sexta-feira, 27 de junho de 2014

27 - CORRA CAROL, FUJA

Trilha: Nine Inch Nails - just like you imagined   (e)  Nick Cave and The Bad Seeds - red right hand








                                                                 Voltando para casa naquele inicio de noite, loquei dois filmes, comprei uma pizza e pensei passar toda a noite com Carol. Estava ali há quase quinze dias, sem dona Lena presente tudo ficou meio desorganizado, não que a funcionária não limpasse tudo e preparasse as refeições, mas não tínhamos hora para nada e tudo era feito de acordo com o nosso astral diário, se fosse feito. Enquanto aguardava a pizza grande, meia Toscana meia Presunto Di Parma, imaginei que Renato fosse para lá mais tarde, e de qualquer forma seria uma noite agradável. Quando entrei percebi o som ligado, haviam velas e abajures acesos, e incensos também, o cheiro de canela no andar de cima era de embrulhar o estômago. Já no quarto de Carol ouvi a água do chuveiro e a luz do banheiro acesa, a cama ainda estava quente por seu corpo, provavelmente estaria elétrica até as três da manhã. E era exatamente essa rotina que me cansava, tendo que levantar as sete para estarmos no Campus, não descansava o suficiente.
—Carol, —gritei. — comprei pizza e trouxe uns filmes. Vê se não demora.
—Que ótimo, a fome me fez sentir trinta quilos mais magra.
—Acha que ligo para o Renato?
—Seria ótimo, Augusto! Eu não vou demorar.—Mal deu para ouvir sua voz. O telefone tocava, desci rapidamente para que pudesse atendê-lo.
—Oi. —Talvez pudesse ser dona Lena, e já havia reclamado que a noite não atendíamos suas ligações.
     Ninguém respondeu.
—Alô? — Era apenas um silêncio nítido, mudo, vazio.
—Oi... Quem é? —Eu tentei contato. Ninguém respondeu, soquei o fone no gancho e voltei a cozinha, abri a caixa de pizza. O aroma era tentador, Carol descia os degraus fazendo barulho, cabelos molhados, o som ainda tocava alguma coisa do Nine Inch Nails.
—Nunca dormi tão bem em toda minha vida. —Disse. —Sabia que quem dorme mais vive um tempo muito maior?
—Dormindo? —Fui irônico.
     Ela abriu uma porta do armário e retirara dois copos— Onde você esteve?
—Andando… nada de mais.
—Ligou para o Renato? Quando falei com ele mais cedo, disse que já pensava em vir aqui. Ficar naquele apartamento com o pai dele deve ser terrível.
—Ainda não liguei.
    Levou os copos até a pia para um enxágüe, andava cismada de que a funcionária vinha deixando sabão nos copos.
—Por quê fala assim? Você já esteve na casa do Renato? Quero dizer... lá dentro.
—Algumas vezes... Na verdade, Augusto, não quero falar muito sobre isso porque o Renato é quase um irmão pra mim... Mas não é nada bom, não sei como ele suporta.
    Fiquei por um tempo a imaginar o que Carol queria dizer com aquilo, além de Renato ser bolsista, já havia notado que dentre nós, quando saímos ou estávamos fora do Campus, era o que se vestia de forma mais simples. Tudo bem, ele possuía umas camisetas legais, e uns dois tênis bem maneiros, mas quase tudo antigo.
—Suco ou refri? —Perguntou com a caixa de suco em mãos. “suco”, eu disse. Ela concordara imediatamente. —Preciso parar com refrigerante, sucos são mais saudáveis. Além do mais acho que ando fumando demais… tenho me achado gorda!
—Eu também tenho me sentido tão cansado.
—Deve ser de tanto fumar.
—Deve ser mesmo. Mas o que tem a ver o cigarro com o seu peso? Acha que o cigarro está te engordando?
—Às vezes tenho essa impressão, eu pareço associar as duas coisas, e acabo comendo tanto quanto fumo. Preciso me tornar macrobiótica, eu digo sério.
—Isso é autodestruição, você estaria se privando das melhores coisas, de toda a gordura de porco, sem falar dos corantes artificiais que ficam ótimos em quase tudo. Não é sensato… definitivamente. —O telefone voltara a tocar. —Acho melhor você atender, não está completando, pode ser sua mãe tentando falar com você.
—Ultimamente até que ando sentindo falta daquela bandida. Acredita? Já teve um dia em que pensei que isso jamais fosse acontecer.
     Carol deixara o pedaço de pizza num prato, sobre a mesa, e foi até a sala atender a ligação.
—Adivinha quem é? — Perguntou como se estivesse fazendo uma pequena surpresa.
—Como está esta noite, Caroline? —Indagou pausadamente a voz rouca e distorcida do outro lado. 
—Quer falar com quem? —Disse Carol imitando um exemplo de mulher madura. 
—Eu perguntei, como está sua noite?
—Que coisa ridícula, quer se identificar ou pelo menos dizer com quem gostaria de falar?
—Eu? Gostaria de falar com Caroline, por gentileza.
—É Carol seu idiota, e que voz é essa? Quem é você afinal?… —Depois, obviamente, chegamos a conclusão que era a mesma pessoa que semanas antes ligava para o meu pai.
—Olha aqui sua vagabunda. —Sua voz chiada e masculina se elevou. —Vou lhe avisar uma vez só. Fique longe do Augusto.
—Ah! Eu sabia que era você, Vinícius. Depois daqueles filmes de terror adolescentes que surgiram nos últimos anos essas brincadeiras ficaram tão sem graça. Não assusta mais ninguém… —Riu em pleno deboche.
—Assusta você?
—Vinicius, isso não assusta ninguém!
—Não... não, não... você está enganada, Caroline... Eu não sou o Vinicius. —fora implacavelmente frio. — Sou muito mais intimo do que pensa. Eu conheço toda a verdade...
—Quem é?
—Antes de mais nada, gostaria de lhe dar os meus parabéns pela forma como jogou Caio no rio, foi surpreendente. Precisou ser muito perversa para executar aquele golpe. Digamos que você seja uma das minhas.
—Quem está falando? —Eu estava na cozinha e pude vê-la se contorcer pela porta. “Talvez a avó dela estivesse morta,” pensei naquele momento.  Me levantei com a intenção de estar próximo caso precisasse.
—Agora, você deve adivinhar quem sou eu. —Talvez, Carol pensou por um minuto, aquilo fosse uma pegadinha policial para terem provas de que havíamos sido nós.
—Eu não sei do que você está falando… Eu não vejo o Caio desde…
—Não minta pra mim, Carol. Eu estarei de olho, e te digo uma coisa, se você não se afastar do Augusto, você vai ter o fim que merece, sua cadela ruiva.
—Essa sua voz é patética, seu cretino imbecil.
—Que tal se eu te abrisse todinha com um bisturi?
—…Você não teria coragem. —Ela não tinha certeza disso.
—Você está com medo.
—Não. —Ela disse, já em estado de pânico.
—Não minta, eu posso te ver. Você está tremendo.
    Carol foi até a janela, por simples curiosidade. Eu ainda não sabia ao certo o que estava acontecendo e a observava a distância.
—Esse seu macacão vermelho combina perfeitamente com os seus cabelos.
    Ela estremeceu, havia acabado de vestir seu macacão. Fechou a vidraça e olhou para os lados, como se procurasse algo. Na verdade procurava alguém.
—Onde você está?
—Perto.
     Ouvi um estrondo, como aqueles que passam na tevê quando alguém saca uma arma, ouvi o barulho de vidro se quebrar logo em seguida, e um grito tão agudo que doeu meus ouvidos. Deixei a pizza sobre a mesa e corri até a sala. A enorme vidraça se espatifara no chão, haviam vidros por toda parte, e Carol, jogada em prantos entre eles.
—Caramba! O que foi que aconteceu? —Tentei ajudá-la.
—Ele está aqui. —Disse se levantando rapidamente, um filete de sangue escorria do cotovelo até a mão. 
—Ele quem, Carol?
—O homem do telefone, ele quer me matar, Augusto. Liga para policia.
—De quem você está falando? —Abracei-a.
—Você não ouviu o tiro?—Estava transparente. —Augusto, você não pode ficar mais aqui… eu não posso mais ficar aqui. Vou para casa da tia Valéria agora mesmo. E você vai sair comigo, está me ouvindo? —Ela não falava coisa com coisa, simplesmente subiu, colocou algumas coisas dentro da mochila e me pediu para que fizesse o mesmo.



Copyright 2010




(Carol está aterrorizada após sofrer um atentado)


Nenhum comentário: