As enormes estantes de madeira, chumbo verdadeiro, sustentavam pilhas e pilhas de livros, relatórios, registros, jornais, revistas, folhas em branco, folhas repletas de letras e rabiscos. Enfim, qualquer tipo de papel parecia bem vindo ali. A coisa se sobrepunha sobre a gente e chegava até o teto. Eu acho que precisava de uma escada de correr… A mesa, também de madeira chumbo, delimitava territórios, ali ele era o rei em toda sua plenitude. Do outro lado, um humilde sofá, atrás das elegantes poltronas de fino estofado reservadas à pais e sobrenomes de peso, o maldito sofá nos fazia sentir tão humildes em nossa condição, que todo seu lado psicológico se afetava. Estava ali pela primeira vez, somente alunos extraordinários ou delinqüentes tinha acesso ao prédio da diretoria, e eu não era nenhum nem outro, pelo menos até dada circunstância. Pensei ser sensato não dizer nada, até mesmo porque não tínhamos espaço para tanto. Quando pediu à Renato que retirasse os óculos escuros, Renato apenas respondeu.
—Não posso senhor, peguei uma infecção ocular e acho que ficaria mais confortável dessa maneira. Com os óculos. —O diretor se aproximou com seu focinho e sua cara gigantesca, por fim, consentiu. Quando visse nossas agendas com todos aqueles carimbos estaríamos literalmente fudidos.
Quando foi nos concedido um pequeno momento, onde deveríamos nos redimir ou pelo menos prometer que nada daquilo voltaria a se repetir, Carol começou uma conversa mole na tentativa de engabelar Lourenço, autoridade máxima da instituição. Primeiro fez um breve comentário sobre o direito de ir e vir de qualquer cidadão, mencionou rapidamente que regras são feitas para serem quebradas, depois defendeu a música e o cigarro como símbolos da humanidade desde que o mundo é mundo, e por último tentou subornar Lourenço oferecendo o auxilio gratuito do pai, que era fisioterapeuta.
—Um senhor na sua idade deve passar por muitas dores e mal-estar diariamente. Algumas consultas com um fisioterapeuta de confiança, poderia mudar sua vida. —Finalizou. O diretor se levantou. Veio um frio na barriga, assim de repente.
—Senhorita Caroline Araújo, —Chegou tão perto de Carol que imagino que assim como eu, também sentiu as borboletas no estômago. —como orientador estudantil preciso lhe dizer que possui veia política, a senhorita tem o poder da argumentação e parece usá-la muito bem a seu favor. Faz até mesmo o ato imundo de fumar um cigarro parecer uma tradição de nossa civilização, uma cultura de gerações que deve ser preservado, belíssimo! —Parou com um sorriso irônico nos observando.
—Eu não...
—Pssssiiiiuuuuu. —Então esperamos um momento breve, até que ele voltasse a nos dizer. —Sobre seu pai, deixou de contribuir com doações para a preservação e melhorias na estrutura do Campus. Com exceção dos bolsistas, —E olhou para Renato. —o senhor seu pai foi um dos poucos pais que nos esqueceu. Poderia lembrá-lo, por favor? —Não ouvi resposta. —Punição numero dois, vocês sabem o que significa o cartão azul… os quatro estão suspensos por cinco dias.—Disse sentando-se novamente. —Os pais serão notificados. E gostaria de alertar aos senhores que já estamos fartos das confusões de vocês. — disse isso se apoiando na mesa, olhando para Carol — O que mais vai ser? Devemos esperar uma bomba num banheiro feminino?
Os risos que soltamos foram provocados por leves impulsos, Ele ainda nos olhava seriamente. Tudo se transformar posteriormente em uma piada, fora algo irrefreável.
Passamos por Janaina, a secretária, que estava acompanhada por seu assistente, uma bicha afetada e escurinha que nos comia com os olhos. Janaina nos fichou. Recolheu nossos cartões, os passes, recolheu nossas gravatas. Enquanto o assistente grampeava fichas em nossas agendas a secretária inspecionava pastas e mochilas. Se alguma coisa estranha, irregular, fosse encontrada dentro de alguma…
—Esse cigarro? —Perguntou Janaina balançando a carteira em nossa frente. —Proibido cigarros por aqui, —Tentou ser gentil. —Alguém mais?
Renato e Caio tiraram suas carteiras do bolso e mostraram-nas com as palmas fechadas.
Renato e Caio tiraram suas carteiras do bolso e mostraram-nas com as palmas fechadas.
—Mais um dia para cada um de vocês. E você? —Essa foi para mim.
—Não, felizmente eu não tenho cigarros… Mas eu tenho um mp3player. —Indiquei minha pasta de couro comprada na Richards, ela meteu as mãos.
—É… eu sinto muito… Agora são seis dias para você também. —Fechou a pasta e me devolveu, enquanto os outros recuperavam as deles sobre o balcão. —Estaremos ligando nos celulares de seus pais ainda hoje. Agora são sete e quarenta e cinco. Tenham um bom descanso, meninos!
Saímos do prédio da diretoria aparentemente felizes.
—Vaca irônica! “Agora são sete e quarenta e cinco. Tenham um bom descanso, pessoal!” —Carol imitava a secretária enquanto descíamos em direção ao estacionamento, passando pelas quadras polivalentes.
—Logo hoje que iríamos entrar na primeira chamada.
—Hoje tínhamos aula de Literatura… merda…
—Até a próxima Segunda, professor Frans! —Gritou Renato.
A capota estava abaixada, o que nos permitiu pular para dentro do conversível sem termos que abrir as portas. Os lugares já pereciam marcados, Carol no dianteiro, Caio atrás de mim e Renato ao seu lado.
—Pelo menos ela não viu o que eu tinha guardado aqui no carro essa manhã. —Carol abrira o porta-luvas, criando todo um mistério e tentando atrair para si toda atenção possível. Retirara como mágica uma garrafa de vodka lá de dentro.
—Eu não vi você pondo isso ai. —Protestei já dando a partida.
—Porque você não precisava, misto quente.
—Roubou isso de qual supermercado?
—Ah, vai se fuder Caio Amaral!
—E então? Para onde vamos?
—Vamos tomar essa merda, cara. —E durante toda aquela manhã essa fora a única vez que peguei Renato com um sorriso nos lábios.
Quando se tem dezoito anos e você acaba de ser suspenso justo no dia em que você decide praticar uma boa ação a si mesmo, obedecendo seus horários e cumprindo seus deveres de bom estudante, trazendo a intenção de participar das aulas que você, na verdade, gostaria de esquecer, você descobre que é irrefutável a afirmação de que o mundo é injusto. E depois, quando se vê com mais três amigos que foram punidos da mesma forma e um de vocês quatro é o portador de uma garrafa de vodka, você percebe que a teoria do caos pode ser uma grande verdade.
Voltando para a cidade, ainda na BR avistamos uma estradinha de terra que partia do acostamento, Carol indicou com um dedo e eu virei imediatamente, fazendo com que os meninos no banco de trás fossem jogados de um lado para outro. Logo nos vimos fechados por copas de árvores e pela umidade que pesava o ar, deixando o solo lutulento. Um pouco mais adiante um vão se abriu, a estrada terminava em uma grande circunferência onde o sol penetrava ressecando tudo outra vez. O espaço parecia ser a comprovação de que discos voadores realmente existem. Um extenso circulo, sem nem mesmo uma árvore e coberto por um capim rasteiro. Ali ligamos o som, sentamos sobre o carro e tomamos a vodka sem qualquer tipo de cerimônia, a garrafa passava de mão em mão. E várias mãos tentavam se educar na complicada disputa de qual seria a próxima a mudar a sintonia do rádio ou nos brindar com uma memorável canção.
Carol nos ofereceu uma dessas, disse ser uma música do Coldplay, que se chamava “the scientist”. Um grande sucesso do ano de dois mil e três. E lá estávamos nós, correndo pelo campo, pulando sobre o capim rasteiro, dançando sobre o efeito do álcool e ludicamente encantados com tamanha liberdade. O sol nos iluminava com seus raios fortes, mas o ar era frio. O som dos veiculos que passavam rapidamente na rodovia, não muito distante, era constante e quase hipnótico.
Estava deitado sozinho sobre o capô do carro pensando em tantas coisas, estava metido em tantas coisas estranhas e sem respostas, estava cheio de expectativas, de medo também, estava angustiado, e sorrir quando se está triste é uma das coisas mais bonitas que existe, porque nesse podemos confiar como verdadeiro. Decidimos dar o ultimo gole com o carro em movimento, ao terminarmos já estávamos outra vez na rodovia e a garrafa fora lançada em direção a mata. Pela primeira vez pegamos o desvio do viaduto, íamos rumo a zona norte. O Aeroporto Internacional de Goiânia fica bem ali, lugar estranho, desabitado, ruas largas…
Carol nos ofereceu uma dessas, disse ser uma música do Coldplay, que se chamava “the scientist”. Um grande sucesso do ano de dois mil e três. E lá estávamos nós, correndo pelo campo, pulando sobre o capim rasteiro, dançando sobre o efeito do álcool e ludicamente encantados com tamanha liberdade. O sol nos iluminava com seus raios fortes, mas o ar era frio. O som dos veiculos que passavam rapidamente na rodovia, não muito distante, era constante e quase hipnótico.
Estava deitado sozinho sobre o capô do carro pensando em tantas coisas, estava metido em tantas coisas estranhas e sem respostas, estava cheio de expectativas, de medo também, estava angustiado, e sorrir quando se está triste é uma das coisas mais bonitas que existe, porque nesse podemos confiar como verdadeiro. Decidimos dar o ultimo gole com o carro em movimento, ao terminarmos já estávamos outra vez na rodovia e a garrafa fora lançada em direção a mata. Pela primeira vez pegamos o desvio do viaduto, íamos rumo a zona norte. O Aeroporto Internacional de Goiânia fica bem ali, lugar estranho, desabitado, ruas largas…

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