Dizem que deixamos este mundo da mesma maneira que chegamos nele. Nus e sozinhos. Então, se partimos sem nada, o que mede a vida? É definido pelas pessoas que escolhemos amar? Ou a vida é simplesmente medida por nossas conquistas? E se falharmos? Ou nunca amarmos de verdade? O quê acontece? Será que podemos medí-la?
Estava pensando em Caio. Estava pensando como seria chegar na lua, a sensação fulminante de desligamento e poder ao ver de cima todo esse planeta do tamanho de uma bola de golfe. Certamente a vida fora desse planeta deveria ser experimentada, ao menos uma única vez, por todos e qualquer um de nós. Aqui a temperatura caia consideravelmente a cada dia, estávamos no ano mais frio da última década e as tardes de outono que começara alguns dias pareciam intermináveis manhãs. O final do mês de Abril andava me irritando, meu aniversário que se aproximava de um jeito quase que dispensável, não queria mesmo saber. Aniversário sem minha mãe... Jogado no mundo. Um ano a menos de vida para todos nós. É o que brindaremos num futuro próximo. Meu aniversário… parece até brincadeira! Se toda essa merda fosse realmente culpa daquele dotorzinho vagabundo, eu acabaria com ele…
Estava pensando em Caio. Estava pensando como seria chegar na lua, a sensação fulminante de desligamento e poder ao ver de cima todo esse planeta do tamanho de uma bola de golfe. Certamente a vida fora desse planeta deveria ser experimentada, ao menos uma única vez, por todos e qualquer um de nós.
Levantei-me do sofá, fui até a cozinha. Pensei, olhei tudo em volta, abri uma das gavetas e peguei uma faca. Uma soda na geladeira. Coloquei a arma branca dentro da calça, com o cabo voltado para baixo.
—Eu vou dar uma volta.
—Posso ir?
—Agora não, Carol. —Andava tão irritado.
Fui para minha verdadeira casa. Não tive problema algum para entrar, acionei o controle do portão e em alguns minutos estava dentro do meu apartamento.
Sentei-me em uma das poltronas russas que mamãe arrematara em um leilão aqui mesmo na cidade. Mamãe ficara estarrecida com a compra, Goiânia, supostamente não é uma boa cidade para leilões, principalmente no que se refere a decoração e artigos de arte. Se você quisesse uma boa tela, provavelmente conseguiria no Rio ou São Paulo. Ali mesmo, sobre um pequeno aparador, estava nossas fotografias de família, peguei uma por uma e olhei-as a procura de algo capaz de me explicar porque tudo estava acontecendo. Em uma delas estávamos os três, eu devia ter uns onze anos, meus pais estavam sobre uma toalha que forrava a grama do clube onde sempre visitávamos, abraçavam-se enquanto eu apoiava minha cabeça sobre o colo de minha mãe. Ela sorria, e fazia anos que não notava em seu rosto essa demonstração de tranqüilidade, de contentamento. Você já olhou para uma foto sua e viu um estranho no fundo? Isso te fez perguntar, quantos estranhos fizeram parte de dias que você nunca irá esquecer? Em quantos momentos da vida dos outros nós fizemos parte? Ou se fomos parte da vida de alguém quando os sonhos dessa pessoa se tornaram realidade? Ou se estivemos lá, quando os sonhos delas morreram. Outras encontramos todos os dias e nunca lhe falamos, como se fossemos destinados a estar ali. Pense… podemos ser uma grande parte da vida de alguém… e nem saber.
Percebi que aos poucos a sala fora ficando cada vez mais escura, talvez ainda fosse cedo, não dava para saber. Não poderia acender as luzes porque não queria alarmá-lo de antemão, e sem querer apaguei, deitado no sofá. Tempos depois, o ruído baixo do elevador, mas perfeitamente sonoro dentro de todo aquele silêncio, me despertara. Levantei-me, com o barulho das chaves, a porta se abriu. Retraí-me com um susto, ele estava acompanhado… provavelmente catando vagabundas pelas ruas do centro. Aquela mulher essencialmente vulgar, com roupas vermelhas e jeans surrado, chupada até os ossos, cabelo bem anos oitenta, repicado e tudo, dona de uma voz agonizante e retoricamente irritável.
—O que você está fazendo aqui, Augusto? —Perguntou-me confuso, a mulher que até então sorria para as cortinas, agora parecia ter deixado uma taça rara cair no chão. Apenas olhava desconsolada sem nada poder dizer. Aquilo tudo me deixou nervoso e irritado. De forma que me vi levantar da poltrona empunhando a faca em sua direção.
—Que mulher é essa? Quem você pensa…
—O que é isso, Augusto? Quer me fazer o favor de abaixar essa faca, você está me fazendo passar…
—Quem é essa mulher?
—Solange, —Disse— esse é meu filho. Solange é apenas uma amiga, Augusto. Eu lhe disse sobre o pesadelo no qual estou, não?—Falou à ela.
—Eu não acredito que você trocou minha mãe por essa piranha.
—Olha aqui, rapaz, você já passou dos limites. Alguma vez lhe eduquei para que tratasse as pessoas com essa falta de respeito? Vai embora.
Chorei.
—Eu só vim aqui te dizer doutor Marcos… que se você tiver alguma coisa a ver com tudo isso, eu juro a mim mesmo que te mato. Eu estou cansado, e se quer saber eu não dou a mínima para essa merda toda… eu estou cansado de ser enganado, está ouvindo? —A faca tremia na minha mão. As pessoas são insensíveis a ponto de pensar que são todas assim… mas quem são elas para pensar que podem nos enganar quando bem entendem… —Quer saber? Agora eu entendo porque você matou minha mãe.
—Olha…meu filho, eu estou cansado de suas crises neuróticas. Nós podemos cuidar disso, eu tenho ótimos amigos psiquiátricos…
—Quem você pensa que eu sou? —Não contive a gargalhada. — Quer me colocar como louco agora? Não, doutor Marcos. Os loucos nunca têm razão, e você não vai conseguir tirar a minha. E você? O que está olhando? —Perguntei à tal de Solange. Ele ainda chama as vadias com quem sai pelo o nome. É um verdadeiro cretino.
—Sai daqui, essa casa não é mais sua. —Abriu novamente a porta.
—Isso só prova que você também não é mais meu pai.
Desci pela escada para não ter que esperar o elevador no hall. Aquela merda de faca não serviu para nada mais além de fazer a cena ficar ainda mais dramática e patética. Larguei-a pelos degraus. Queria ficar só, que saudade eu tinha da sacada que já não era mais minha, que vontade de estar ao lado de Vinicius, agora tão distante. Entrei no carro. Às vezes você escuta uma música, quero dizer, você ouve uma música, ouve porque é mais profundo; o fato é que às vezes você ouve uma música que te traduz em notas musicais. O álbum do Driveway estava no cd player do carro, e a sensação de ouvir as primeiras notas de “fades to black” naquela tarde cinza e friamente aveludada, me proporcionara um raro prazer. Rodei algumas vezes pelo alto do Bueno, no parque do shopping, parei alguns minutos para observar. De dentro do carro eu desfilava os olhos por mulheres e rapazes que passavam apressadamente, em ritmo de cooper. Os seios cobertos por uma fina malha, realçando todas as suas formas, os lábios delicados e desprotegidos, os braços fortes e o modo firme como andavam… tudo era tão confuso e satisfatoriamente atraente. Seria possível ver as pessoas indiferentes de sexo? Apenas como humanos? Talvez eu os visse assim, seria normal se sentir atraído por outro como você? Por um amigo seu? “Que merda, Augusto!”, pensei.
Lembrei-me de um lugar onde se pode ver grande parte da cidade, um desfiladeiro de prédios, de luzes que ascendem e se apagam em sua frente. Pegando a Avenida 85, que sai do centro e corta toda a zona sul até o Serrinha, você se depara exatamente com uma saliência geográfica, um morro na parte mais alta da cidade. Lugar sem habitação, onde se localiza a sede de uma das emissoras de tevê local. Você contorna pela estrada asfaltada que sobe até o ponto mais elevado e estaciona o carro de frente para dezenas de edifícios. Estava sobre o capô, vendo a noite entrar, a cidade sendo artificialmente iluminada. E para fugir dos meus problemas voltava a imaginar quem morava em cada janela daquela que se punha de frente para mim. O que as pessoas que lá dentro estavam assistiam, onde estudavam, quais eram seus planos e o que faziam para o jantar daquela noite.
Stephen King uma vez escreveu: “O tempo leva tudo, o que você quer e o que não. O tempo leva tudo, o tempo acaba com tudo… E no final… só resta escuridão. Às vezes, encontramos outros nessa escuridão e noutras nos perdemos de todos mais uma vez."
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(Goiânia a noite)

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