Se fosse me concedido um desejo, como naquelas histórias de lâmpada de Aladim, meu pedido seria no sentido de tornar o mundo um lugar mais seguro. Aliás, um lugar totalmente seguro. A vida nesse planeta é um troço de assustar. Ontem via no telejornal da noite a manchete sobre uma garota de doze anos, grávida do pai, e pelo que constava o vagabundo vinha abusando da menina meses sem levantar suspeitas. Coisas desse tipo, coisas absurdas que humilham, agridem e destrói qualquer um de nós, jamais deveriam acontecer. Pelo menos é o que penso.
Eu vinha acordando bem cedo, não ansiava encontros com o Dr. Marcos assim pela manhã, antes mesmo de ir para o colégio. Não que eu estivesse com medo… Era só uma forma de evitar aborrecimentos matinais e de me proteger. Além disso, estava passando para pegar os meninos em casa, Carol, Caio e Renato, por isso era inevitável que saísse o quanto antes.
Primeiro apanhava Carol que morava há uns dois quarteirões de meu edifício. Fiquei desqueixelado quando soube que morávamos tão próximos. — E sempre moramos, mas nunca nos vimos. — Então subíamos em direção à praça do ratinho, Caio morava numa esquina do setor Marista, na mesma avenida onde se encontra um shopping da região. Finalmente descendo a Avenida 85, chegávamos ao setor Aeroporto e ao residencial Fleur de lys, onde morava Renato. Eu não conseguia engolir esse nome, Fleur de lys. Mas Fleur de lys era um edifício bem alto, quatro apartamentos por andar. Construção modesta e de baixo orçamento, porém de bonita arquitetura e muito bem localizado. A pequena praça que ficava em frente, numa rua não circulável, era alegre e bem freqüentada pelos moradores. No fim da tarde era comum ver mães e babás com suas crianças, brincando com suas bolas e seus carrinhos de controle-remoto. Depois, com todo mundo a bordo, pegávamos a imensa Avenida Anhanguera em direção a BR 153, rodovia de acesso ao Campus PH.
Por muitos dias em que fomos juntos, percebia que aquela parte da manhã estava sendo fundamental para um dia bacana. Estar com os amigos era uma forma de amenizar todo o resto, de esquecer temporariamente o excremento que tomava conta da vida. Falávamos e riamos de tudo, parecíamos nos adorar.
Era comum fazermos um stop em uma loja de conveniência para lancharmos, e de um modo muito normal acostumamo-nos naturalmente a entrar quase sempre no segundo horário. Sabíamos que havia um limite para os que perdessem o bom senso e abusassem de tal facilidade, desse crédito de confiança concedido pela maior instituição de ensino do país, mas essa era a intenção, averiguar quantas vezes em um mês, poderia se fazer aquilo sem uma advertência verbal. Mesmo sabendo que na agenda já constavam sete carimbos de notificação. Mas e daí? Ninguém estava interessado em ver minha agenda mesmo, a até onde eu saiba, nem a dos outros.
O assunto naquela manhã postulava teorias comportamentais e psicológicas, não cientificas. Talvez a astrologia seja a grande ciência da massa inculta e artisticamente improdutiva. Carol nos contava como ela e todos os escorpianos não suportavam mentiras, mas dizia poder contar uma muito bem caso fosse preciso. As pessoas nascidas em escorpião são sempre assim, parecem ser regidos pelo “Pimenta nos olhos dos outros para mim é refresco”. Mas o que me chama atenção é a sinceridade que possuem e a capacidade de serem fieis e autênticos. Os Taurinos identificam-se bastante com isso, admiram pessoas leais, mas são dependentes em excesso, sujeitos irredutíveis e tensos. Mas acima de tudo são afetuosos.
Renato possuía todo o cuidado e organização de um capricorniano, dono de sentimentos nobres e sinceros. E capaz de suportar as piores coisas quando se está do lado de alguém que realmente gosta. Essas pessoas de Capricórnio podem até nos parecer incoerentes em certos momentos, mas são pessoas que normalmente traçam seu caminho e dali em diante dificilmente se perdem. Caio havia herdado toda a magia e dissabores do final de Janeiro e do mundo abstrato em que vivem os aquarianos: a idéia que se tem de ser auto-sustentável…
—Você, Caio, é um verdadeiro conquistador,—Dizia Carol.— quer ganhar o mundo, mas possuí apenas um mapa e nenhuma arma que possa te ajudar a seguir, a brigar por todos desejos e objetivos que você mesmo traça para si diariamente.
Todo esse assunto me fizera pensar que Vinicius era do signo de Libra, e librianos são extremamente péssimos em tomar decisões, principalmente qualquer decisão que possa arrancá-lo de sua segurança e jogá-lo num mundo desconhecido onde necessariamente seria obrigado tomar várias outras decisões. Librianos são seres quase estáticos.
—Mudando de assunto, você não sabe como tem me feito bem, Augusto. Quero dizer… me pegando em casa para irmos juntos…eu não suportava mais ter que viajar naquele ônibus vermelho caindo aos pedaços. —Em seguida retocou o batom preto, escorada na lateral do carro.
—Pelo menos é gratuito. —Disse Caio, Renato usava óculos escuros e dissera muito pouco aquela manhã.
—Por isso deve ser tão ruim… Mas na verdade se não me engano, esse valor já está acrescido na mensalidade. Eles não nos dariam isso assim, totalmente free.
—Pode apostar que não. O pior era ser obrigada a passar na casa da Julia todos os dias. —Disse Carol entrando no carro e fechando a porta. Já estávamos todos dentro.
—A Julia está indo de ônibus? —Perguntei
—Nossa!… Você não sabia?
—O Vinícius também está indo no ônibus. —Disse. —Até ofereci-me para pagá-lo, mas ele disse que não pretendia entrar na segunda chamada duas ou três vezes por semana. Acho que ele anda um pouco impaciente nesses últimos dias.
—Ah, acredito que depois da conversa que eles tiveram a Julia deve estar correndo dele como o diabo corre da cruz. Você não tem com o que se preocupar, misto quente.
—Pare com isso. —Ela me olhou como se não entendesse, olhar enigmático e sobrancelhas retorcidas. Pedi-lhe para que não se fizesse de boba. —Odeio quando me chama assim.
Paramos de conversar por um tempo, Caio, que naquela manhã nada comera, fumava um cigarro no banco traseiro, ao lado de Renato. Caio e seus complexos físicos formavam juntos uma sólida parceria. Não posso negar que realmente parecia um pouco obeso, dez quilos acima, talvez, mas o que me irritava era sua constante angustia. Era o mais novo entre nós, o que possuía menos estatura, e o dono da tal barriguinha, do pneu indesejado… Estava sempre a ver os outros comer com a esperança de que isso fosse lhe confortar a alma, mas eu duvido que no sigilo do lar ele conseguia ser tão prócero em sua conduta, ao ponto de negar-lhe a si mesmo contatos lampeiros com seu refrigerador. Por que por mais que Caio não comesse, sua barriga nunca diminuiu de forma significativa ao ponto de podermos dizer “Nossa, Caio, como você emagreceu!”.
Percebi que Carol, assim como eu, observava Renato pelo retrovisor. Definitivamente ele não parecia bem, não havia dito nada e se contentou em responder com monossílabos algumas perguntas que lhe foram feitas. Mas ali o pegamos, ele levantara os óculos escuros em um minuto de distração, talvez para coçar o olho ou limpar alguma umidade que ali se formava. Carol e eu nos entreolhamos. Havia uma marca forte. Ao olhar para trás, vi que o contorno de seu olho estava escuro, como se fosse uma olheira profunda, uma doença contagiosa. E todo globo ocular demonstrava um sutil inchaço.
—Quem fez isso no seu olho Renato? –Perguntou Carol. Ele nada disse, parecia extremamente constrangido e envergonhado. —Foi seu pai outra vez?
—Carol? …Deixa pra lá.
—Você precisa fazer alguma coisa, Renato. —Insistia Carol que nunca seguia meus conselhos, que persistia em andar sem cinto de segurança. E sempre virada para trás conversando com os passageiros. Ela corria o risco. Um dia poderia voar para fora do carro, bastava um deslize meu. —Seu pai não pode continuar agindo assim. O que foi que você fez?
Silêncio.
—Ele chegou em casa bêbado de novo, não foi? Acha que os professores não vão ver isso em seu rosto? Trate de inventar uma desculpa caso vejam, ou se não seu pai terá que visitar o Campus ainda essa semana, e você pode até mesmo perder sua bolsa.
—É só o que falta. —Ele resmungou. —Nem sei como vou fazer para faltar dois dias na loja.
—Você precisa passar um corretivo para disfarçar isso ai. Vamos cuidar disso assim que chegarmos.
O irmão mais velho de Renato, Fernando, vinte e dois anos, parecia ter se cansado disso há algum tempo e se mandou para os Estados Unidos, oportunidades que surgem na vida de alguns. Agora morava no Colorado, longe do pai alcoólatra que lhes batiam quando chegava em casa, sem motivo algum os humilhava e lhes davam socos e pontapés. Fernando ligava algumas vezes, voltar nunca mais voltou, incitava Renato a fazer o mesmo. Se propôs a pagar as despesas com os documentos e as passagens aéreas, mas Renato se via preso ao seu velho. De toda a família, só sobraram-se os dois, e sentia que ele poderia estar ao lado do irmão e ainda ter uma família, mas chegara à conclusão que um homem poderia sobreviver sem um irmão, mas que dificilmente um pai sobreviveria sem a mulher e seus filhos.
—Liga esse som e me arruma um desses seus cigarros americanos. —Disse Renato, desviando o assunto.
Quando liguei o som, estava tocando uma do Nirvana na rádio, uma musica cantada por Kurt Cobain, lavada por seu inconformismo social e um esquema de coisas que nos nutre em dias antagônicos de ira e rebeldia juvenil.
—Dá para aumentar? —Fui ao máximo, os extremos… Viver sobre a afiada lâmina da intensidade…
Os cigarros ainda eram consumidos como sacolas plásticas em hipermercados. —Uma maravilha. Haviam marcas de cinzas na camisa, sobre a calça… E assim que descemos do carro, quase que meio tontos, os ônibus com os outros alunos começaram a chegar em fileiras e se amontoaram no estacionamento. O som, exageradamente alto chamava a atenção dos outros, os cigarros, a atitude, os óculos escuros, tudo parecia conspirar contra nós.
—O que foi que vocês estão olhando, caretas? —Gritou Carol mostrando o dedo médio, Carol adorava chamar atenção. Era como se fosse uma grande atriz americana alternativa revoltada com a vida e metida a besta, completamente drogada… Era como se fosse Christina Ricci. Coitada, se continuasse assim jamais seria indicada ao Oscar.
Os alunos nos olhavam como se vissem em nós criaturas insignificantes e quase demoníacas, mas no fundo todos queriam uma fatia do bolo, ser um de nós, dava para sentir a indiferença invejosa. O diretor também chegava naquele momento e nos pegara fumando e fazendo uma pequena farra no estacionamento do Campus. O prazo para estarmos em sua sala era o mesmo que ele levaria para abri-la, entrar, e acomodar seus materiais em um canto qualquer. Ou seja, éramos urgentemente requeridos. Antes de pegar minha mochila e me encaminhar para a sala da diretoria, peguei Vinicius nos olhando enquanto caminhava em direção a entrada de estudantes.
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(A caminho do Campus, Caio e os outros fumam dezenas de cigarros)

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