava me olhando, não havia mal nenhum eu colocar meus olhos nele também. A música que ainda tocava criou um clima, ela fez tudo vir a tona, fez tudo se remoer lá dentro, como se fosse uma maquina de lavar roupas em rotação… Desencardindo tudo, e eu não agüentava mais me conter, só tinha dezoito anos e queria por tudo para fora. Caso o contrário tenho certeza absoluta que iria explodir.
    Os olhos de Vinícius pareciam estar me chamando, queria tocá-lo, seus olhos eram como imãs que atraíram nossos lábios, nossos membros e todos nossos sentidos. Eu tomei coragem e o toquei num impulso que ele não reagiu. Nenhum beijo de nenhuma outra menina fora tão suficientemente bom e prazeroso quanto aquele. Talvez porque, nunca antes, eu quis tanto um beijo. Fora a mesma sensação de quando tomei sorvete pela primeira vez aos sete anos, já que meus pais não me deixavam comer açúcar até essa idade. Eu me lembro de comprar chicletes dos colegas de classe na primeira série e esconder dentro do colchão, num buraco que eu mesmo havia feito. Era como um tráfico. Ninguém podia saber.
    O beijo correspondido acabou por que em algum momento isso deveria acontecer. Tudo uma hora acaba e as melhores costumam ser as de menos duração, momentos. Ninguém forçou nada… Os maxilares estavam bem relaxados, descontraídos, como se falassem sem parar. Talvez só os ombros se mantinham um pouco tensos… Mas o doce e a saliva que se trocava, brandamente desembravecia o medo, a angustia e o peso.
     Quando tudo passou, e eu soube que queria mais, fiquei tão embaraçado, sem saber como agir, se deveria me afastar ou continuar ali com o rosto em cima dele, se deveria ir embora ou ficar para jantar. Eu pensei em fugir como da última vez, mas o veria na manhã seguinte e coisas assim não poderiam continuar acontecendo sem explicações, sem ele pensar que sou um total maluco. Por segundos pensei que não deveria ter feito nada. “Isso é pecado.” Diriam alguns. Quando, aparentemente, uma queda de luz fez com que tudo deixasse de funcionar, só ouvimos uns pássaros que cantavam fora, então ele falou e eu voltei a posição que antes me encontrava.
—Já é a segunda vez essa semana. —Eu ainda o olhava sem nada dizer. —A energia. —E então se moveu voltando-se um pouco para mim. —Já tinha feito isso antes? —Ele quis saber. 
—Não. —Disse meio que imóvel. 
—Também não. —Depois de um tempo, um pequeno tempo, perguntou:
—Então por que fez isso?
    Foi como se me engasgasse. Levantei-me da cama e dei uma andadinha no quarto, indo até a janela e voltando.
—…Não sei. —E por instante voltei a ficar tão perturbado ou talvez um pouco mais. Aquela pergunta era a mais banal a ser respondida. Porque eu o tinha beijado? — Eu preciso ir Vinicius, eu ainda não fiz os exercícios de Física para a aula de amanhã. —Peguei minha mochila sobre a poltrona.
—Augusto…
—Eu não gostaria de falar sobre isso agora, se não se importa. —Eu sou um covarde filho da Puta. É o que diria Renato. — Eu te ligo uma outra hora.
    O telefone fora a primeira grande invenção do homem, fora como fogo para os índios… ficamos completamente bestas. Hoje em dia o usamos apenas para falarmos com estranhos que nunca verão nosso rosto, ou para falarmos a conhecidos sem nos entregar. Eles são os escudos do século XX, nada pode nos atingir, e se atinge não deixamos transparecer. As pessoas de hoje simplesmente adoram qualquer tipo de produto que tenha o mesmo efeito. Há um novo mercado comercial sendo explorado.
      Vim embora para casa, dirigindo meu carro como um bobo legitimo, atravessando a cidade sorrindo, espaventado com as surpresas da vida e as novidades do mundo.  Era tudo tão diferente agora, eu parecia não temer mais nada, Era como se enquanto o beijasse também criasse coragem para lutar contra tudo e enfrentar quem quer que fosse. Ainda asssim havia algo bloqueando  o ar,  como se de modo invisivel alguém me estrangulasse em silêncio. O sinal se fez vermelho, parei diante a faixa, cantei a letra triste de uma canção em inglês que tocava na rádio .Ao mesmo tempo em que sentia uma indefinível felicidade o ódio por meu pai retornava frio e implacável, e me fazia uma cáustica companhia de volta para casa. 



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(Augusto e Vinicius trocam beijo)


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