quarta-feira, 25 de junho de 2014

24 - TEMPO DE FICAR SOZINHOS

Trilha: Mazzy Star - fades into you






                                                                      A maior parte da nossa vida é uma série de imagens. Elas passam por nós como cidades numa estrada, mas algumas vezes, um momento se congela, e algo acontece. E nós sabemos que esse instante é mais do que uma imagem. Sabemos que esse momento, e todas as partes dele irão viver para sempre. Sobre o que fizemos com Caio, fomos incapazes de voltar ao fato, mesmo horas, tempos depois. Lembro-me que naquela mesma tarde peguei o telefone enquanto Carol lia um livro na sala de baixo e disquei o numero de Renato.
—O que vamos fazer? —Perguntei
—Deixar de lado, Augusto…A ultima coisa que precisamos é de uma outra história. —Foi o que ele disse. 
     Tudo fora um grande absurdo incalculado. E a pior merda era saber que além de mim, ninguém mais parecia se preocupar. Mas será que eu parecia preocupado? Talvez não, e talvez fosse melhor mesmo ouvir as palavras de Renato. Deixar as coisas de lado.
    Vinicius quase sempre ligava para saber como eu estava e passava um tempo falando de si mesmo. Pensava em lhe falar quando o telefone tocou.
    Eu atendi.
—Quem fala, por favor?
—Augusto.
—Oi, Augusto, aqui quem fala é Luisa…Luisa, mãe do Caio… Poderia me dizer se ele está por ai?
     Meu Deus! Fiquei tão nervoso que pensei que fosse ter um troço. O que iria dizer? Pensei que dona Luisa poderia passar por tudo que passei quando perdi minha mãe. Isso era algo ruim demais para se pensar. Gritei Carol. —É a mãe do Caio, o que eu digo? —Eu perguntei enquanto tampava o fone com uma das mãos. Carol fez sinal para que eu dissesse que ele não estava, para que eu fingisse de desentendido. —Voltei ao fone. —…Não, ele não está aqui dona Luisa. Ele não veio comigo hoje.
—Eu sei, era para ele ter retornado no ônibus, mas não chegou até agora. Você ao menos viu se ele pegou o ônibus?
—Não dona Luisa, infelizmente eu não o vi. Talvez ele tenha perdido o ônibus… talvez ele já esteja chegando… Eu não posso lhe informar, eu sinto muito. A única coisa que posso afirmar é que ficamos alguns minutos após a aula e que Caio disse que voltaria de taxi.
—É melhor eu esperar um pouco mais. Obrigada, Augusto.
—Qualquer coisa, volte a ligar. —Disse pondo o fone no gancho. E torcendo para nunca mais ouvir aquela voz outra vez.  
—E então? —Perguntou o nervosismo de Carol, havia até deixado de trançar o cabelo para prestar atenção na conversa.
—Eu fiz o que pude, tentei ser o mais natural possível… não vão desconfiar de nada.  —Peguei a chave do carro sobre a mesa de centro.
—Onde você vai?
—Por ai. Volto mais tarde. —Precisava de um tempo só, Carol falando ao meu ouvido o tempo todo, muitas vezes, me causava amargo; contando histórias de pessoas que não existiam mais, cantando em inglês, fazendo tranças, fingindo que nada acontecera. Algumas vezes senti-me impulsionado a mandá-la calar a boca e ir se ferrar. Mas ela estava na cálida liberdade de sua casa.
    A lua estava nascendo quando sai, o asfalto estava úmido, caiu uma garoa que molhara a terra e fizera com que o ar adquirisse um cheiro suave e aconchegante, quase mentolado. Parei o carro em um posto, entrei na loja de conveniência para comprar um cigarro. Dei uma olhada, peguei umas cervejas. Depois fiquei dando voltas no carro, parei em frente a casa de Vinicius, as janelas de cima estavam mortas, não havia luz. Do celular liguei algumas vezes, a voz da secretaria sempre recebia as ligações.
    Tudo se torna tão cruelmente evasivo quando estamos sós na praça de alimentação de um shopping, tomando um milk shake de ovo maltine comercializado pela rede Bob`s e preparado em questão de segundos. Durante dias quebrei a cabeça tentado decifrar aquela voz estranha que ouvira ao telefone, na extensão àquela noite. Parecia-me praticamente impossível.
    Quando cheguei em casa, Carol já dormia… Sobre o meu sofá-cama encontrei um bilhete:


''Não consegui ficar sozinha, tomei um remédio para dormir.
Até amanhã.
 Carol."

    Vou ser franco com vocês… minhas notas estavam péssimas, eu já não conseguia prestar mais atenção nas aulas, dormia durante toda a tarde, e virava as noites com Carol e Renato, aproveitando a ausência da dona. E o pessoal do colégio já estava notando isso tudo. Os outros alunos já nos olhavam ressabiados, e alguns teciam comentários maldosos sobre o grupo. Chegara o dia em que Carol faltara porque estava passando mal
    A semana após o ultimo contato com Caio, fora sufocante, Caio não aparecera, e também não fomos novamente incomodados por seus pais ou agentes da policia. Renato voltara a jogar basquete com Pablo e uns carinhas do segundo ano e Carol provavelmente inventara toda essa história de sintomas de Escorbuto por não querer nossa companhia por um período prolongado. Eu descia para a biblioteca e passava meu tempo livre entre os livros de literatura. Folheava Walt Whitman, sentado no chão mesmo, quando fui encontrado por senhorita “Mosquita”, como Carol a chamava.
—Oi.
—Alguma coisa? —Perguntei com arrogância.  Ela suspirou em desabafo.
—Olha Augusto… eu não sei o que foi, mas se fiz alguma coisa que te magoou me desculpe.
—Julia, porque esse drama no dia dezoito de Abril?
—Fiquei preocupada com Caio. Você não faz idéia do que possa ter acontecido?
—Te mandaram perguntar?
—Não, o fato é que ninguém entende como aconteceu…
—Eu também não sei, ele não quis ir com a gente aquele dia, ele e a Carol não estavam conversando. Mas isso é mesmo da sua conta?
—Você maltrata as pessoas, dorme na sala, não presta atenção nas aulas, é a primeira vez que vejo você tirar notas ruins. Você sabe que a Carol e esses meninos não estão te fazendo bem. —Se agachou ao meu lado. —Você foi suspenso, Augusto. Você parou para pensar que mais uma suspensão você é expulso do Campus?
—Você não sabe de nada, Julia. Quem você pensa que é para vir até aqui me dizer o que fazer? Você não sabe nada da minha vida.
—Você é um estúpido.
—Você quer que eu fique contra meus amigos, cansei de ser enxotado como você é, sabia? Cansei de não ser aceito nos grupos, isso agora é sua função.
—Cai na real. Acha mesmo que são seus amigos? Eles não são seus amigos, e se você continuar assim vai acabar perdendo os que realmente tem.
—Como quem? O que você entende de amizade?  Ninguém fala com você.
—Você é arrogantemente ingênuo. —Eu deveria rir na cara dela. —Eu não caio no papo dessa gente que só quer se aproveitar. Mas você sabe o que faz. Você já é adulto pra saber disso.
—Então voltamos para o inicio. Alguma coisa?
—. . .Quer saber? Você está certo. Eu não deveria mesmo estar aqui.
    Subi exasperado, soltando injurias das quais não me recordo. De repente Renato me encontra no caminho, segurava dois saquinhos de papel para viagem, lá dentro provavelmente, deveria ter um hambúrguer.
— Não é um ilustre, mas dá pra descer. . Comprei também uma coca em lata.
      Sentamos em um dos bancos no pátio. Parado ali analisei o que Julia havia dito, notei sua sinceridade e era aparente que ela se preocupava com minha pessoa. Também... estivemos juntos, condenados, por tanto tempo…




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(Augusto compra cigarros e cerveja em uma conveniência)



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