terça-feira, 24 de junho de 2014

18 - EM ALGUM LUGAR EU ME PERDI

Trilha: Social Distortion - Winners and losers







                                              Entrei em casa, estava sozinho, o doutor não estava e para ser bem franco agradeci a Deus por isso; Maria encontrava-se em sua volta diária a Horti-fruti, estava no horário, em busca de frutas e legumes frescos, e voltava feliz como uma camponesa em dias férteis de colheita. Fui ao quarto me trocar, deveria estar pingando suor, tirei o uniforme, as camisas, a calça, os sapatos. A gravata haviam ficado com ela, que coisa mais besta…Ficarem com a gravata da gente.  Coloquei uma bermuda, de tecido sintético, daquelas compradas em lojas de departamento para se usar em casa. Vi minha imagem refletida no espelho do lavabo, — Enquanto lavava minhas mãos. — vi aquela pele branca e as pequenas sardas abaixo dos olhos, olhos verdes que não diziam nada e aquele cabelo, de um loiro empalidecido e longos fios desgrenhados. Aquele que via agora não era mais eu, era outro Augusto, um Augusto que irrefragávelmente era sepultado e nunca mais voltaria.
    Fui rapidamente até o armário de mamãe, onde eles guardam coisas de uso pessoal, peguei a maquina do doutor emprestada e de volta ao lavabo, raspei todo meu cabelo, gostei de vê-los caírem sobre o piso claro, deixando meu crânio branco descoberto. Todos os longos fios claros caíndo  inundando a pia. E alí estava eu, um novo Augusto como saído de fábrica, uma nova e divertida versão do que já era velho e chato.  Agora estava tão diferente, que eu mesmo precisei de um tempo para me adaptar. Cheguei a pensar em seguir o conselho de Carol e colocar alguns piercings, ou até mesmo um alargador de orelha.
    Peguei o controle do som sobre a cama, e é incrível como esses troços funcionam tão bem.  Fiquei alí na sacada, a imagem daquela menina estirada no asfalto e sangrando não me deixava mais, fiquei tentando absorver metade do ocorrido e não sei o quanto consegui. De repente me passou um livro do Stephen King pela cabeça, esse pensamento me ligara inevitavelmente à um outro de  dias atrás, sobre como tudo está norte-americanizado e patético, como aquela cultura nos absorve e ainda nos faz gostar. Olha eu por exemplo, citando Stephen King… 
     Estava inquieto, desci com intenção de tomar alguma coisa, preparar uma vitamina para beber, estava tão ansioso, já era hora de Maria estar preparando o almoço e pondo a mesa, no entanto nem havia chegado. Peguei um copo grande de leite de soja, joguei no liquidificador com uma banana, aveia, sucrilhos, meia maçã e alguns morangos. A mistura adquirira uma aparência cremosa com cor de nozes. A porta da frente se abriu, joguei a vitamina em um copo e atravessava a sala em direção ao quarto.
—O que você fez com seu cabelo, Augusto? —Ele disse espantado enquanto colocava a maleta sobre a mesa.
—Não é da sua conta… sobre você, espero que esteja gostando de montar seu novo consultório, e espero que esteja economizando nos móveis. Médicos são pessoas que não necessariamente precisam se preocupar com luxo.
—Por acaso você já parou para pensar no que você está fazendo?
—Não… Eu tenho é elaborado uma lista das coisas que eu odeio em você.
—Por que não sobe e abaixa essa música? Está fazendo o quê em casa essa hora? 
—E por acaso é hora de você está aqui?
—Abaixe a música... Depois conversamos, não sei como você pode pensar com todo esse barulho.
—Não tenho nenhum problema com isso. Assim está ótimo.  —Disse apoiado no corre-mão da escada enquanto experimentava a mistura de frutas e cereais. Minha intenção era provocá-lo.
—Você faz idéia de quanto está me custando sua brincadeira?
—Bem pouco, isso não é nada perto das coisas que fez. —Acusei-o.
—Eu deveria vender seu carro para pagar.
—Pode pagar com minha mesada, em eternas prestações. Use o dinheiro da mesada pra fazer o que você quiser. Mas só uma coisa aqui, doutor, foi minha mãe quem me deu o carro. —Alterei a voz. — Ele não te pertence.
     E de repente o telefone tocara, ficamos ali nos olhando, vendo quem iria atender. Toques ameaçadores rompiam com a taciturnidade do cômodo. Eu o desafiei com o olhar, até ele atender. Conversou por cinco minutos, respostas curtas, o jeito que me olhava dizia que a ligação era procedente do Educadores Campus PH. Me toquei que era hora de voltar ao quarto, quando ele desligara e chamou-me pelo nome. Está certo, eu realmente havia feito um troço ruim levando suspensão assim, por quase nada. Mas além disso, não dava para suportar a bronca agora, de um senhor de meia idade que finge ser seu pai, é suspeito em suas ações e agora esta todo de branco olhando para você severamente. Quem ele pensava que era?
—Quem era? Aquele seu amigo? Esse telefonista misterioso? —Pareceu remoer algo e depois engolir. A expressividade no olhar se desgastara e o que havia agora, era um brilho opaco.
—Não… Era seu diretor. —Disse abatido. —Sabe quanto custa sua mensalidade? —dois passos em minha direção. —Tem uma porção de meninos da sua idade loucos para estar no seu lugar. É só você ligar sua tevê e acompanhar uma parte do jornal local, é só você estar naquele hospital por algumas horas… Você veria um monte desse garotos, Augusto. E no entanto, você não sabe valorizar o que tem.
—Isso não tem nenhuma importância, é para isso que eles oferecem bolsas. Eu não tenho culpa do mundo ser a merda toda que é, eu não tenho culpa de ter nascido rico e muitos serem miseráveis. E o que tem eles com o fato de você ter violentado minha mãe? Eu faço da minha vida o que eu bem quiser e não me dê lição de moral, doutor Marcos… porque mais cedo ou mais tarde você vai pra cadeia… você sabe disso.
—Você disse violentado? Você está perdendo o juízo, entendeu? —Tentou avançar eu recuei. Se acha mesmo, Augusto, vá até à delegacia procurar apoio policial. Entre com uma ação… me denuncie, faça alguma coisa.
—O que eles poderiam fazer contra você? Você sabe o valor que tem o seu dinheiro. Sem falar de suas influências e amizades suspeitas com aqueles deputados com quem você se encontra todo fim de semana. —Marcavam partidas nas quadras do Alphaville. —Olha aqui doutor, você não me engana… por trás dessa brancura e de toda essa sofisticação, há alguma coisa de muito podre e fétido.
—Olha… —Pareceu perder a cabeça. Não, não quero lhe dizer mais nada. Se você acha que não precisa mais de mim, e isso quer dizer, se acha que eu não necessito mais de seu respeito e de sua consideração… acho mesmo que você deveria pegar suas coisas, tirar o seu carro da garagem e ir embora… você não é mais uma criança, não é? Sabe se virar, tem tudo que precisa… —Como ele teve coragem?
—…Eu vou sair sim, mas é simplesmente por saber que não suporto mais olhar para sua cara. E não pense que estou blefando quando digo que será ainda hoje… Não quero mais ter que conviver com sua pessoa. —Indigno de qualquer estima, se retirou, em seu lugar teria feito o mesmo.



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(Augusto, perante tantas mudanças, raspa o cabelo)


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