terça-feira, 24 de junho de 2014

17 - HÁ SANGUE EM VOCÊ

Trilha: Aereogramme - no really, everything's fine  (e)  Melissa Auf der Maur - out of our minds






                                            Estávamos bêbados e rodávamos por uma região pouco conhecida, ficava próximo de onde Vinicius morava, mas nunca havia passado por aquelas ruas antes. Estar tão próximo de onde ele morava me fez lembrar de seu olhar reprovador ao me ver no estacionamento aquela manhã. Provavelmente estava com a palhaça da Julia Mosquita. E se realmente estivesse era algo que me deixava preocupado. Ela não era ninguém de confiança, poderia dar com a língua nos dentes a qualquer momento, além disso era tão lerda que possuía a incapacidade de fazer tal coisa por pura picuinha. Poderia também aproveitar qualquer oportunidade para me difamar ou me denegrir, apontando minhas falhas de caráter e minhas atitudes estúpidas, como se ela também não possuísse seus próprios defeitos.
     Carol não parava de falar sequer um minuto, ainda imitava a secretária e cantava trechos de uma música que ninguém conhecia, depois voltava a falar, agora eu mal consigo me lembrar dos tópicos pelo qual passara enquanto tentávamos recolher os resquícios da sobriedade.
—Poderíamos sair desse lugar e comer alguma coisa na Pizza Hut. —Ela sugeriu. —Esse setor não tem graça!
     Estávamos em uma avenida pouco movimentada, como todas as outras, mas essa possuía mão única e parecia-nos incrivelmente desértica e interminável. “Carol, para de falar, garota.“ Pensei despretensiosamente.—A música entrava e percorria todo meu corpo, sentia a bateria pulsar simultaneamente, e o sangue fluía. Discutíamos a sugestão da Carol de forma que pessoas normais não costumam fazer. O assunto se tornara uma verdadeira pauta, hipóteses foram elaboradas para o caso de irmos, e outras foram construídas para o caso de irmos em outra direção. E ficaríamos ali, naquele lugar sem graça, como disse a chata, até que houvesse um consenso entre os envolvidos.  Carol soltara um grito assombroso em momento de distração, olhei para a avenida, o carro zig-zagueou pela pista, antes ou depois de termos escutado um forte estrondo, um impacto, algo que rolara por cima do carro. Os pneus cantaram, o freio fora inerrante., paramos. A canção prosseguia no mesmo compasso, estávamos arrepiados, imóveis. Carol levara sua mão lentamente ao aparelho e o desligara com tocante sensibilidade. Ficamos emudecidos. Olhamos-nos mutuamente.
—Alguém pode descer, por favor, e ver o que aconteceu? —Perguntou Renato rompendo com o silêncio.
—Deve ter sido um cachorro. —Carol parecia um fantasma de tão pálida.
—Não foi um cachorro… foi uma mulher. —Caio estava todo enrijecido, quase inarticulável.
—O que foi que você fez, Augusto?
—Carol!…eu não sei, por acaso você viu alguma coisa?
—Augusto, você devia ter. . .
—Eu não tive culpa , Renato. A Carol viu. . .
—Não, Augusto. . .eu não vi nada. —Ah! meu Deus, eu estava metido numa grande encrenca. Vinicius havia me dito para tomar cuidado com gente do tipo Caroline Freire Araújo. Principalmente com o tipo que pinta os cabelos de vermelho. Não, na minha opinião Vinicius estava equivocado. Descemos do carro sincronicamente. Carol e eu seguimos na frente, enquanto Renato parecia nos acompanhar. Caio apenas nos observava de longe. Realmente havia um corpo humano, estirado um pouco atrás do automóvel.
—É uma mulher, Augusto! —Desesperou-se —Meu Deus!, o que foi que a gente fez… —Eu não consigo descrever toda a adrenalina extasiante de se ver metido numa coisa dessas. Carol se abaixou e consultou a menina caída e imóvel, devia ter uns treze anos, um sangue espesso escorria-lhe pelas vias nasais, parecia sangrar por algum ferimento no crânio, pois parte do cabelo estava embebido disso, de sangue. E Carol, como se fosse formada em medicina e exercesse há anos a profissão examinava-a grosseiramente.
—Ela não está respirando… ela machucou o nariz e provavelmente não está conseguindo obter ar. Na verdade ela está se asfixiando.
—O coração Carol… olha o coração.
—Nós não podemos ficar aqui, pessoal. Acordem, vai…—Disse Renato se mostrando apreensivo. Mas quem não estava?
—Ela não consegue respirar…
—Augusto, se nos pegarem aqui estamos na merda, cara! Carol? —Carol havia inocentemente manchando sua mão de vermelho, não sabia o que fazer, olhava para elas em pranto.
—Meu Deus! A gente não pode ficar aqui…O Renato tem razão, Augusto. Precisamos fugir…
—Vamos embora, antes que apareça alguém. — Disse Renato. Carol levantou-se num pulo, como se fosse ser atingida por um raio, como quem tem um ataque fulminante ou acaba de saber ter sido envenenado.
—Mas… e a garota? Não deveríamos…
—A menina já está morta, Augusto. E já pensou o que pode nos acontecer se nos pegam aqui?
—Ele tem razão, Augusto. Mas… E o Caio? —Caio estava no banco de trás como se seu traseiro houvesse sido colado por um sapateiro.
—…Falamos com ele… Não podemos continuar aqui!
    Voltamos para o carro, lembro-me de ter dado uma olhada em volta, para averiguar se não havia algum sinal evidente. Percebi pingos de um liquido vermelho. O carro era de um grafite bem escurecido, mas a nódoa era perceptível. Além disso era aparente uma pequena depressão provocada pela pancada.
—Tem sangue no carro.
—Augusto, limpamos depois. Puta que pariu… precisamos sair daqui, você consegue entender? —Fora tão agressiva e melodramática que não tive escolha. Renato estava no banco da frente, assumira voluntariamente o volante. Pulei em silencio para o lado de Caio.  Saímos, fazendo a curva a direita. As ruas largas e livres nos permitiu, em poucos minutos, estarmos a caminho da zona sul pela marginal Botafogo.
—Alguém pode dizer alguma coisa? —Disse Carol.
—O Augusto matou uma menina. Era praticamente uma criança. —Não sei dizer se Caio exprimia medo, insegurança ou falta de auto-controle.
—Ele não matou ninguém, Caio. A menina se meteu na frente do carro…— Renato tentava explicar em tom calmo, quase como um psicoterapeuta.
—Você matou ela, Augusto.—Insistia em afirmar.
—A culpa não foi minha, Caio.—Eu afirmei, mas será que era?
—Foi sim, ela possivelmente está morta.
—Querem parar de gritar? Tem uma viatura se aproximando de nós.
    Era impossível disfarçar o nervosismo, a viatura estava ao nosso lado, e fora outras coisas, ainda estávamos em um carro manchado de sangue. O cruzamento da Marginal com a 136 estava logo a frente, eu rezava para que continuasse verde, — verde, verde, verde, verde, verde… — quando ele fechou. Renato diminuiu a velocidade e paramos antes da faixa de pedestres. Agora estávamos lado a lado. Foi quando, aparentemente o mais novo dos policiais, o motorista, começou a nos olhar.  Aquilo gerou uma impaciência fora do comum, eu olhava para o sinal, olhava para o lado, olhava para os olhos de Renato pelo retrovisor. E fora olhando para a viatura que pude ver o motorista mandando um beijo para Carol. Ela sorriu e lhe acenou com a mão, logo em seguida o sinal abriu e dobramos a direita.
—Eu não quero nunca mais ter que passar por isso.
—Filhos da puta! —Disse Carol.
—O  que nós vamos fazer?— Caio estava quase que chorando.
—Não vamos fazer nada, Caio. Será que dá pra você ser menos repulsivo?
—Ele matou aquela menina, acusa o pai dele, mas ele acaba de matar alguém.
—Eu não matei.
     Com uma única e firme pisada no freio, o carro parou.
—Tudo bem, senhor cheio de coisas. —Gritou Renato. —O que é que devemos fazer, hein? Você acha que eles nos olharão com caras boas? Acorda, Caio. Não foi só o Augusto que estava no carro, e eles não vão querer saber disso. Se nos pegarem estaremos todos em cana, seu imbecil, inclusive você.
—Eu não sei… Ele tem razão, não dá para fingir que não aconteceu nada…O que você acha, Carol? —Soltei de forma estúpida.
—O que temos que fazer é ficar de boca calada. Eles não vão nos descobrir pelas marcas dos pneus… Isso seria impossível para a policia brasileira.
—Eu também acho. E compartilho da idéia de que devemos ficar quietos. Eles não podem provar, não podem sequer chegar até nós. —Disse Renato.
—Então estamos todos de acordo? Caio? —Carol o conhecia muito bem, por isso demonstrava tanto receio.
—...Não sei...
—Olhe aqui e preste atenção. Você não pode ser egoísta ao ponto de não pensar nem mesmo em você, se você está achando que vai ferrar com todos nós, Caio, você está bastante enganado. Eu não vou permitir que você faça essa merda toda.
—Não fale assim comigo, Renato!
—Seja amistoso, Caio… Eu não quero ter que te fazer algum mau. —Carol parecia ter recobrado o espírito, agora estava calma, manipuladora, e articulava tais palavras com discreto cinismo.
    Estávamos na porta do meu edifício, Ele perguntou se precisaria do carro ainda aquela tarde, eu disse que não. Ofereceu-se para inspecioná-lo com cuidado, lavá-lo e nos pegar na manhã seguinte. Ou pelo menos me fazer uma visita e trazê-lo de volta, já que passaríamos alguns dias dormindo até um pouco mais tarde.
—Valeu, Renato. Vou ficar te devendo e vê se cuida desse olho.
—Farei o possível.
—Eu estou com medo, cara. Tenho medo de que esta tarde ou amanhã apareçam policiais na porta de casa, eu não saberia o que dizer.
—Relaxa… E caso isso aconteça, o melhor é não dizer nada. Nem na presença de seu advogado, negue tudo. A gente se fala por telefone essa noite.
     Ainda no elevador, fiquei a pensar em Caio, ele sempre teve medo de tudo, e lhe faltava um lado racional que costuma se sobrepor as concepções de certo e errado. Lhe faltava amor próprio e cuidado para com os que estavam próximos, certamente não sabia cuida dele mesmo… pensando em tudo isso, cheguei de modo estranho a palavra cautela. Com relação ao nosso amigo, precisávamos mais do que nunca, sabermos onde estávamos apoiando nossos pés. 



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(Dirigindo embriagado, Augusto atropela uma garota)


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