terça-feira, 24 de junho de 2014

19 - A RODA GIGANTE

Trilha: The National - geese of Beverly road







                                            “Aquela tarde eu sairia dali” disse à mim mesmo, o remorso iria fazê-lo sentir-se pior, se é que ele sentia remorso por qualquer coisa. Assim do nada, senti uma vontade imensa de fumar um cigarro, o que era bem estranho, mas acreditei que pudesse me tranqüilizar. Fui até o hall da sala e peguei o interfone.
—Oi, aqui é o Augusto do 901, pode pedir o rapaz ai, para me comprar uma carteira de Marlboro light ali na esquina e me trazer aqui?
—Imediatamente, senhor Augusto.
    Em cinco minutos o elevador estava em meu andar, abri a porta pensando ser o rapaz dos cigarros, e realmente era, estava envolto a sacolas plásticas carregadas de alimentos frescos. Ajudava Maria com as compras. Tive que ter paciência para aquilo tudo, e é incrível a indiscrição de certos sujeitos, o cara tirou a carteira de cigarros do bolso da camisa e me passou sem nenhuma cerimônia. Maria me olhou com reprovação.
—O que foi, Maria? —Perguntei rispidamente.
—Nada, senhor Augusto. Apenas não sabia que estava fumando.
—Meu pai também não deve saber, entendeu? —Disse. —Quanto lhe devo?
—Três, pela carteira de cigarros. —Já estava com cinco nas mãos para lhe passar, ele sorriu ao receber dois contos de gorjeta. Deixei Maria carregando as sacolas e subi até meu quarto.
    Eu nunca pensei que ele diria uma merda dessas, “pegue suas coisas, tira o seu carro da garagem e vai embora”. Vai ver isso confirmava que realmente ele dera um fim em minha mãe e agora queria me ver longe, sei lá... Talvez não quisesse dar nada que era seu ao seu filho bastardo, talvez quisesse me punir.
     Pensando enquanto fumava um cigarro na sacada descobri que não fazia idéia aonde ir… … O mais sensato seria ficar em um hotel, ou talvez, com a grana que eu tinha fosse possível pagar pelo menos três meses de aluguel num pequeno apartamento e me virar, sei lá… Poderia ir usando meu cartão de credito e deixar a fatura para ele pagar. Cheguei a pensar que já estava enlouquecendo. Beijado meu amigo dias atrás, gostando disso, me embebedando, havia sido suspenso, raspado o cabelo e aquela tarde sairia de casa. Acho que estava enlouquecendo de verdade.  
    Mesmo decidido, esperei Maria servir o almoço, esperei friamente em meu quarto enquanto fumava outros cigarros, enquanto lia poemas de Bukowski. Já cheio peguei tudo que era meu, tudo não. Coloquei uns cabides numa mala, roupa de baixo, alguns discos, coisas de uso pessoal, dois calçados, e levei comigo meu exemplar de ”Os vagabundos iluminados. Lembrei-me de Vinicius… Fiquei ali um tempo parado no meio do nada, pensando no cara e na minha insanidade, foi quando algo positivo iluminou minha mente. Era como uma mensagem que me dizia o quanto a vida é curta, e que no fundo não vale a pena se não arriscarmos, a vida precisa ser uma roda gigante. Ir para casa do Vinicius seria flagelação demais. Liguei o som, queria despedir-me da sacada, porque estava convicto de que aquele lugar era especial, era o melhor lugar.… Quando joguei o toco de cigarro lá em baixo, mesmo sabendo que isso não é bacana, tudo ficou muito triste. Os restos mortais do cigarro caindo era uma cena triste, eu parado ali também. Totalmente metamorfoseado, moralmente corrompido, dissolvendo o sabor amargo com os olhos úmidos e melancólicos. Coloquei meu casaco preto Hugo Boss, em dias nublados era o que eu gostava de vestir. Tranquei as portas.
    Passei o dinheiro ao taxista, peguei minha bagagem e toquei o interfone. Logo ela surgiu, sempre pareceu-me mais simpática durante as tardes, pela manhã era quase venenosa.  
—Misto quente? — Ela me olhou por alguns segundos e logo mudou sua fisionomia. —O que foi? Aconteceu alguma coisa?
—Meu pai me colocou pra fora de casa. —Disse lamurioso.
—Não acredito... Eu tenho certeza que seu pai tem culpa nisso tudo.
—Carol… eu sei que é meio estranho, e talvez até um pouco chato… Mas eu não tenho onde ficar, se eu pudesse ficar aqui por um tempo?—Nada foi dito.
—Estou pensando em alugar um apartamentinho no centro. É o que estou podendo pagar, pelo menos até por as mãos na grana que minha mãe deixou. Já tenho dezoito anos, vou procurar um advogado. E sobre ficar aqui na sua casa temporariamente, eu prometo colaborar e te recompensar por isso. —Seus olhos brilharam quando disse “recompensar”.
—Iria ser ótimo… Mas minha mãe está irada com o lance da suspensão. Deu de pegar no meu pé, agora.
—Então fique em um hotel comigo… daremos nomes falsos, seremos Zelda e Scott. —Ela sorriu.
—…Acho melhor tentar convencê-la. Só um minuto. —E me deixou ali sem saber.
    É tão humilhante ter que passar por isso, ficar aguardando do lado de fora, enquanto os moradores discutem se você pode vir a ser uma pessoa honrosa o suficiente para te receber, ou não, se seria levar problemas para dentro de casa. E eu ali naquele jardim, com minha mala e uma mochila, prestes a me molhar. Sentira uma gota que caíra sobre minha cabeça totalmente lisa. Por bem, ou mal, a mãe de Carol fora compreensiva o bastante e permitiu que eu ficasse por uma semana, eu estava completamente perdido, o que dizia que uma semana era ótimo.
—Vai ser ótimo ter você aqui, Augusto. —Disse abraçando-me. Aquilo foi tão inesperado, porque normalmente Carol evitava contatos físicos. —E adorei o novo penteado... —Então ela me ajudou com minhas coisas e subimos.
     A mulher, Dn. Lena, era bem liberal, viveu a década de setenta no Rio de Janeiro, entre um mundo hippie e o convencionalismo da burguesia carioca da época, além de tudo disse que deveria ficar no quarto de Carol, porque eu era seu hóspede. Então me instalei no próprio quarto da garota, um sótão redecorado de aparência psicodélica. Ali, havia de tudo, patins, bichos de pelúcia, pôsteres de filmes e de astros que cobriam toda uma parede, uma estante com livros, um porta-CDs no formato de um edifício com quase minha altura, um abajur com formato de abóbora. Aquele quarto me lembrava o refugio de uma jovem bruxa, eram incensos, mensageiros do vento, gnomos, fadinhas, anões… todos habitavam o mesmo espaço. Ela tinha até uma Guibson amarela com amplificador e pedais. Mas a garota ainda não tinha entrado num cursinho e portanto só arranhava, achava-se autodidata, nunca fora uma boa idéia, Carol e sua guitarra. Eu dormiria no sofá-cama e poderia ficar a vontade para ver tevê, ouvir som ou acessar a internet no momento em que quisesse.
     Naquela tarde, enquanto uma chuva fina refrescava o chão seco e Carol tomava um banho, fiquei ali sozinho em seu quarto, era estranho pensar em como me sentia infeliz há dois anos atrás… sentado no sofá de casa assistindo a Sessão da tarde. Os dias passavam-se como se fosse o pior filme francês de todos os tempos, e eu nem sabia que ali, dentro de casa, eu estava seguro. Será que toda essa escuridão que agora nos ronda tem um nome? Essa crueldade, esse ódio, como ele nos encontrou? Ela se meteu em nossas vidas, ou nós a procuramos e a abraçamos? O que aconteceu conosco, que agora mandamos nossos filhos para o mundo, como mandamos jovens para a guerra… Esperando que voltem a salvo, mas sabendo que alguns deles se perderão no caminho. Quando perdemos o nosso caminho? Consumidos pelas sombras, engolidos completamente pela escuridão… Essa escuridão tem um nome? Tenho certeza de que a felicidade está na ingenuidade das coisas, em tudo que se vê como se fosse pela primeira vez, na falta de malicia e maldade. O lastimável é saber, que perdemos a ingenuidade quando alguém que gostamos muito a joga fora.


©Copyright 2010



(Com Malas prontas, Augusto deixa sua casa por um tempo)


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