sexta-feira, 27 de junho de 2014

26 - É NOITE E ESTAMOS AQUI...

Trilha: Hole - someone else's bed





                                                                      Às vezes um dia surge na vida com toda a intenção de te atrapalhar, de te enlouquecer e fazer você bater todo tipo de porta que encontra pela frente, às vezes as semanas são feitas de dias assim. O pior é que mesmo nesses dias coisas mágicas continuam acontecendo, como que para te provar que o bem está ao lado do mal, e vice e versa, você é que fecha os olhos fingindo não ver ou se importar. Preciso me lembrar de dias melhores que esse, deveria pensar no dia em que descobri ter um amigo de verdade, ou de quando era criança e ia para casa de minha avó aos domingos com meus pais. De quando acreditava que um dia iria ser feliz, como num comercial de margarina. Hoje estou perto de completar vinte e dois, descobri que o mundo não é porra nenhuma do que eu pensava, e tenho insônia todos os dias. Bem… sobre os amigos? Eles até existem, e são ótimos. Mas não possuem nenhuma espécie de super poderes. Agora entendo que quando você se magoa, precisa lutar para garantir que continue vivo. Porque você está vivo. E a dor que você sente… É a vida. A confusão e o medo? São para lembrar que em algum lugar existe algo melhor. E que vale a pena lutar por isso.
    Só tinha certeza de uma única coisa: não podia mais viver com tantas dúvidas, com aquela vontade louca de empurrar Vinicius contra a parede; com tantas respostas e nada ao mesmo tempo. O problema é que a vida não se prende ao passado, não precisa mais dele, mas quase sempre eu me vejo totalmente envolvido nesse grande passado cretino que nem merece momentos nostálgicos como forma de adoração, uma vida inteira jogada fora, um catálogo para olhar e remoer.  E o sofrimento de dormir sabendo que amanhã, quando o sol nascer por mais uma vez, nada terá mudado? Nem mesmo o numero do seu telefone. E eu ainda serei o mesmo. Vou lhe dizer uma coisa, se a vida fosse uma história contada em 35 mm onde você pudesse simplesmente seguir um roteiro, sem se machucar, sem ser tão real; Onde você pudesse começar já sabendo onde tudo daria… Talvez assim eu pudesse até ter um final feliz, talvez eu pudesse até terminar essa história dando risadas no sofá. Mas quem sou eu?
    É Nessas horas que penso como é fácil se ver livre de tudo isso, como é doce o barulho da bala estourando o cérebro em mil partículas desfragmentadas, pintando as paredes de escarlate numa manifestação retrógada de insatisfação. Para nunca mais ver esse sol nascer, para nunca mais dormir sem ter com o que sonhar.
    De qualquer jeito, algum dia, a história continua e você fica para trás mesmo, parece que tudo nesse planeta possui uma espécie de data de validade, um código de barra, crescemos com a confirmação de que tudo é breve, inclusive nós mesmos. E talvez esteja aí o grande motivo e satisfação de nos tornarmos indispensáveis às pessoas, você não é do mundo, nunca será. Você é das pessoas que aprenderam a gostar de você e que com carinho te guardarão lá dentro por todos os anos que você não viverá.
    Voltando ao ponto em que estava, a semana chegava ao fim e os termômetros capturavam temperaturas cada vez mais baixas, era quase impossível chegar em casa depois da aula e não sonhar com um banho quente antes de mais nada. Renato, Carol e eu fizemos uma excelente prova de álgebra naquela sexta-feira, passamos a noite de quinta estudando, até três horas da manhã, entre cigarros e energéticos. O nome do Caio pela primeira vez fora comentado aquela noite, Renato soltou meio acanhado, no meio do nada, um nome em forma de indagação.
—O Caio?
    Eu me assustei com a pergunta, ele apoiava a testa com a mesma mão com que segurava o lápis, o cotovelo sobre a mesa. Carol afastou a cadeira e escondeu o rosto indo até a geladeira. Provocou um estalido rasgante ao abrir a latinha de Coca. —Eu sinto muito… —A voz saiu trêmula, os olhos foram cobertos pelas mãos, que ficaram livres quando deixou a cerveja sobre a bancada de mármore. Pela primeira vez, vi a menina de cabelos ruivos verdadeiramente sensibilizada. Sem aquela máscara arrogante e impenetrável que normalmente usava para se defender. Só eu, na intimidade segura de sua casa, e compartilhando de suas experiências diárias poderia flagrá-la e admirar o momento em que você percebe, sem sombra de dúvida alguma, conhecer alguém. Só me lembro de que, naquela noite, passamos um longo tempo sentados no chão, Carol no meio, e nos consolamos mutuamente. As lágrimas eram coletivas e o sentimento de culpa e perda recaia sobre ambos. As crianças haviam descoberto os perigos do mundo, todas as armadilhas, e pareciam ter medo de caminhar.  
     Nesses dias frios sinto uma enorme vontade de rodar por ai, colocar um gorro maneiro, um agasalho e dar uma volta, é algo involuntário. Vestir algo quente e sair andando, olhando as pessoas que se tornam mais atraentes. Nada melhor que alguns dias frios para equilibrar o espírito, para trazer paz às almas que sofrem. Em dias assim, Carol parecia uma velha reumática, se exilava num quarto escuro e abafado e aquilo me irritava demais. Aquele sono besta e sem fim. Naquela tarde eu a acordei, lhe sacudi um milhão de vezes até que dissesse algo consciente.
—Misto quente? —Foi o que ela disse, irada.
—Anda, vamos dar uma volta.
—Está frio… —Aquilo a abalara. —Quantas horas são?
—Quase cinco… e então? —Ela se levantara aturdida, um pouco cambaleante, saíra do quarto em silêncio.
—Carol? Você está parecendo uma velha reumática.
—Me deixe, Augusto. —Disse descendo a escada. —Vou apenas tomar uma soda e voltar para o meu quarto. Você é um chato, poderíamos pedir uma pizza e assistiríamos àquele filme que loquei ontem, “Velvet Goldmine”.
—Não, Carol… você tem mania de assistir o mesmo filme seis vezes seguidas. Eu não dou conta… estou querendo comer uma massa em algum lugar.
—Chame o Vinicius, seria uma companhia bem mais interessante que a minha. —Olhou-me sarcasticamente. —Aceita? —Ofereceu-me um refrigerante, levantei os braços e ela me jogara uma lata nas mãos.
    Olhando em volta a casa parecia-me totalmente escurecida, mesmo com as cortinas abertas. Aquilo me confortava. Depois de comermos algo, um sanduíche de presunto, peguei o telefone e liguei para Vinicius. Talvez poderíamos fazer algo num dia perfeito. Já que a perfeição se esconde na simplicidade das coisas. Quanto menos pretensioso, mais perfeito. 
—Não, Augusto. Ele acabou de sair e se não me engano, disse que ia à sua casa.
    O celular do cara não atendia, esperei algum tempo achando que fosse chegar. Carol já estava no terceiro capitulo do filme quando abri o portão da garagem e sai sem me despedir. Andava sem destino, até encontrar uma praça verde e humanizada, muito próximo ao campo do time oficial do estado, o Goiás esporte clube. Estacionei e fiquei por ali vendo estranhos comerem, rirem, enquanto eu apenas vagava pelas ruas como um fantasma, como alguém que ninguém vê… De onde estava, um banco solitário em um parque próximo de casa, retornei a ligação para Vinicius.
Chamou apenas uma vez.
—Como vai?—Disse. — Tentei falar contigo.
—Oi, Augusto. Eu pensei em passar lá na Carol, mas meu pai me pediu para ir até o banco e acabei me enrolando. Onde você está?
—Estou aqui, na rua. Estava pensando se você não gostaria de ir ao cinema.
—Tem crianças ai perto?
—É… eu estou ao lado de um playground. —Uma garotinha de apenas três anos, eu acho, ria e gritava o tempo todo com seu irmão um pouco mais velho. Ela estava usando uma tiara amarela com pequena borboletas que pareciam sobrevoar seus cachos macios. Sorri para ela.
—Que filme quer ver?
—…Eu não sei, talvez “ Elefante.''
—Poderíamos deixar para amanhã? Hoje foi um dia cansativo para mim… Minha mãe está saindo para o supermercado e…
—Então eu passo pra te pegar amanhã as cinco. Pode ser?
—Claro. —Estava desligando, mas fui tomado por um impulso— Vinicius?
—Diz.
—…Posso te mandar um abraço?
—…Se eu puder mandar outro.
—Eu vou deixar… —Disse tirando um sarro. Estão vendo a perfeição nas coisas despretensiosas? E talvez, nos verdadeiros impulsos.
—Então… abraço.
—Outro. —Respondi desligando.
    Aprendemos novas coisas todos os dias, pegando um livro para revisar a matéria que não  entendemos, observando atentamente alguém trocar uma simples lâmpada, contratando professores para nos ensinar o que muito queremos, tomando as decisões erradas, e com todas as decisões corretas que tomamos, também aprendemos um pouco, a cada dia aprendemos a dar um novo passo e assim caminhar. O que aprendi nesses últimos dias? Que sempre quando estivermos tendo um dia ruim, alguém lá fora está tendo um pior ainda, então pare e se concentre nas coisas boas... Robert Louis Stevenson escreveu: "Não se pode fugir da fraqueza. Você deve lutar ou falecer; e se for assim, porque não agora e onde você está?"
 




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(De um parque da cidade, Augusto liga para Vinicius)


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